Papoilas Saltitantes
13
Fev

2015

1-1 ou 0-0, sempre empate!

Por Ricardo Rodrigues Rocha

 

Passados alguns dias sobre o acontecimento e depois de esgotado o stock de argumentos clubísticos primários, tento racionalizar um pouco a coisa, olhando para o jogo.

Vamos a factos (os meus factos, bem entendido):

1º O empate caiu do céu para o Benfica, numa altura em que já víamos os pontos a voar…tivemos um momento de felicidade, daqueles que, como Benfiquista pouco me lembro de ter…é muito raro termos a “estrelinha” nestes grandes jogos…basta lembrar os célebres minutos 92, do Dragão ou da Final da Liga Europa, para perceber isso.

2º Porque caiu do céu, o empate soube a vitória e foi festejado como tal. Afinal, não perdemos nenhum dos dois jogos fora contra os rivais diretos e retirámos praticamente da corrida pelo título um deles.

 

3º Se o empate caiu do céu, reconheço, também é justo reconhecer que o resultado mais justo era mesmo o 0-0, ou seja, o efeito prático seria o mesmo.

Olhemos para o jogo sem o filtro faccioso e constataremos que assim foi…para uma equipa obrigada a ganhar para continuar na luta, o Sporting fez pouco para o ganhar, foi pouco competente no seu processo ofensivo.

Não por falta de empenho, ou de “querer”, mas sim porque o Benfica não permitiu grandes possibilidades ao ataque do Sporting e foi, defensivamente, quase brilhante.

Um dos movimentos mais frequentes e mais eficazes no Sporting é provocar desequilíbrios através da “invasão” da zona central por parte dos seus médios (normalmente João Mário) com passes de rutura…quantas vezes aconteceu? Uma única vez, aos 2 minutos de jogo, a passe de Jefferson que terminou com um cruzamento de João Mário, rasteiro, para corte de Jardel. E outra, aos 83 minutos…a passe de Samaris!

Outra característica forte são as chamadas “2ªs bolas” ou “bolas de ressaca”, normalmente muito bem aproveitadas por Adrien, para remates de meia distância…ora, quantas vezes rematou Adrien em zona frontal? Não me lembro de nenhuma…

Outra ainda, as situações de 1x2 nas faixas, com cruzamentos à linha de Jefferson ou Cédric…quantas vezes? Uma vez por Jefferson (aos 70 minutos!!), para a melhor oportunidade do Sporting (cabeceamento de Carrillo).

E movimentos de ruptura de Carrillo, em diagonal da direita para o centro, isolando-se perante o Guarda-Redes, aconteceu? E os movimentos interiores de Nani?

Nada disto aconteceu, por mérito defensivo do Benfica, porque o Duplo-Pivot, Almeida-Samaris resultou, defensivamente!

Por isso o primeiro remate à baliza feito pelo Sporting é aos 19 minutos (remate sem perigo, da zona lateral da área, rasteiro e à figura de Artur) e a primeira jogada de perigo, de golo eminente, surge “só” aos 70 minutos, no cabeceamento de Carrillo, para boa defesa de Artur. Aos 74 minutos há mais um “frisson” e aos 83 há golo, provocado por uma maravilhosa assistência de um jogador do Benfica (Samaris).

Foi avassalador? Não foi.

Uma jogada e meia de perigo eminente é suficiente para se concluir que o resultado mais justo seria a vitória do Sporting? Lamento, é muito pouco.


4º O Benfica não procurou a vitória, procurou gerir o tempo e o resultado, sem correr grandes risco…e quase lhe correu mal.

Sou insuspeito, no meu artigo anterior defendi um Benfica de ataque em Alvalade, não só porque é assim que gosto de ver jogar o “meu” Benfica, mas principalmente porque acho que o Benfica é mais forte que este Sporting, colectiva e individualmente.

Por isso, a surpresa de Almeida-Samaris, não me agradou. Já esperava Almeida no onze, mas na lateral esquerda, no lugar de Eliseu.

 

Se este duplo-pivot (inovador no esquema do Benfica) teve o mérito de anular todos os movimentos ofensivos “típicos” do Sporting, como expliquei anteriormente, também é verdade que nos retirou muita (toda) a capacidade de saída de bola, de saída de pressão e/ou transição rápida. Eu até sou dos que acho que a melhor posição para Almeida é mesmo a posição 6, também acho que Samaris é mais 8 do que 6, mas parece-me (como ficou demonstrado) que esta dupla só funciona, num esquema com 3 médios, num 4-3-3. Onde André seja 6 tenha como única missão equilibrar defensivamente a equipa (que foi o que fez em Alvalade), onde Samaris possa ser o “elemento de ligação” mas sem ter sobre si toda a responsabilidade na construção de jogo, e onde exista um 3º médio capaz de transportar bola e criar jogo…e não falo de um Pizzi, meus senhores, falo de um Talisca, ou melhor ainda, de um Gaitan.

Mas como não sou fã de 4-3-3, para mim Benfica é 4-4-2 e nesse esquema, lamento, mas Almeida-Samaris, não funciona!

Foi aqui que esteve a “chave” do jogo, a falta de critério na saída de bola do Benfica, a incapacidade de fazer “entrar” um contra-ataque com qualidade limitou muito a equipa e a sua estratégia para o jogo.

Não me choca uma abordagem mais conservadora em Alvalade (afinal, tínhamos toda uma vantagem pontual e confronto direto para gerir), não me choca uma equipa focada essencialmente em manter o seu equilíbrio defensivo e em correr poucos riscos, mas teria sido importante… conseguir uma, duas, três saídas com perigo para colocar a pressão no adversário e intranquilizar o jogo.

Jonas bem tentou, espalhou classe naquele espaço “entre-linhas” dos leões, em especial na 1ª parte, mas sem Samaris ou André Almeida a apoiar, foi sendo cada vez mais difícil o seu trabalho.

Faltou também Gaitán…e muito, especialmente nos primeiros 20 minutos de jogo. O Benfica entrou bem, a controlar completamente o Sporting e a conseguir as tais saídas com alguma qualidade, nos primeiros 15/20 minutos há pelo menos 2 saídas de bola bem desenhadas em que esta entra no corredor esquerdo, em Ola John, com possibilidades de fazer um 2x1 com Eliseu (numa delas) ou tabelar com Jonas (noutra), em ambas o holandês tomou a decisão errada…

Por isso, para mim, este derbi, da forma como decorreu...daria sempre empate!