Papoilas Saltitantes
02
Dez

2011

O Teatro dos Sonhos e o novo Rei Artur

Por Tiago Quartilho

 

 
Um dos jogos que mais me marcou enquanto adepto de futebol foi um Man Utd – Real Madrid. Estávamos em Abril de 2003 e jogavam-se os quartos de final da Champions League.
 
O Real Madrid tinha ganho em casa 3-1 e jogava agora em Old Trafford e eu não gostava especialmente do Man Utd nem tinha nenhuma ligação especial a esse estádio.
 
Depois de um golo madrugador de Ronaldo, Ruud van Nistelrooy empatou. No início da segunda parte, novo golo de Ronaldo e novo empate do Man Utd, com um autogolo de Ivan Helguera. Mas aos 58 minutos, a história do jogo ficou definitivamente decidida com um grande golo de... Ronaldo!
 
Mas não se pense que foi pelo jogo em si (Beckham marcaria ainda mais 2 golos no final, para eventualmente ganhar a partida) que essa noite ficará para sempre na minha memória gravada como um dos momentos mais sublimes a que assisti durante um jogo de futebol.
 
Esse momento estava guardado para o minuto 67, altura em que Ronaldo é substituído por Solari. E o que aconteceu? Qual a reacção dos adeptos, na sua grande maioria fãs do Man Utd?
 
O estádio todo de pé, a aplaudir, numa standing ovation de mais de 1 minuto. A aplaudir um jogador adversário que “sozinho” acabou com as possibilidades do clube pelo qual eles torcem continuar na competição. Era o reconhecimento pela exibição espectacular de um verdadeiro fenómeno do futebol mundial.
 
Tenho pena de não encontrar nenhum video desse momento, mas ainda assim sempre que penso nesse minuto fico arrepiado. Aquele minuto representa para mim tudo o que o futebol e o desporto têm de bom, e as grandes diferenças culturais existentes na apreciação de um espectáculo desportivo.
 
A partir dessa noite, passei a gostar do Man Utd e a adorar Old Trafford.
 
Na passada semana, o Benfica jogou no Teatro dos Sonhos contra o “Unaite”, e pode bem ter sido o momento mais importante da época do glorioso.
 
 
Não pelo resultado, que foi bom para o que aconteceu durante os 95 minutos em que poucas vezes conseguimos manter a bola com qualidade, e nos quais alguns jogadores pareceram também eles deslumbrados pelo estádio. Nem sequer pelo apuramento para a fase seguinte da prova, até porque penso que essa meta seria de uma forma ou outra alcançada contra o Otelul na última jornada desta fase de grupos.
 
O que aconteceu de mais relevante nessa noite foi a magia da união entre equipa e adeptos, que vinha faltando desde o ano do último título. Foram 95 minutos de apoio constante e bem audível, mesmo na TV. Na época passada, mesmo durante uma série de vitórias incrível, nunca houve esta ligação. Nunca os jogadores pareceram tão claramente inspirados pelos adeptos.
 
Acredito que esta ligação é um dos catalisadores indispensáveis para uma época de sucessos. O presidente do SLB parece também o sentir, e muito bem veio agradecer publicamente através do site do clube o impressionante apoio dado ao clube em Manchester.
 
Do jogo, aquele que foi praticado dentro das quatro linhas, penso que pode servir para análise acerca da matriz táctica aconselhável para a segunda fase da prova, se encontrarmos pela frente outro gigante do futebol europeu. Uma equipa com linhas recuadas, muito solidária em termos defensivos, mas a necessitar de mais posse de bola no meio campo ofensivo.
 
Esta estratégia tem como base uma boa dupla de centrais em Luisão e Garay, mas principalmente a qualidade indesmentível e calma sobrenatural que Artur Moraes demonstra na baliza. Sem querer entrar nas hipérboles fáceis, tão vistas na nossa comunicação social, penso que desde Preud’homme que a baliza do glorioso não está tão bem entregue.
 
Achei também muito bom sinal a forma como me senti no final do jogo. Satisfeito, mas não exuberante. Foi mais um sentimento dever cumprido, pelo apuramento para a próxima fase. Este também é um sintoma de confiança e grandeza. O agir “como se já estivéssemos estado lá”, com naturalidade pelo facto de irmos empatar fora em Inglaterra, e termos todas as condições para garantir o 1º lugar do grupo.
 
No último fim de semana jogou-se mais uma partida da liga portuguesa e vencemos com naturalidade um oponente de “outro campeonato” que ainda assim, e para ser justo, equilibrou a partida em alguns momentos do jogo, talvez hiper-motivado por estar apenas a 1 ponto dos candidatos ao título. Penso que na cabeça dos jogadores do Sporting e seus adeptos poderá estar a tentativa de imitar o Braga de 2009-10 como a surpresa deste campeonato. Pelo que vi no sábado penso que os sportinguistas podem estar optimistas numa boa época, e até quem sabe ambicionar ficar a menos de 25 pontos do campeão deste ano, ao contrário dos 28 e 36 das últimas edições da prova.