Papoilas Saltitantes
03
Abr

2014

Somos cada vez mais

Por Tiago Quartilho

 

A semana passada, no dia da 1ª mão da meia-final da taça de Portugal, no dragão, eu e outro dos escritores deste espaço fizemos uma aposta.

Tendo em conta o habitual desempenho do mestre da táctica naquele recinto desportivo, para grande pena minha era minha convicção que iríamos perder essa primeira mão. O que nem é grande preocupação para mim, porque ainda temos um jogo em casa, concordo e há anos que defendo uma maior rotação do plantel, e porque, vamos ser sinceros, para mim, a taça de Portugal é um bocadinho como a taça da Liga. Só é importante quando não se consegue ganhar nada nas competições que realmente importam, neste caso, o campeonato e a Liga Europa.

E portanto, apostámos que se o Benfica perdesse, seria esse meu colega a escrever o texto semanal deste espaço. Se o Benfica ganhasse, escreveria eu. Se empatasse, escrevíamos os dois, numa troca de emails sobre o jogo e sobre o mestre. Ele um grande defensor do Jorge, eu um crítico convicto.

O resto é história. O Benfica não jogou nada, e perdeu naturalmente a partida. De referir que o Artur se apresentou em grande forma, não só pelas defesas reais que fez, como pelo regresso do poder Jedi com que desvia bolas para os postes. Outra nota, é o facto do Fernando, o mais recente “português”, ter feito 19 faltas para amarelo e uma para vermelho directo (que Adrien decidiu tentar copiar neste último fim de semana), tendo ironicamente visto a cartolina devido a um xing-xong na grande área numa bola parada seguido de palavras dirigidas ao árbitro da partida. Se fosse o Maxi, andavam todos malucos…

Quanto ao texto, o meu colega benfiquista, tal qual o mestre que ele tanto gosta, é muito mais forte nas palavras do que nos actos…

 

E por isso aqui estou eu novamente. Na minha última participação no Papoilas, escrevi sobre a fanfarronice do mestre da táctica. Chamei-o até de Galaró. Disse que estava esquecido dos desaires da época passada, cada vez mais convencido que é um adiantado mental, e que na minha opinião é uma figura que não representa a história do Benfica, e não orgulha o presente dos benfiquistas.

No dia a seguir a este meu desabafo, o Benfica jogou contra o “Tó-Téne”. E o mestre, naqueles 90 minutos de jogo e 60 seguintes, provou tudo aquilo que acho dele.

Concordo com os que dizem que o Benfica está muito melhor nestes anos do que nos 10 anteriores à chegada do Jorge. Já disse aqui que uma das grandes vantagens das suas equipas é lutarem de início ao fim, e nas épocas anteriores sempre com uma intensidade diferente do que (infelizmente) estávamos habituados. Estamos nestes 5 anos mais perto do FCP do que estivemos nos 20 anteriores.

A equipa joga melhor, marca mais golos, marcamos sempre golos em (quase) todos os jogos, e conseguimos nestes duas últimas épocas séries fantásticas de jogos consecutivos sem perder. Tudo isto é factual. O facto de termos melhor plantel na era de Jesus do que no passado é também uma verdade indesmentível, suportado por uma verdadeira enxurrada de compras e vendas de muitos milhões (para onde foi esse dinheiro todo, ainda um dia se irá descobrir, mas isso é outra conversa).

 

No último ano em que foi campeão, o Benfica tinha no seu onze mais utilizado David Luiz, Ramires, Javi Garcia, Di Maria, Coentrão, Aimar e Saviola (ambos ainda em grande forma). Tudo jogadores de qualidade e com capacidade para jogarem na maioria das equipas do mundo, conforme se comprovou posteriormente, não retira o mérito que existe ao trabalho do Jorge. Mas atenua a importância crucial que ele próprio continua a pensar que teve em todo este processo, principalmente porque o resultado de todas estas épocas que muitos benfiquistas consideram de sucesso, foi até ao momento um campeonato nacional e algumas taças da Liga. Não esqueço a presença na final da "AeroLiga", mas de finais perdidas não rezam as lendas.

