Papoilas Saltitantes
27
Mai

2015

Elogio aos campeões!

Por Ricardo Rodrigues Rocha


 

A época ainda não acabou, mas o maior objetivo foi já alcançado, a conquista do 34º título nacional, o primeiro bicampeonato dos últimos 30 anos e nova ultrapassagem ao FC Porto no total de títulos conquistados.
Falta ainda conquistar a Taça da Liga para terminar a época em beleza e aumentar o pecúlio de títulos (que serão 3 esta época – Supertaça, Campeonato e Taça da Liga) desde que Jesus chegou ao Benfica.
Este foi, seguramente, o titulo mais difícil da era JJ, marcado por desconfianças várias, por um defeso traumático onde se assistiu à “sangria” da equipa com a saída de 7 titulares habituais, alguma descrença em muitos Benfiquistas (basta pesquisar os artigos publicados neste espaço no inicio da temporada), dúvidas sobre a capacidade de Jesus, campanha europeia abaixo das expectativas, imprensa a “cavalgar a onda” do FCP e do seu “super” plantel, etc, etc.


Este é um campeonato onde o mérito, competência e qualidade de JJ ficou por demais evidente e onde, Lopetegui de um lado e Bruno de Carvalho do outro, ajudaram também à festa dando tiros nos seus próprios pés.
Já todos os que me acompanham aqui no 11para11 sabem que sou um “apóstolo de Jesus” (o Jorge), não vou voltar a insistir na mesma tecla, está à vista de todos o que foi feito esta época e o que foi feito nos últimos seis anos, os títulos conquistados, o futebol praticado, as receitas com vendas de jogadores, as valorizações de atletas, os espectadores no estádio, e toda a “impressão digital” deixada por Jorge Jesus no Benfica. Talvez esse balanço mereça algumas linhas quando JJ sair do Benfica (daqui a 6 anos, pelo menos, espero).

Hoje quero destacar outra componente fundamental para a conquista do Bi…a mais óbvia, os jogadores, os destaques positivos – Estrelas – e os negativos – Pés de Chumbo.

 

ESTRELAS

- Júlio César – Ficou provado (mais uma vez) que um bom guarda-redes não faz uma equipa, mas numa boa equipa um bom guarda-redes faz TODA a diferença. Exemplos? Preud’Homme num Benfica medíocre não garantiu títulos (embora tenha sido em muitos jogos um salvador), já Schemeichel numa boa equipa do Sporting foi peça fundamental para a conquista do título. Outro bom exemplo é Fabiano, um guarda-redes mediano (para não dizer medíocre) vs. Helton (um guarda-redes de primeira linha). Júlio César veio acrescentar ao Benfica o que lhe faltou nos últimos anos com Artur…CLASSE, segurança, tranquilidade, experiência, carisma/autoridade dentro de campo (face a adversários e colegas de equipa).

- (Super) Maxi – Para mim foi a sua melhor época no Benfica. Manteve o seu ADN guerreiro, mas este ano soube acrescentar-lhe maturidade e contenção…está mais inteligente a ler o jogo, mais eficiente a gerir o seu esforço físico e os momentos em que deve atacar, arriscar ou acalmar o jogo. Continua impetuoso e incansável na recuperação da bola, mas mais inteligente nas suas abordagens, evitando faltas desnecessárias em zonas perigosas ou entradas excessivamente ríspidas que lhe custaram cartões em épocas anteriores. Em suma, é um Maxi versão 2.0, muito mais jogador, sem perder tudo aquilo que sempre gostámos nele. A sua (provável) não renovação será mais uma baixa de peso no plantel.

- Jardel – Ponto prévio: não sou fã de Jardel! Sim, reconheço-lhe algumas características interessantes – é rápido para Central, é forte no jogo aéreo defensivo e, sobretudo, é aguerrido, lutador e nunca vira a cara à luta – mas continuo a achar que lhe falta classe para ser titular numa equipa grande. Falta-lhe capacidade com bola, na saída de bola (e o Benfica em 99% dos casos sai com bola curta), na construção de jogo. Sente muitas dificuldades se o adversário fizer pressão alta. É fraco no passe de meia distância, mesmo no passe curto é sofrível, e o passe longo é inexistente…por último, é fraco no jogo aéreo ofensivo, coloca-se bem, tem um excelente tempo de salto e perceção do espaço, mas é péssimo na técnica de cabeceamento. Um central com as suas características mas com mais técnica de cabeceamento seria um central goleador…Jardel não é. Por tudo isto, fui apologista da opção Lisandro, para dupla com Luisão esta época…não aconteceu…e Jardel foi melhorando, jogo a jogo, acabando por fazer uma excelente época. Não mudei a minha opinião sobre Jardel, mas seria tremendamente injusto não destacar a excelente época realizada. Está de parabéns! Fez esquecer Garay (embora esteja a anos luz do Argentino na sua qualidade futebolística).

