Papoilas Saltitantes
12
Mar

2014

Galaró

Por Tiago Quartilho

 

Outro dia estava a almoçar com uns amigos, por acaso também colaboradores do 11para11, e a TV estava na SportTV, em silêncio, apenas para ver os resumos do fim-de-semana.

E de repente, a emissão é interrompida para transmitir em directo a conferência de imprensa do mestre da táctica. Passados apenas alguns segundos, estávamos os três em silêncio, a ver (literalmente apenas a ver) a conferência e assim ficámos durante alguns minutos. Atenção que não conseguíamos ouvir nada do que era dito, nem as perguntas, nem as respostas.

Mas também não era preciso. Bastava olhar com atenção.

O mestre já está outra vez “a cantar de galo” e “armado aos cucos”. Era possível ouvir a sua fanfarronice mesmo sem som, apenas pela postura corporal e expressões faciais. Depois de um início horrível de época, em que a equipa parecia ainda de luto pelo Maio trágico da época passada, e com a ajuda do nosso rival que esteve até ao momento muitos furos abaixo do normal, tendo até já trocado de treinador, o Benfica vê-se na liderança da nossa liga, com uma margem que parece à primeira vista tranquila, e isso aparentemente transmitiu uma sensação de confiança ao mestre.

 

Claro que o leitor estará a pensar, que nos dois anos anteriores o Benfica também teve vantagens que se diziam suficientes para o título. Aliás, o ano passado, os jogadores praticamente festejaram o título na Madeira, depois do jogo com o Marítimo. A comunicação social também tinha já o título entregue, e o Marquês estava “reservado”.

Mas depois nada disso aconteceu. E por culpa de quem? Do mestre, do Carlos Martins, do Estoril de Marco Silva, e do mestre novamente (com o Roderick Miranda, sabe-se lá porquê, como protagonista).

Todos os benfiquistas se lembram bem desses momentos. Estão certamente muito vivos na memória do adepto, pelo menos na minha sei que estão. Essas semanas deixaram marcas nos benfiquistas. Mas olhando para aquela conferência de imprensa, mesmo sem som, é totalmente óbvio e claro a quem não deixaram marcas.

Ao mestre.


 
Dirão alguns que o facto da equipa do Benfica jogar “à defesa” esta época, de forma mais pragmática, marcando um golo e depois defendendo a vantagem nas segundas partes (e aborrecendo pelo caminho os meus vizinhos de cativo), acabando sempre os jogos com menos posse de bola que os seus adversários, é uma prova que o mestre aprendeu.
 
O problema é que o mestre acha que é brilhante, que é melhor que os outros, que tem feelings, que sabia que os jogos iam ser daquela forma, que tem o mérito das vitórias mas não o demérito das derrotas. E essas pessoas raramente aprendem o que quer que seja. São aquelas pessoas que rejeitam imediatamente argumentos contrários, por vezes ainda sem os ouvir. São aqueles que acham que já pensaram em tudo o que há para pensar, e por isso não precisam de ninguém e desvalorizam os inputs externos.

Este é o mesmo treinador que no ano passado quando pensava que ia ganhar tudo, deu uma palestra mítica no FMH em que entre outras coisas disse que “inventou uma ciência”, e disse também já esta época que ninguém nunca lhe vai tirar os êxitos ou os sucessos da época passada. Uma época em que mais uma vez não ganhou nada, na sua mente centrada apenas em si própria e no seu umbigo, foi um sucesso.

Se o mestre fosse uma pessoa humilde e inteligente, percebia que foi um completo fracasso nas últimas épocas, e estaria caladinho e “bolinha baixa” mesmo perante esta vantagem. Mas não, bastou ganhar uma vantagem que ele aparentemente considera confortável, para voltar a estar e falar como se fosse o Guardiola ou o Mourinho. Goste-se ou não dessas personagens, eles têm uma grande vantagem em relação ao mestre, e infelizmente não é o ordenado mensal. É a validação do seu trabalho e do seu percurso com base na única métrica que conheço para o desporto e que fica na história, os resultados.

O mestre até podia ser arrogante, mas para isso vai ter de ganhar. Para já é só parvo.