Papoilas Saltitantes
06
Fev

2015

Meter a carne toda no assador

Por Ricardo Rodrigues Rocha

 

Expressão celebrizada por Quinito, à época treinador do Vitória SC, que se aplica totalmente há minha visão para o Dérbi de Domingo próximo.

Acredito que neste momento subsistam duas dúvidas existenciais na mente de JJ:

1º Deverá o Benfica reeditar a estratégia bem-sucedida no Dragão, apostando no reforço do meio-campo com a entrada de Pizzi na equipa e a consequente saída de Jonas? Ou deverá o Benfica manter-se fiel ao seu "esquema" tradicional?

2º André Almeida ou Eliseu?

Se o segundo, dilema é uma questão meramente de seleção de um ou outro jogador (suspeito que Almeida será a surpresa no 11), o primeiro dilema é, sem dúvida, o de mais difícil conclusão.

O Benfica chega ao dérbi com 7 pontos à maior sobre o "eterno rival" que pode e deve gerir. Por outro lado, joga fora, num jogo que acarreta sempre um grande peso emocional e contra um adversário motivado com a última réstia de esperança (no que ao titulo diz respeito) e pela bela sequência de resultados que conquistou nesta fase.

 

Perante este enquadramento, é perfeitamente legitimo que JJ pense numa mudança de sistema, apostando no reforço de meio-campo que permita equilibrar numericamente o duelo com o trio de meio-campo do Sporting, apostando em Samaris para a posição 6 e Talisca + Pizzi para jogarem à sua frente, assumindo intervaladamente a missão de ligar o jogo com o avançado.

Neste cenário, o avançado seria, seguramente Lima, porque tem uma capacidade pressionante sobre os centrais do Sporting (que é o ponto mais fraco dos leões, mas já lá vamos) incomparavelmente superior a Jonas, porque correu bem (e de que maneira) no Dragão, porque Lima dá mais profundidade ao ataque, pedindo bolas nas costas da defesa e descaindo inúmeras vezes nas faixas, permitindo desposicionar a defensiva leonina e abrindo espaço para as incursões pelo centro do terreno de Talisca, a especialidade do baiano.

A aposta por Lima em detrimento de Jonas impede que a linha defensiva do Sporting possa jogar mais avançada no terreno, e, ao não permitir que o defesa e meio-campo do Sporting joguem mais juntos, aumenta o chamado "espaço entre linhas" e dificulta a missão defensiva de William, abrindo um espaço muito interessante para Talisca explorar.

Vantagens desta opção estratégica:

1º Maior equilíbrio de forças a meio-campo;

2º Potencia as transições rápidas, na medida em que a equipa estando mais equilibrada no duelo do miolo, e com o bloco mais baixo, conseguirá no momento de recuperação projetar mais facilmente as saídas em profundidade de Lima ou a saída pelo flanco com Sálvio;

3º Correu bem no Dragão e isso dá maior confiança à própria equipa que será mais "crente" na possibilidade de sucesso desta estratégia;

Mais espaço entre linhas, quer para Talisca (como já foi dito) quer para os movimentos interiores de Gaitan;

Desvantagens:

Perde-se a classe e a inteligência de Jonas e facilita o trabalho dos centrais porque terão superioridade numérica em muitos momentos do jogo, em especial de Paulo Oliveira (que se sente mais confortável quando está mais "livre" para ler o jogo e procurar a antecipação)

Sistema menos rotinado

Perde-se a pressão alta, em que o Benfica é forte

Alivia a saída de bola do Sporting (que é o seu ponto mais débil)
 
Pizzi não é Enzo


Por oposição, a manutenção do esquema tradicional da equipa, com Samaris e Talisca no meio campo e Jonas-Lima na frente de ataque, significa a manutenção da identidade da equipa, da forma de jogar em que se sente mais confortável e em que está mais rotinada, tendo também vantagens e inconvenientes.

Vantagens:

Lima e Jonas a incomodar a 1ª fase de construção do Sporting. O Sporting gosta de jogar apoiado, suportado em passe curto e numa transição em posse. Com Lima e Jonas, em que Lima pressiona o portador da bola e Jonas fecha linha de passe, o Sporting poderá ter muitas dificuldades em ultrapassar essa primeira barreira de pressão do SLB...e não saindo com qualidade dessa pressão, mais dificilmente colocará em campo o seu ponto mais forte... a sua dinâmica ofensiva no ultimo terço.

Lima e Jonas colocam a nú as fragilidades do eixo central da defesa leonina. Se a dupla Mauricio-Saar do início da época era uma visão apocalíptica, Oliveira-Tobias não melhora muito a coisa. São ambos individualmente melhores que os seus antecessores, ok, concedo isso, mas nenhum deles resolveu o principal problema daquele eixo defensivo...a capacidade de construção de jogo.
Se a isso juntarmos William que também não tem na construção/transição ofensiva o seu ponto mais forte (raramente opta pela progressão com bola ou por um passe de ruptura, preferindo sempre "lateralizar") o Benfica, com os seus avançados a que se somam Gaitán, Sálvio e Talisca poderá conseguir montar uma teia de cinco homens que bloqueie a saída de bola verde.

Se conseguir assumir o controlo e a iniciativa do jogo, o quinteto da frente poderá ser verdadeiramente demolidor e resolver ("facilmente") a partida.


Desvantagens:

Se a tal teia não funcionar na 1ª fase de pressão, Samaris poderá ter muita dificuldade frente a Adrien e João Mário, que jogam com uma rotação muito superior à do Grego.

A condição física de Gaitán - assumindo que Gaitán tem entrada direta no 11, a sua condição física (se não estiver a 100%) poderá ser um entrave a esta estratégia. Apesar de tudo, no esquema com 3 médios está mais resguardado e não tem tanta exigência física no processo defensivo.


Em resumo, pesados os prós e os contras, a minha sugestão para JJ é que opte pelo esquema habitual…

“Mister, mete a carne toda no assador!”