- Talisca – CALMA!! Não comecem já a insultar…Talisca, queiramos ou não, foi fundamental no primeiro terço da época, quando ainda não havia Jonas, quando Samaris parecia um flop, quando Lima não marcava golos e Enzo já estava com a cabeça em Valência. Nesse período foi Talisca quem apareceu, de rompante, surpreendente, a fazer golos de todas as formas e feitios e a contribuir…e muito…para que o Benfica não perdesse o comboio do título. Independentemente do (pouco) que fez depois, Talisca fez por merecer lugar de honra no 34º. Se se pode tornar no grande jogador que se imaginou no inicio da época e que originou um bizarro bate-boca entre o Special One e o Mestre da Tática? Não sei…tenho dúvidas…a prova dos 9 será a próxima época.

- Samaris – é um 8 que aprendeu a ser 6 com JJ. Não foi o primeiro, Matic já tinha comprovado que nesse particular, JJ sabe muito. Começou tremido, claramente inadaptado à função, à equipa, à língua, ao gesticular frenético de JJ. Parecia que o jogo lhe passava ao lado, muitas vezes olhava, meio perdido, para o banco, tentando decifrar o que queria o mister. Na dúvida…batia, batia forte, “canela até ao pescoço” como se dizia antigamente. Resultado, uma série de cartões amarelos e algumas situações no limiar da expulsão, equipa desequilibrada em alguns momentos e um Samaris muito apagado…candidato a Flop do ano (alguns comentadores chegaram mesmo a condena-lo a tal). O que se viu com o passar do tempo, em especial na 2ª metade da época, foi precisamente o contrário…Samaris em crescendo, cada vez mais adaptado, cada vez mais cúmplice com o grupo e cada vez a mostrar mais futebol. Impõe-se fisicamente, ocupa (agora) bem os espaços, tem uma razoável qualidade técnica e de passe…não será um Matic, mas está ali um protótipo de 6 muito interessante. Resta saber se continuará na próxima época nesse papel ou se veremos um meio-campo Fejsa-Samaris no próximo ano (tenho trocado ideias com alguns Benfiquistas que defendem esta dupla…pode ser interessante).

- Sálvio – Podia falar de Gaitán…mas esse já todos sabemos que é o toque de classe da equipa. Para mim, esteve ao nível habitual (alto, entenda-se), por isso não o destaco. Escolho antes Sálvio, porque acho que esteve MUITO melhor do que nas épocas anteriores (nomeadamente do que na última onde, por força de uma lesão prolongada, teve um papel secundário). Em 14/15 Sálvio apareceu em grande, um pouco como Maxi, mostrou o que já se conhecia dele – aquele futebol vertical, sempre virado para a frente, em busca da linha de fundo e com capacidade goleadora apreciável para um extremo – mas juntou-lhe algumas coisas novas…parece ter aumentado o repertório técnico de dribles e malabarismos (esta época vimos “moves” que ainda não se lhe conheciam) e, sobretudo, mostrou (aprendeu?) algo que muito importante…jogo interior e “temporização”. De Sálvio espera-se sempre “vertigem”, que parta para o um contra um, que procure romper, agitar, quebrar…mas muitas vezes Sálvio partia não para um 1-1, mas para 1-2, 3, 4…ou seja um pouco tipo “Salvio contra o Mundo”, muitas vezes “enfiando-se” num “buraco”, no seu cantinho de relvado, rodeado por adversários e sempre a “partir para cima”, mesmo quando essa não era, claramente, a melhor opção a tomar. Esta época vimos um Salvio a decidir melhor nos diferentes momentos do jogo…a ser capaz de parar, de devolver a bola quando os caminhos estavam tapados, de flectir para o interior ou mesmo fazer a rotação do centro de jogo…sem no entanto perder o “nervo” e a sua característica principal. É essa conjugação de factores que lhe dá uma imprevisibilidade maior e que faz com que Salvio alcance um nível superior…deixa de ser “só” o Salvio das correrias, para passar a ser um Sálvio que tanto pode acelerar e quebrar o jogo, como preservar a posse de bola. Há quem lhe chame “pragmatismo”…eu chamo-lhe inteligência. E hoje Salvio é um jogador muito mais inteligente.

