O Fantasista
05
Mar

2014

London Trip

Por O Fantasista

 

Sexta-Feira, 21 de Fevereiro. Parcialmente perdidos no mercado “amesterdónico” de Camden Town, eu e o meu personal concierge londrino (vamos alcunhá-lo de "Nuno" para os efeitos deste post) alinhavámos a táctica que nos levaria a Stamford Bridge no dia seguinte. A coisa era simples, mas entre transportes públicos e caminhadas, estávamos separados por uma hora. Ele imbuído no espírito romântico de Notting Hill, eu num bairro mais à moda da película "Snatch" em Manor House, um daqueles burgos onde a malta vai à mercearia de pijama.

A aplicação “facebookiana” tinha simulado o trajecto a percorrer e indicou trinta minutos até ao meeting point intermédio, Earl’s Court. Sim, precisamente onde no Domingo o Agassi bateu o Sampras! Chegado à porta da estação em Warrick Road – quando um gajo está fora do país decora logo o nome das ruas – vi o primeiro sinal, light para os nativos, do animal que um dia foi apelidado de hooligan. Estava um sol radiante, mas um grupo de oito atletas, que às onze da manhã já deveriam ir na sua sétima ou oitava pint, fizeram questão de atrapalhar o meu momento de sun tan londrino. A utilização da porta como urinol foi só aquele toque de classe final.

Entretanto o Nuno aparece no horizonte e inicia-se a caminhada para o estádio. A ideia era chegar cedo para ver o aquecimento, enquanto despejávamos a primeira pint do dia. O percurso contemplava ruas sem grande movimento, mas os carros indicavam um poderio financeiro acima da média. Uns tantos Ferraris, Bugattis, Maseratis, Porsches e Jaguars daqueles, enfim um mundo à parte mesmo ali nas redondezas de Stamford Bridge. A zona de Chelsea é tão sexy que nem estação de metro possui. O ambiente fora do estádio? Pacato. Eu sei, também estranhei. Mais tarde percebi...

 

Damos entrada pelo meio dia, quarenta e cinco minutos antes do kick-off, na bancada central frontal aos bancos de suplentes – West Lower Stand. O processo é simples e todos respeitam a segurança. Não há revistas e entra um de cada vez. Os bilhetes são dois cartões de época “orientados” pela perícia do meu companheiro. Obrigado Nuno, as cinquenta libras foram autenticos “peaners”. O show é realmente compensatório. E as pints a five pounds no interior das bancadas também!

Tensão na passagem dos tickets no torniquete. Nuno na frente, armado em chico-esperto, aplica o cartão na ranhura cor-de-laranja. Acende a red light. O steward nas calmas manda só aquela:

 - Sir, it’s flat on the orange. ALWAYS, flat on the orange.

Devem apanhar tantos destes que já nem ligam... O interior da bancada é repleto de bares, o negócio está à vista. Pint enquanto vemos o aquecimento? Claro. No entanto é interdito e somos logos interpelados por outro steward... Alcool é bom, mas só na zona restrita. Após o primeiro meio litro do dia, lá conseguimos chegar perto do pitch. O nosso lugar está aí a umas dez filas do relvado.

 

Leighton Baines é o primeiro que avisto e aquele pé esquerdo é mesmo qualquer coisa. Sem caneleira e com meia curta, ensaia o passe longo para Pienaar. O som, no local, do impacto da chute na bola é mesmo algo que já sentia falta. Do lado do Chelsea, fico feliz por Frank Lampard marcar presença nos titulares, talvez uma prenda do Zé só para mim, mas os meus olhos só tem um alvo, John Terry. Do nosso lado esquerdo a faixa diz tudo: JT Captain, Leader, Legend.

O preenchimento, por completo, das bancadas é feito naturalmente, e sem grande azáfama.  Quase sem se dar por tal, as equipas entram em campo. Surge um dos momentos mais esperados, ouvir o theme song dos Blues ao vivo em Stamford Bridge.

Esta marmelada é mesmo boa!

 

A bola já rola e ao longo da 1ª parte tomei conhecimento de uma coisa muito interessante: o jogo é secundário. Pelo menos na nossa bancada. Parece mais um evento social onde as famílias se encontram semanalmente. À nossa frente fala-se da semana de trabalho, e mesmo atrás de nós, do plano para o weekend. Diferente mas agradável. Os cânticos estão presentes mas não com a intensidade tantas vezes perceptível através das transmissões da SportTV e recentemente da BenficaTV. Half-time, 0-0! Boa, vamos lá a mais uma pint. É o momento de olear as cordas vocais, e menos de 1 litro em 15 minutos é para little boys.

Regresso à cadeira 21 da fila N e a atmosfera muda radicalmente. O foco está na bola, todos cantam e os lances de perigo começam a aparecer. Só pode ser do álcool! Pena que o ataque do Chelsea esteja agora na outra metade do field. O jogo termina como se tivesse seguido um script, com o golo da vitória do Chelsea aos 93', já bem dentro do injury time. Livre lateral de Frankie, “desvio” virtual com a shin pad do John. Foi o delírio! Até deu direito ao abraço com o "amigo" do lado. Umas filas acima alguém refere ou relembra o que seria de nós sem o Lampard e o Terry.


Algumas notas avulsas que trouxe comigo do jogo:

 - O tridente Baines-Pienaar-Osman joga mesmo de c******, para eles o futebol é outro jogo.

 - Matić é o novo herói dos blues, e a par de Azpilicueta foi o melhor em campo. Lá diz-se “méh-titch”.

 

Hora de fecho, e rapidamente se indica o caminho da saída. Lá fora perguntamos pela porta de saída dos players, é-nos indicado, e seguimos para lá circundando o estádio. Rapidamente entendemos que ali, afinal, só jogadores do Everton. Mesmo assim ficamos à espera.

Phil Jagielka é dos primeiros a sair do duche, desce a rampa, e entra direitinho no Coach. Típico de um capitão que acabou de mandar às malvas um nil-nil precioso. Os craques Delofeu, McGeady e Mirallas são os mais afáveis e demonstram vontade de alegrar os adeptos e fãs que ali esperam faz meia-hora. Destaque para o belga, que mesmo sendo o mais solicitado, foi o sorridente de serviço. Aqui em versão mais cool.

Ao mesmo tempo que somos atraídos pelos carros das estrelas do Chelsea, Tim Howard, acompanhado de um steward, atravessa a corrente de adeptos parando para distribuir autógrafos e tirar uma ou outra chapa. Perguntei se tinha sido mesmo um own goal, mas ele não me confirmou. No entanto, ainda arranquei uma gargalhada de um senhor que me jurou a pés juntos que o Terry teria tocado ao de leve na bola. Eu radiante. Significava, assim por alto, 15 pontos no meu team da Fantasy, para não falar na malta que tem defesas do Everton e que viram pontos a voar com o apito final. A festa não podia terminar sem dois momentos especiais: aquele cumprimento à surfista do David Luíz e a ida ao local pub, onde terminámos o dia à inglesa.

 

PS - Curiosa a coincidência de registar o meu maior total semanal de pontos precisamente quando visitei o UK.