Papoilas Saltitantes
03
Set

2013

A ilusão da Táctica

Por Tiago Quartilho

No congresso anual de 2011 da empresa onde trabalho, um dos oradores convidados foi Luís Lourenço, amigo pessoal e autor de alguns livros sobre o sucesso de José Mourinho. Na sua apresentação, vimos uma entrevista com um dos mentores de Mourinho e muitos excertos de entrevistas com ex-jogadores do treinador português. Entre os elogios de circunstância e pequenas histórias humorísticas, uma mensagem de fundo foi transversal a todos aqueles testemunhos. Antes de ser um grande treinador, Mourinho é e sempre foi um grande líder de homens. Um motivador por excelência.

Desde a famosa história de Lampard no duche, ao telefonema a Drogba, passando pelos estratagemas com os quais aprendeu a tirar o melhor de Maniche, Deco e Terry nos jogos decisivos, a marca da motivação está sempre presente. E a intensidade com que os seus jogadores jogam fala por si. Podemos gostar ou não da pessoa, da mentalidade defensiva, do pouco espectáculo e da castração criativa que impõe a alguns dos seus jogadores, mas há algo que ninguém pode apontar a nenhuma equipa de Mourinho (excepção feita ao Real da época passada), que é a falta de entrega e intensidade durante os 90 minutos.

Penso que nesse aspecto Mourinho esteve uns anos à frente dos restantes. E tenho a certeza que, tal como aconteceu a época passada no real madrid, em que o clube que tinha sido campeão desde cedo perdeu o comboio do título, numa época desperdiçada em questões extra-futebol, desmascarada por jogadores desmotivados e desligados do treinador, é esse o único problema do Benfica actual.

 

Depois de mais um jogo muito pouco conseguido contra o gil e de uma primeira parte horrível contra o scp, é fácil concluir que não exagerei quando, no final do primeiro jogo oficial da época, expus neste espaço muitas das suspeitas que todos tínhamos desde o final da época passada.

A cada dia que passa, jogo que vejo, estatística que analiso, memória que tento recuperar, mais me convenço que muitos dos conceitos que sempre demos por garantidos no futebol estão errados. O grau de importância que é atribuído aos vários factores que definem uma equipa está invertido. E foi preciso ver o mestre da táctica no Benfica estes anos todos para ficar com esta certeza.

Depois dos jogadores que devem ou não jogar, nenhum assunto cria mais polémica numa qualquer discussão de café, do que se o Benfica deve jogar em 4-3-3, 4-4-2 ou 4-2-3-1. Sempre ouvimos falar de táctica, esquema táctico, formação, etc, mas ao contrário do que alguns dos treinadores de futebol nos querem fazer pensar, todos estes termos querem dizer mais ou menos o mesmo, de forma mais ou menos abrangente. 

Dizem respeito ao número de defesas, médios e avançados que são colocados no relvado, à forma como a equipa joga, em passe curto para manter a posse de bola ou num estilo mais directo e de transicções rápidas, pelos flancos ou com um #10 a pautar todo o jogo. Os extremos, caso existam, podem jogar mais abertos nos flancos ou mais fechados para abrirem a linha para os laterais. A defesa pode jogar em fora de jogo compactando a equipa e permitindo pressionar mais alto, ou jogar mais recuada para se precaver da velocidade dos aversários, tentando depois um futebol mais de apoio com a bola a passar pelas várias linhas de construção.

Tudo isto é importante, e muda a forma como uma equipa joga? Claro que sim. Eu por exemplo, sempre defendi para o Benfica um 4-4-2 apenas com um médio defensivo e um #10, com extremos a sério nas alas, linha defensiva subida junto ao meio campo que facilita (é imprescindível para?) uma pressão muito alta, e transicções rápidas quando em posse de bola utilizando as faixas laterais com frequência. Mas o que vejo agora de forma muito clara é que todos esses factores, até mesmo a qualidade individual dos jogadores, são até certo ponto secundários.

 

O mais importante para o sucesso ou insucesso de uma equipa é a intensidade colocada em campo e a motivação. Estes dois factores são as únicas diferenças entre o Benfica desta época e o da época passada, e também as mais importantes mudanças entre o sporting desta época e o da época passada.

Não é o esquema defensivo que o mestre insiste em colocar em campo, os jogadores fora de ritmo de jogo obrigados a jogar a titular, nem a manutenção de dois médios defensivos em momentos e jogos que não o justificam. Também não é o facto de um titular do Benfica ser um emprestado de um clube do fundo da tabela brasileira, no qual não era titular muitas das vezes. Não é o Maxi parecer que fez 74 anos em Junho e ninguém o avisou.

Aquilo que falta ao Benfica é intensidade e motivação (que neste último jogo não faltou ao scp, como aliás é bastante realçado aqui). Falta acreditar que aquele mesmo treinador que sempre berrou como um maluco para dentro de campo, e que perdeu as três competições a época passada nos últimos minutos os pode levar à vitória. E que não está a berrar por um motivo qualquer que não seja a sua própria falta de motivação. Ainda pensei que aquela remontada à man united contra a equipa de barcelos podia ser o catalisador necessário, mas não foi. Bastou ver os primeiros 15 minutos da partida de alvalade para comprovarmos esse engano.

Sem entrar em elogios injustificados tão comuns nestes casos, a verdade é que Marković fez a diferença nos dois jogos. Tal como Đuričić fez no jogo do Gil. Não pelo seu diferencial de qualidade em relação a Gaitans, Sálvios e Rodrigos (até porque não me convenço assim tão facilmente), mas sobretudo porque parece que ninguém lhes contou que o Benfica "acabou" de perder três competições importantes com este treinador. E que diferença isso faz. Eles só querem é correr, passar, fintar, marcar.

E essa parece ser a única hipótese que resta para salvar a época que ainda agora começou. Apostar em jogadores diferentes, acabados de chegar ou com algo a provar. Pode ser que a sua energia, motivação e intensidade garanta alguns bons resultados e contagie o mestre e os restantes elementos do plantel. Se assim não for, temo que Jesus não chegue ao final da época a não ser por (nova) teimosia do presidente, e tal como na época passada aconteceu com o real madrid, o Benfica fique a uns nada saudosos 15 pontos do porto.

 

PS: Para os que na última semana se insurgiram contra o “Capitão da Vitórias” e a sua atitude na última partida na Luz, apenas posso dizer que já escrevi sobre isso em 2011, e para mim, nada mudou desde aí.