- Jonas “Pistolas”  - Nada a ver com o “Pistoleiro” Silva que em tempos andou pelo nosso futebol…este é um “puro sangue”. Foi o toque de classe que faltava a este Benfica, o 2º avançado perfeito para o 4-4-2 de Jesus. Luis Freitas Lobo disse que é o melhor 2º avançado, o mais inteligente, que passou pelas mãos de Jesus, mesmo superior a Saviola. Estou de acordo. Saviola e Jonas são o exemplo perfeito do 2º avançado que Jesus necessita, que se movimenta entre linhas, que é capaz de segurar a bola e distribuir jogo quase como um 10 e ao mesmo tempo marcar golos como um 9. Jonas foi isso tudo, é um prazer vê-lo pisar a relva da luz…faz tudo com intenção, com inteligência e com muita técnica. Tem um jogo aéreo e uma técnica de cabeceamento altíssima (faz-me lembrar Rui Águas, nesse particular), tem um drible em progressão (com toques de JVP) e uma tranquilidade em frente ao “gol” do melhor que tenho visto, remata quase sempre em jeito e a bola parece que tem “olhinhos”.

- Lima – Tem números consistentes e que não podem ser ignorados ao longo das épocas que leva de Benfica. Consistentemente goleador e consistentemente trabalhador. Pode não ser um super goleador, tipo Jardel, Falcão ou Jackson, mas garante sempre 20 “golinhos” por época e isso não é nada desprezável. Para além disso é um batalhador, sempre disponível para o jogo, sempre em movimento, dá largura ao ataque e não se cinge a ser um “homem de área”. Essa característica e um entendimento perfeito com Jonas tornou o ataque do Benfica ainda mais endiabrado, com 4 jogadores em constante movimento, baralhando marcações. Pressiona constantemente o portador da bola, massacra os centrais, é daqueles avançados “chatos”. Depois de um início muito fraquinho, onde o golo parecia não aparecer e onde teve que marcar penaltis para ganhar confiança, fez uma 2ª metade de época ao seu nível…ainda que aquele falhanço em Guimarães pudesse ter transformado Lima em vilão, não fosse um tal de Tiago Caeiro…

- André Almeida – Houve um jogo qualquer (não me recordo qual) onde apareceu a lateral direito e com a braçadeira de capitão…lembrei-me de Veloso. André Almeida pode ser o novo Veloso, acho que é a comparação mais adequada. Que fique por muitos e bons anos, que continue a crescer e a “beber” a mística e um dia poderá ser o Capitão desta equipa, o tal André Almeida “Veloso”.

 


Pés de Chumbo

- Artur – Não dá, não serve, lamento. Não que seja um mau guarda-redes…fez uma carreira mediana, mas consistente, aparenta ser um bom profissional e uma boa pessoa. Até simpatizo com o Artur…mas as mãos e os pés tremem-lhe demasiadas vezes nos momentos críticos…e isso, em equipa grande é a morte do artista. Aquele pontapé contra as costas de Carrillo logo à 3ª jornada, que nos custou 2 pontos em casa, diante de um rival direto para mim assinou a sua sentença de “morte”. Termina contrato (ainda bem), é altura de escolher outro destino e seguir viagem.

- César – O típico zagueiro “zuca”. Pode ser que daqui a 10 anos seja um Luisão (lembro-me bem dos primeiros jogos de Luisão no SLB), mas para isso terá que lhe seguir o exemplo…trabalhar duro e ser HUMILDE. Acho que César não é humilde, não tenho factos que o confirmem, é apenas um “feeling”, mas fiquei sempre com a ideia que veio para o Benfica a achar que seria titular e patrão da defesa, em campo é displicente muitas vezes, abusa dos “bonitos” em zona proibida, é lento a decidir…não me convenceu. Ainda assim, sendo um jovem e tendo algumas qualidades/atributos interessantes acho que merece continuar, como 3º ou 4º Central e continuando a trabalhar e a evoluir. Assim seja a sua vontade, caso contrário, guia de marcha!

