Papoilas Saltitantes
17
Set

2014

Hibernação

Por Tiago Quartilho

 

Em primeiro lugar, gostaria de deixar registado um enorme pedido de desculpas.

Sei que 4 meses sem escrever uma única palavra neste espaço não é aceitável, para mais quando pelo meio o Benfica foi campeão, ganhou a Taça de Portugal, a Taça da Liga e foi a nova final da Liga Europa. E é precisamente devido a essa viagem a Turim que se deve este interregno.

Alerto desde já quem não vive o desporto e o Benfica como eu vivo, que pode deixar já de ler porque não vai perceber nada, e vai ficar a pensar que eu sou meio maluco, se é que ainda tinham dúvidas acerca disso.

Para explicar tudo isto, tenho de retroceder ao dia 25 de Maio de 1988. Tendo em conta o meu alerta anterior, quem seguiu com a leitura já sabe do que estou a falar. 

 

Nessa altura tinha eu 9 anos e estava portanto na idade perfeita para uma desilusão marcante. Têm de perceber que não era uma criança com uma ligação ao Futebol/Benfica normal porque eu já ia ao Estádio com a minha mãe a todos os jogos em casa há 6 épocas, não me tinham deixado ir ver a Final contra o Anderlecht, e tinha ido à Luz ver o jogo em casa dos Quartos e das Meias dessa edição da Taça dos Campeões Europeus. No jogo da meia-final, a minha mãe e o meu padrasto não conseguiam ver o relvado tal a enchente - a maioria dos presentes nem sabiam que o jogo ia ser transmitido na RTP, depois do “novo” presidente do Benfica, João Santos, ter oferecido os direitos do jogo ao canal estatal em cima da hora, para garantir que todos os benfiquistas tinham possibilidade de assistir à partida -, mas eu sim, e é um dos jogos que ficará para sempre marcado na minha memória bem como os golos do jogador agora conhecido como "o filho do José Águas". Sim, porque eu sou muito esquecido com as coisas do dia-a-dia mas lembro-me perfeitamente em que lugar do Estádio estava nesse dia, tal como dois anos mais tarde na outra meia-final.

Desde essa noite até ao dia 25 de Maio passou mais de um mês, e aqui o vosso escriba rebentava com a ansiedade. Tal como todos os miúdos de 9 anos, mesmo aqueles que já vêm futebol há alguns anos, pensava que o Benfica ia ganhar, fácil. O facto de o PSV ter eliminado o Real Madrid não me dizia nada, e estava totalmente preparado para a festa. Sem entrar em detalhes sobre o jogo, que presumo a maioria de vocês também se lembre, posso dizer que lá em casa só eu é que vi os penalties. A minha mãe foi “ler” para o quarto, e só vinha ver quando eram os holandeses a bater, e o meu padrasto descobriu naquele momento que tinha imensas coisas urgentes e inadiáveis para fazer na cozinha.

Passei a noite a chorar, claro, e no dia seguinte não queria ir à escola.

Dois anos depois, novamente na Final, depois de uma meia-final das boas com o famoso golo com a "mão de Vata". Mas havia uma grande diferença, em relação à final contra o PSV. O adversário desta vez era muito mais forte que nós, e era bem conhecido do miúdo de 11 anos que, apesar da antecipação e da ilusão própria da infância, sabia que ia ser muito difícil ganhar. E quem se lembra do jogo como eu, fica com a sensação de que perdemos para uma equipa melhor, e desde que sofremos o golo - Hernâni, não penses que me esqueci de ti e de que paraste de correr devido a um apito vindo das bancadas - não tivemos qualquer hipótese de recuperar.

Passei a noite a chorar, claro, mas no dia seguinte fui à escola sem problemas.

 

Depois passaram-se anos e anos sem que o Benfica tivesse qualquer possibilidade de disputar uma Final europeia. Para ser totalmente sincero, penso que será quase impossível ver o Benfica novamente numa final da Champions League. Seria necessário um conjugar de factores parecido com o que permitiu ao FC Porto vencer em 2004, com muito mérito mas também muita sorte à mistura nos adversários que foram caindo e na forma como eliminaram a única equipa grande no seu percurso.

Mas a nova Liga Europa é outra conversa. Como as equipas claramente mais fortes da Europa passam sempre aos oitavos da UCL, esta competição tem muito potencial para poder ser ganha por equipas fortes mas da segunda linha europeia, onde se incluem os grandes portugueses. E se provas eram precisas de que estava ao alcance de uma equipa como o Benfica, logo na primeira edição fomos aos quartos-de-final, e na segunda edição às meias-finais contra... o Braga (!) numa prova ganha pelo FC Porto.

Estava então lançado o isco para que este vosso adepto começasse a pensar que seria possível o Benfica vencer uma competição europeia, e tal como prometido em 1990, eu iria lá estar. O ano passado, depois de uma espera de 23 anos, fomos novamente a uma final.

Mas era contra o Chelsea, que todos reconhecíamos como sendo mais forte, até porque tinha vencido a Champions League no ano anterior (depois de nos eliminar nos quartos de final). Tal como sempre disse, quis lá estar, e fui a Amesterdão fazer a festa. E que grande festa que foi. Mas a desilusão da competição perdida, se na altura pareceu imensa até pela grande exibição que o Benfica rubricou dentro e fora do relvado, foi-se esbatendo pelo reconhecimento da superioridade do adversário.

