Papoilas Saltitantes
10
Jan

2014

King

Por Tiago Quartilho

 

Numa semana de clássico, poucos são os assuntos suficientemente importantes para me levar a escrever sobre outra coisa. Quem me conhece sabe que tenho uma relação com a morte diferente da maioria das pessoas, e não sou dado a elogios e homenagens póstumas, mas claro que a morte de Eusébio da Silva Ferreira é um desses assuntos.

E eu nem sou a pessoa ideal para escrever sobre o Rei. Porque nunca o vi jogar ao vivo, não vivi na época em que a sua importância para o Benfica e para o país foi tão determinante como uma das poucas janelas para o exterior (e do exterior cá para dentro). E porque, e isto até me custa admitir, já vi mais jogos do Carlos Martins e do Rúben Amorim pelo Benfica do que do Pantera Negra na TV.

O ideal seria o meu avô ainda estar vivo, para me poder relembrar todas as histórias que me foi contando ao longo dos anos sobre Eusébio. E sempre o considerei uma boa fonte, até porque jogou várias vezes contra ele e não era do Benfica.

 

O que retenho da sua carreira são, tal como já referi, momentos dispersos, provenientes do que já vi na TV e das tais histórias contadas pelo meu avô. Não vou falar sobre o que toda a gente sabe ou já ouviu nestes últimos dias, como os jogos contra a Coreia e Inglaterra em 66, ou do jogo da final contra o Real Madrid.

Um dos momentos que sempre me lembro de ouvir contar, quando se fala de Eusébio, passa-se em Turim. Penso que todos já sabem a história, mas de qualquer forma não podia deixar de escrever sobre ela. Jogava-se a segunda mão das meias-finais da Taça dos Campeões Europeus de 68, na qual jogaríamos a final em Wembley contra o Man United. Depois de uma vitória por 2-0 em casa, fomos a Turim ganhar 1-0 com um golo de livre do Rei.

O livre foi de muito, muito longe, e todos falam da forma como o guarda-redes italiano nunca acreditou que Eusébio batesse directo daquela distância, ou que pudesse criar perigo se o fizesse. Mas normalmente são os pormenores que fazem uma memória, mesmo que contada, porque são eles que nos conseguem fazer imaginar realmente o que se passou, ou fazer de conta que estávamos lá também. E neste caso, o pormenor é a reacção dos adeptos italianos presentes no estádio quando viram que Eusébio ia tentar o remate “pouco” à frente do círculo central.

Na rádio, diz quem ouviu, eram perceptíveis os risos de gozo e incredulidade perante aquela tontearia do jogador português. Quando Eusébio bate o livre há mais de um segundo de total silêncio (na rádio e no estádio), até que se ouve a bola a bater na rede, os gritos de festejo de quem fazia o relato e finalmente após uns segundos, e aqui mais um pormenor que faz a história, o aplauso colectivo dos adeptos italianos perante o que acabaram de assistir.

Claro que as histórias valem o que valem, cada vez que são contadas mudam ligeiramente, e alguns dirão que estou a exagerar. Pois a mim isso pouco me interessa. Esta é a história que o meu avô me contou, é a que eu presenciei na minha cabeça e imaginação vezes sem conta, e portanto para mim, é esta que conta.

 

A segunda história é mais pequena, e só tem importância para mim. Na primeira vez que o meu avô defrontou o Eusébio num jogo para a Taça de Portugal perdeu por (julgo) 12-2. Os elogios que ele sempre fez ao que via Eusébio fazer são ainda maiores depois de partilhar um campo com ele. A descrição que sempre fazia era de que parecia que estava um automóvel a disputar a Volta a Portugal em bicicleta.

Mas o momento que o marcou, e a mim por consequência, foi no final da partida, quando o King foi falar com ele para lhe perguntar, com aparente interesse e curiosidade de menino, como tinha o meu avô marcado o segundo golo (um parêntesis é necessário para explicar a curiosidade do Pantera Negra. Segundo o meu avô, e alguns dos seus antigos colegas de equipa, ele costumava fazer um movimento que era mergulhar em peixinho – sim, era pelado, e do bom – mas em vez de cabecear dobrava as pernas e rematava com os calcanhares durante o salto. Dizia ele que era muito difícil cabecear em peixinho de forma a que a bola subisse, e desta forma a bola ele conseguia que a bola passasse sempre por cima do guarda-redes). Ficaram depois uns momentos à conversa, e a imagem que sempre ficou para o meu avô era de genuína humildade e simplicidade, futebol e desporto na sua pureza.