E este campeonato, a ser ganho (acho que neste momento já nem o mestre o vai conseguir perder), não tem o fulgor da sua primeira vitória, até por sermos o líder com pior ataque dos últimos anos, e termos ganho 5 vezes por 1-0. Este é mais à Mortimore do que à Jorge da primeira época. Por curiosidade, o técnico inglês foi também o última a ganhar a dobradinha, na época de 1987.

Agora, todo o mérito que o mestre possa ter, não pode justificar o seu comportamento totalmente inaceitável e recorrente. Ele é uma das imagens do Benfica actual.

 

Ao longo destes quase 5 anos, o Jorge já gritou com o director para o futebol, empurrou e insultou o seu adjunto vezes sem conta, mostrou 4 dedos ao Manuel Machado, bateu num polícia, mostrou 3 dedos ao Tim Sherwood, empurrou e gritou com o Shéu e berrou ao Rui Costa. Tudo isto perante as câmaras de televisão e a total inexistência de punição ou reprimenda por parte do presidente do Benfica. A estrutura do futebol do clube neste momento é Luís Filipe Vieira, Jorge Jesus e todos os restantes, por esta ordem. O homem diz e faz o que quer.

Neste último episódio decidiu faltar ao respeito de uma só vez ao treinador e clube adversários em casa dos mesmos, ao seu próprio adjunto, e a duas figuras importantes da história do clube, Shéu e Rui Costa. Já nem vou falar do momento absurdo de “dança” após o golo de Rodrigo, e as desculpas esfarrapadas e ridículas na conferência de imprensa, para o porquê dos 3 dedos no ar…

Custa-me ver o meu clube com esta imagem nacional e internacional. E era também isso que queria dizer com o meu último artigo. Nunca pensei que o mestre me desse tanta razão, e tão rapidamente.

Independentemente das possíveis vitórias este ano, estou farto do Jorge. Mas tenho também noção que se ele ganhar, como espero, vou ter que levar com ele e as suas figuras ridículas e vergonhosas mais uma época. E se ele ganhar tudo então, se calhar ainda me convencem que é merecido.

 

Hoje joga-se a primeira mão dos quartos de final da liga europa. Olhando para o sorteio, é óbvio que nos calhou o “brinde”. Penso que estão reunidas todas as condições para a passagem da eliminatória, pela diferença de qualidade e experiência dos dois conjuntos, e também porque o adversário é holandês. Que me perdoem, mas basta ver um resumo da jornada desse campeonato para perceber que as equipas por lá são demasiado optimistas e ingénuas para as grandes competições do futebol europeu.

Apenas duas notas rápidas sobre o jogo de hoje:

 - Se a ausência de Enzo já era conhecida devido ao castigo, a de Fejsa deixa algumas dúvidas, até pelos resultados e exibições nas últimas partidas sem o Javi Garcia sérvio. A minha opinião sobre Rúben Amorim já está suficientemente documentada…

 - O Benfica defronta hoje um dos treinadores cujas equipas e selecções mais me entusiasmaram nos últimos anos. O Zenit e a selecção russa de Dick Advocaat praticavam futebol de grande qualidade, sempre num estilo muito técnico e ofensivo, e foi um treinador que durante algum tempo defendi para o Benfica. Os argumentos são diferentes, mas espero dois jogos interessantes nesta eliminatória.

 

PS - Por esta altura já perceberam que o título não tem nada a ver com o conteúdo. No fundo é só a constatação, já habitual, em anos em que as coisas correm bem no campeonato. No início da época éramos 25.000 nos jogos em casa, agora somos mais de 50.000. Por vezes parecemos os sportinguistas que conheço, que só “ligam” ao futebol quando a equipa está a ganhar….