- Benito – No meio daquela pré-época terrível naquela equipa quase B que participou no Emirates Cup, nem me pareceu mau de todo. Tem uma boa constituição física, pareceu-me certinho, não centrava mal…depois eclipsou-se. E a fífia contra o Covilhã para a taça parece ter sido a gota de água para Jesus. Mais um para a lista de 1500 laterais esquerdos contratados no consulado de JJ.

- Ola Jonh – Já o disse antes que é (era?) um dos jogadores que gosto. Já o vi fazer grandes jogos pelo Benfica e contra o Benfica, tem técnica, velocidade, capacidade de drible e, ao contrário do que se diz nas bancadas, não o acho nada “burro”, antes pelo contrário. Mas contra factos não há argumentos e os factos, esta época especialmente, foram maus…muito maus. Hoje é um dos “mal-amados” da Luz e não creio que tenha condições para continuar. Acresce o facto de ainda ter mercado, especialmente na Holanda, onde ainda o veem como eu o via antes…como um futebolista de elevado potencial. Poderá assim ainda ser vendido e realizar um encaixe financeiro para o Benfica, acho que é esse o caminho.

- Sulejmani – Mais um que, não sendo um mau jogador, também não acrescentou nada de especial. A política de restrição de custos e consequente aposta na formação, acrescida ao facto de também ser um jogador com mercado (na Holanda) e ter chegado ao Benfica a custo zero fazer de Sulejmani um dos candidatos mais óbvios a receber guia de marcha. Não me oponho, de todo. E não acho que Gonçalo Guedes ou mesmo Ivan Cavaleiro não possam assumir o seu papel, provavelmente até com mais rendimento desportivo. PS – Obrigado por aquele passe genial em Barcelos…inteligência pura, altruísmo e visão de jogo condensados num microssegundo. É a tua marca neste 34!

 

- Bebé – Ponto Prévio: A mim nunca me enganou, não fui daqueles que se deixaram iludir com meia dúzia de arrancadas no Rio Ave e no Paços e que acharam que era um “diamante em bruto”, o que merecia ter ido ao Mundial (tenho um amigo Sportinguista que criticou Paulo Bento por não ter convocado Bebé para o Brasil…LOLOL). Não é meus caros, não é. Bebé não tem escola, e isso nota-se em todos os seus movimentos em campo, tem futebol de rua nos pés, o que o torna indomável taticamente e muito difícil de encaixar em equipas grandes, onde é preciso muito mais que uma arrancada ou uma explosão. Sempre disse, e mantenho. Bebé só tem futuro (e não é no Benfica, pelo menos a curto prazo) como avançado…2º avançado ou mesmo ponta de lança. A extremo não dá, não funciona. Primeiro porque não sabe centrar…esqueçam, não faz um, limita-se a “disparar” remates para a área (que alguns chamam de cruzamentos tensos) sem qualquer critério, sem referências na área, sem sentido. Depois, não tem drible…entenda-se drible de extremo, o seu repertório técnico é limitado e limita-se a uma finta em progressão onde a sua capacidade de arranque faz a diferença…mas na ala, onde às vezes não há espaço e o campo acaba, chega a ser constrangedor. Por último, não tem visão de jogo…até porque baixa a cabeça e fixa-se na bola quando vai em progressão. Assim sendo, poderá vir a ser um avançado interessante, porque essas características (e suas lacunas) até podem funcionar no centro do ataque, onde numa transição rápida, por exemplo, pode ganhar metros com a sua finta simples e arranque forte, fugindo aos centrais…ou porque baixar a cabeça e rematar não tem grande mal num avançado…e atenção, o Bebé tem um “senhor remate”! Em resumo, é para emprestar, claramente, de preferência a um Braga ou outra equipa de gama média-alta e para jogar a avançado.
 
- Jara – Nem o mais acérrimo defensor de JJ consegue justificar a sua titularidade num dos primeiros jogos do campeonato…o que seria de nós entregues a um ataque Jara-Lima? Ou mesmo Jonas-Jara? Ou, pior ainda, Jara-Nelson Oliveira? ou Jara-Derley? Certamente o 34 não seria nosso!