 

Cada um forma a sua opinião sobre uma pessoa ou um acontecimento consoante a sua vivência, e portanto, este foi um dos elementos que ajudou a formar a minha imagem de Eusébio. E é também por isso que o momento clássico em que ele após o primeiro treino na equipa principal do Benfica (equipa essa que tinha ganho ao Barcelona pouco tempo antes), no qual jogando pelos suplentes marcou 3 ou 4 golos aos titulares, comentou com o Sr. Mário que achava que ia conseguir jogar naquela equipa a mim nunca me soou a presunção ou arrogância, mas sim a um comentário genuíno, despreocupado e talvez até ingénuo. Simões conta que entre os restantes jogadores começou logo nesse momento a discussão de quem ia “ter que sair para o miúdo entrar”.

E para mim a maior prova desta pureza foi o que se passou nos momentos logo após o apito final da final ganhar contra o Real Madrid. Eusébio contou mais tarde o que se passou, mas nem era preciso pois a prova está nas imagens de TV que já todos vimos dezenas de vezes. O King em tronco nu, em ombros, a festejar efusivamente com o braço direito levantado no ar, e a mão esquerda dentro dos calções.

Contou o Pantera Negra que alguns anos antes em África já ele sonhava defrontar o Real Madrid e idolatrava Di Stéfano. Os jornais chegavam muitas das vezes rasgados porque outras pessoas já os tinham lido, mas ele sempre procurava notícias sobre o Real Madrid e o seu ídolo. Quando teve oportunidade para vir para Portugal e para o Benfica, o sonho de os defrontar cresceu e naquela final, a importância do jogo em si estava bastante relativizado na sua mente. Claro que ouvia e sabia que a final da “Taça da Europa” como ele lhe chamou era importante, mas para ele, o mais importante era defrontar o Real Madrid e Di Stéfano.

No final da partida, enquanto todos os colegas festejavam e o público invadia o relvado, a única preocupação de Eusébio era conseguir a camisola do avançado argentino. E tudo isto poderia ser conversa de circunstância, muitas vezes contada a posteriori e na qual desportistas contam a sua versão dos acontecimentos, em bastantes casos pouco credíveis. Mas tal como referi a prova está nas imagens. Depois de conseguir a tão desejada camisola, o King escondeu-a dentro dos calções, sempre segura pela mão esquerda, com medo de a perder ou que a tirassem no calor dos festejos. Mesmo naquele momento de grande alegria, a importância daquela camisola nunca passou para segundo plano.

Muitos anos mais tarde, Di Stéfano que entretanto ficou seu amigo, retribui os elogios e a admiração, reiterando que na sua opinião, Eusébio foi  o melhor futebolista da história.

 

Esse género de títulos e comparações são sempre subjectivas, e mais importante, impossíveis de avaliar. Os tempos são diferentes, o futebol é diferente, a tecnologia de treino é totalmente diferente.

Aquilo que podemos facilmente comprovar é que Eusébio nasceu atleta. Nos dias de hoje é relativamente fácil criar um atleta de alta competição desde que nasça com algumas características físicas. Mas basta olhar com atenção para as imagens dos jogos da década de 60 para perceber que o Rei estava num patamar físico diferente, décadas à frente dos demais. A velocidade, explosividade e remate eram quase inigualáveis na altura. Tal como disse Mourinho, Eusébio nos dias de hoje seria “assombroso”, e apenas a nossa imaginação pode chegar perto das potencialidades que a nossa era traria aos atributos inatos do Pantera Negra.

 

Independentemente de sabermos de cor quem foi e o que fez na sua carreira por cá, a verdadeira importância de Eusébio além-fronteiras é algo que confesso me apanhou de surpresa. Muito exponenciado pelo tipo de sociedade que hoje temos e por todas as aplicações sociais que são hoje usadas por quase toda a gente, chegaram ao nosso conhecimento um sem número de manifestações de pesar, homenagem e reconhecimento, provenientes dos quatro cantos do mundo.

De jogadores (muitos deles sem qualquer aparente relação com o King), treinadores, presidentes, clubes já todos estávamos mais ou menos à espera, ainda que a escala mundial tenha impressionado. Mas tenho de reconhecer que nunca esperei o minuto de aplausos em Old Trafford, os dias de luto no Vasco da Gama, ou o minuto de silêncio com imagens da sua carreira a passar nos ecrãs que todos vimos no Santiago Bernabéu. Podíamos também aproveitar estes acontecimentos para tentar perceber as diferenças da forma como clubes e adeptos dos vários países vivem o futebol, mas este não é o momento para isso.

A morte de Eusébio foi capa de uma série de jornais europeus e mundiais, alguns dos quais nem sequer são desportivos. Por tudo o que se passou desde a sua morte, acho que mesmo os mais distraídos ou os que acham que futebol é apenas um jogo parvo de 22 homens atrás de uma bola, são forçados a reconhecer o que Eusébio fez e ainda faz pelo país. É isto que para mim faz do Pantera Negra um “herói nacional” e uma das suas figuras mais importantes do século XX, mesmo sendo “apenas” um jogador de futebol.

 

Poucas são as pessoas que conquistam a sua imortalidade ainda durante a sua vida. Eusébio foi claramente um desses eleitos.