Papoilas Saltitantes
13
Nov

2011

O Capitão das Vitórias

Por Tiago Quartilho

 

 
Estive na outra 4ª feira no Estádio da Luz para assistir à partida com o Basileia num jogo que podia e devia ter-nos garantido o apuramento para a fase seguinte da competição, mas quando cheguei a casa nessa noite só pensava que o estrangeiro com maior número de jogos pelo Benfica, que é também o companheiro de equipa com maior número de socos no Katsouranis dentro de campo, passou a ser para mim o Capitão das Vitórias. Ah, e lembrava-me também das sardinhas assadas da minha avó, mas a isso já lá chegarei.
 
O que aconteceu? Apenas e só aquilo que já todos vimos em tantas outras ocasiões, nomeadamente nas épocas do actual seleccionador grego ou do namorado da Orsi. Este fenómeno caracteriza-se de forma algo simplista como apatia, alheamento, sobrevalorização do ego individual, falta de combatividade, total desfasamento emocional em relação à importância do jogo, etc. 
 
Em termos futebolísticos o jogo foi sofrível, e o Benfica apresentou pouca velocidade, esclarecimento e ambição. Tal como já aconteceu nos últimos dois anos em jogos chave nas competições europeias, a equipa (o treinador?) pareceu contente com um resultado pouco positivo. A falta de vontade apenas foi superada pela incapacidade de manter um nível aceitável durante 90 minutos. Não se pode aceitar que uma equipa que se pretende forte nas várias competições, acabe todos os jogos em dificuldades físicas, com jogadores em claro sub-rendimento. 
 
Mas na minha opinião, apesar de tudo isto já chegar para exasperar o benfiquista mais impaciente , o mais grave não foi o que se passou ao nível do jogo propriamente dito, mas sim a totalmente inaceitável atitude de estrela mimada de alguns dos jogadores . 
 
Basicamente, um perfeito exemplo de tudo aquilo que quem não gosta de futebol ou não é adepto de um clube critica, e usa como argumentos (acho que já todos os ouvimos) para nos acusar de sermos parvos, ou seja, seguirmos um desporto cujos praticantes ganham milhões às nossas custas, e simplesmente não querem saber. 
 
Mas não se deixem enganar pela comunicação social, não foi apenas um só jogador com este tipo de comportamento. Aliás, o que surgiu nos jornais nem foi a situação que mais me revoltou. 
 
Sim, o Cardozo e o Nolito entraram claramente amuados. Jogaram a fazer um frete, não correram, e quando acabou o jogo saíram directos para o balneário, rejeitando os apelos da equipa técnica para irem com a restante equipa ao centro do relvado (Cardozo chegou mesmo a "enxotar" um dos adjuntos). 
 
E até podia ter ficado mais irritado com essa situação, se não fosse o facto do capitão do Benfica ter feito exactamente a mesma coisa, gesticulando que o motivo era os assobios que se tinham ouvido na parte final do jogo.
 
(Antes de mais, e para que fique claro, eu não assobio nenhum elemento do SLB no estádio. Não só porque acredito que prejudica mais do que ajuda, mas principalmente porque não sei assobiar. Não compreendo as pessoas que assobiam no estádio, mas quem me irrita mesmo a sério, são as pessoas que mandam vir com quem assobia. Vocês sabem de quem eu falo, aqueles que são mais benfiquistas que os outros, e que apesar de só irem aos jogos grandes dão lições como "se é para isso fiquem em casa" aos outros que estão lá em todos os jogos)*
 
 
O adepto paga quotas, paga cativo, paga bilhetes, paga transporte e/ou estacionamento, paga o cachorro e a cola a preços de Estocolmo, enverga a camisola que custou quase 1/5 do ordenado mínimo nacional. E o facto do adepto pagar isto tudo, faz com que esse senhor receba para jogar à bola num ano de "trabalho" aquilo que eu receberia em 70 anos com o meu vencimento actual. Para jogar à bola, é tratado como um rei pelo clube e sociedade, com condições e horários fantásticos. Para jogar à bola! 
 
Além deste pequeno pormenor, esse mesmo adepto, que veio de Valença de autocarro com o farnel e o garrafão para ver o Benfica, e que volta a seguir ao jogo para casa, onde vai chegar às 4 da manhã mesmo tendo de acordar às 7 para ir trabalhar, esse mesmo adepto já era do Benfica ainda esse senhor não sabia o que era uma bola. Já aplaudia, assobiava, sofria, rejubilava com o Benfica. E tudo isto garante inequivocamente a esse mesmo adepto o direito de assobiar quem e quando quiser. 
 
Por todos estes motivos, o capitão do Benfica não pode fazer o que fez Luisão na quarta-feira. Tem de ir ao centro do relvado. Mesmo que fosse sob um coro de assobios, engolia esse orgulho infantil, e depois podia fazer o que quisesse no balneário. Ele é sempre o capitão, não é só nas vitórias. Quando tudo corre bem é fácil ser capitão de uma equipa. Quando algo corre mal é que se distingue o carácter e capacidade humana para liderar um grupo de homens. 
 
Quanto às sardinhas da minha avó a explicação é simples. Elas só "se deixam comer em meses que não têm R". Ora o Luisão só está bem no Benfica nos meses que não começam por J. Vamos ver em Janeiro que clube lhe fará uma proposta "única" e que "garante o futuro", para que Luisão tenha a generosidade de querer "dar lugar aos mais novos". Mas ele ficará por cá, pelo menos até Junho e Julho, quando meio mundo andará novamente de olho no girafa. Parece o Beto, que todos os verões "ia" para o Real Madrid, mas ao menos o Beto bisou contra o sporting. 
 
 
 
* Logo no 2º texto coloco a fasquia bem alta na competição para o maior parêntesis do 11para11