Nessa noite nem chorei! Apenas quis ir a pé do estádio até ao centro de Amesterdão - uns meros 12km - para ir arrefecendo a cabeça. E o que mais que custou nessa noite, não foi a derrota em si, mas a sensação da “oportunidade perdida” e o receio de que poderia ter que esperar novos 23 anos por outra possibilidade de vencer uma competição europeia.

E foi por todo este peso histórico e emocional que Maio do ano passado foi um choque tão forte.

 

Para grande surpresa e satisfação, estávamos de novo nas meias-finais apenas um ano depois. Foram semanas fantásticas as que antecederam a final, com tudo o que tinha corrido mal na época anterior a correr bem desta vez. A conquista do campeonato e as duas eliminatórias contra o FCP acabadas a jogar com 10, e o jogo épico de Turim em que terminámos a partida com 9, a aguentar o sufoco final dos italianos.

Quando acabou o jogo, no meio da loucura habitual de tentar ver viagens, falar com amigos para perceber quem quer ir, e descobrir como vai ser a venda dos bilhetes, uma sensação nova, que não sentíamos desde 1988. A certeza que o Benfica era favorito na final, éramos melhores e em condições normais íamos ganhar.

Esse sentimento acompanhou todas as etapas até Turim. Desde a epopeia da compra de bilhetes para a final, passando pela marcação das viagens já tarde de mais, e com controlo rigoroso de custos, a viagem de carro até Madrid durante a noite em que íamos perdendo o avião para Milão, o dia de festa em Milão na véspera do jogo com a cidade pintada de vermelho e branco, a viagem de carro até Turim na manhã da final com paragem nas portagens para entoação de gritos de apoio ao Glorioso, os tifosi do Torino para quem somos todos fratelli, o dia em Turim novamente de festa e com um ambiente fantástico.

O jantar da véspera do jogo vai ser recordado por anos e anos. Restaurante de topo em Milão, clima calmo e romântico, mesas todas com casais nos seus 30, estava mesmo com o aspecto de que alguém ia pedir alguém em casamento. E cinco malucos, vestidos com camisolas do Benfica, aos berros sobre o Glorioso, o Jorge, o Oscar, o LFV, o Sevilha. Acho que até houve cânticos mais para o final da refeição... Enfim, um chavascal danado...

Em todos estes momentos houve sempre uma constante. Já não estávamos lá para a festa como o ano passado, mas para ganhar. Já chega de maldições, de Bela Guttman. Era a nossa altura e íamos ganhar. Tínhamos de ganhar!

No dia do jogo em Turim o ambiente era de grande optimismo entre as hostes Benfiquistas, e de grande nervosismo e ansiedade entre os mais stressadinhos, com medo de não chegar ao jogo a tempo.

 

Sobre o jogo em si não vou falar neste texto. Acho que nestes meses já tudo foi escrito e falado sobre a partida, o número de espectadores, a lesão do Sulejmani, a substituição do Mestre, o Maxi a jogar no meio-campo, a diferença no apoio dos adeptos em relação ao ano anterior, os penalties não assinalados, os golos falhados, o Cavaleiro a entrar aos 118, o Cardozo a bater penalties, o Beto a defender 2 metros à frente da linha, o Carriço aos beijos ao outro mariconço que agora foi para o Barça, etc.

Quando o jogo acabou, ficámos perto de 30 minutos ainda no interior do estádio, num misto de tristeza e choque. Cada um lidou com o sofrimento à sua maneira, uns a chorar, outros a tentarem chorar, um a ligar à mãe a agradecer por ser Benfiquista (e a chorar enquanto o fazia), outros a discutir tácticas e substituições com desconhecidos, etc...

Tal como a alegria colectiva é sempre, e também o foi desta vez, contagiante e cumulativa ao longo desses dias, também a tristeza o é, e posso dizer sem sombra de dúvida que a desse momento foi muito superior à da época anterior, e em nada fica esbatida pelas vitórias alcançadas nas restantes provas.

Eu já vi o Benfica ser campeão algumas vezes, bem como vencer a Taça de Portugal e a Taça da Liga. Aquilo que nunca vi, e vou continuar sem ver, é o Benfica a ganhar uma competição europeia. E era isso que queria vencer mais que tudo na época que passou.

 

Não sei se estou a conseguir transmitir-vos por palavras tudo o que queria, mas quero que entendam que eu estava à espera deste momento há 26 anos! Há 26 anos! E em algumas alturas, pensei que não ia ser possível nunca mais.

Foram 26 anos de espera com alguns períodos de esperança pelo meio, duas semanas de ansiedade, 3 dias de festa e antecipação, 120 minutos de angústia, tudo acumulado apenas para se traduzir em dias, semanas, meses de tristeza.

Agora, novamente a dúvida. Será que vou ainda ver o Benfica em nova final europeia no meu tempo de vida? 

Espero que sim, mas não posso dizer que esteja muito confiante e é esta dúvida, mais que qualquer outra coisa incluindo a derrota em si, que me levou a um desânimo desportivo e uma apatia suficientemente grandes para me impedirem até de escrever neste espaço (para ficarem com uma melhor noção, tinha até decidido não ter Red Pass esta época e não ir ao estádio pela primeira vez em anos, mas a minha mãe ofereceu-me de prenda de aniversário).

Nem o mercado de transferências e a nova época me animaram, antes pelo contrário...

Espero que escrever este texto tenha sido catártico o suficiente, até porque há tanto para escrever em relação a este defeso do Benfica.

Em todo o caso, já comecei a pesquisar como é Varsóvia em Maio, pelo sim pelo não...

Viva o Benfica!