O Fantasista
19
Set

2014

AVC vs Paternidade Pt. 2

Por O Fantasista

 

Dia 25 de Julho o Fantasista sofreu um acidente. Um AVC. Dia 29 de Julho o Fantasista foi Pai pela primeira vez. Um Guilherme.

Continuemos então. (Podem ler a Pt.1 aqui)

 

Dia 5 – 3ª Feira 29

   Cláudio  

Despertar à hora do costume, 7h. Exames neurológicos e picadas matinais, no dedo (glicose) e no abdómen (anti-coagulante, creio).  Cláudio relembra a importância de manter o jejum. Espera-me um dos exames mais difíceis da semana.

   Nélia e Susana (assistente operacionais)

A dupla mais animada da Unidade prepara-me para o primeiro banho integral. Nélia, 15 anos de Hospital e há 8 anos neste departamento. Susana, uma jovem Mãe que apresenta um cabelo “esquisito” – um misto de loiro com ruivo. Esta parelha complementa-se na perfeição, aliando a rapidez à eficiência (em simultâneo, trocam a roupa da cama). Susana, em modo “quitoso”, entrega-se à lavagem do cabelo, e Nélia ao restante corpo. Tudo estranhamente natural. O suficiente para, por momentos, esquecer a minha nudez perante dois pares de olhos femininos desconhecidos. Sim, elas estão habituadas. Mas eu não. 

   Teixeira

Corpo completamente revigorado e deitado na cama, à porta da Medicina IV, espero pela boleia do Teixeira. Bacalhau à chegada e, ao tomar conhecimento do meu destino, aquele sorriso de quem sabe da poda. 

   Carina (médica) e Ilda (enfermeira)

Ecocardiograma transesofágico -  respirem fundo. Basicamente equivale a engolir, voluntariamente, um transdutor com um formato semelhante a uma mangueira. A ideia passa por respirar somente pelo nariz, enquanto introduzem um produto qualquer por via venosa e observam o coração na sua parte posterior. Tranquilo, especialmente com uma Dra. Carina pela frente. O seu briefing foi fundamental, bem como a parte em que agarrou no meu braço no momento da deglutição. Um reflexo normal após decidir, conscientemente, fazer aquela marmelada descer esófago abaixo. A Ilda também foi expedita na única contrariedade encontrada no processo. O acesso do soro (braço esquerdo) não estava nas melhores condições, sendo preciso abrir caminho do outro lado. Sai aliviado e com a mente no meu próximo manjar.

   Rosa, Rita e Vasco

Terceiro confronto com a minha querida ressonância magnética. Contrariamente aos restantes exames (3 TAC’s e 2 RMN’s) não vislumbrei a Dra. Rosa após a conclusão deste último. Pronto, encontraram a lesão. Vasco, the italian stallion, aos comandos. Destino, quarto. Alimento precisa-se!

   Guitó e Rosa

Retorno à Medicina IV já em pleno lunchtime. Ninguém fala, todos comem (menos o Bruno – transferido para outro quarto).  O meu tabuleiro está ali. Prontinho. No entanto surge a Dra. Rosa com a noticia prevista: “Pedro, confirma-se. Sofreste um AVC.”. Inicialmente senti algum alivio por finalmente perceber a causa de tal perturbação no meu corpo. Mas confesso, não entendi bem o significado do impacto desta doença na minha vida.

Bastaram mais cinco minutos para perceber. O meu Pai entra no quarto para me confortar. Toca o seu telemóvel. Diz que é importante, e sai. A Dra. Rosa também abandona o local, e eu aproveito para comer. Ele volta de novo. Pergunta-me se estou preparado. Eu digo-lhe, há mais? Ele, sim. Já és Pai! Abraçamo-nos, eu choro. Tenho fome. Quero vê-lo. Autorizam? Conseguirei? Provavelmente não, mas vou tentar.

Existirá melhor forma de tomar conhecimento do nascimento do teu primeiro Filho? Sem saber de nada! Correu tudo bem, ambos estão bem. Maravilhoso.

   João, Vera (enfermeira) e Nélia.

Almoço, o possível. O Dr. João aproveita para me parabenizar e sugere um café para amenizar as dores de cabeça no sentido de viabilizar a visita ao meu Filho. Vera (capitã do team dos enfermeiros), também ela uma colheita de 80, disponibiliza uma cadeira de rodas (a minha cama não entra na Maternidade) e alerta para a obrigatoriedade do uso do roupão. Está um calor tremendo.

  1ª tentativa (de ver o meu Filho)

Café expresso tomado, cortesia do mais recente Avô do Hospital. Sinto-me capaz. Consigo chegar à cadeira. Sento-me com alguma dificuldade. As dores de cabeça recomeçam. É muito complicado manter a coluna a direito, nomeadamente a cervical. Suores frios. Pálido. Cama. A cafeína (ainda) não subiu. Calma.

Uma hora na horizontal cura tudo. Acordo decidido. Não posso conhecer o Ser responsável pelo perpetuar da minha vida, mas posso iniciar o processo de reabilitação. No domingo (3º dia) não conseguia agarrar na caneta, caía-me por entre os dedos. Hoje, der por onde der, vai dar. Vera, prestável como sempre, fornece uma capa rígida, papel e caneta. Na verdade o pensamento inicial foi instantâneo, vou homenagear esta malta. 

   2ª tentativa - Guida, Vera e Nélia

Uma hora e meia de escrita (débil) depois, sinto vontade de urinar. Ao colocar-me na vertical percebo a eficiência dos grãos de café. Parece mentira, não tenho força no lado direito, mas já não sinto as madrastas dores de cabeça. O “cachorro” também já não morde. Espetáculo!

Não arrisco e desta vez acomodo-me na cadeiras de rodas de olhos fechados. Nélia no volante com condução extremamente zelosa e vagarosa. Não resisto muito tempo à tentação de vislumbrar o desconhecido. Deparo-me de imediato com o primeiro obstáculo – o movimento relativo alheio. O corredor, as pessoas, a luz, o elevador, tudo incomoda. Não consigo mas tento manter a vista no horizonte.

   Nélia, Guida, Liliana e Guilherme.

Maternidade, calor imenso. Entro no quarto carregadinho de ansiedade. A Liliana a malhar uma sandes mista, o Guilherme a dormir. Nélia coloca o meu meio de transporte ao lado da cama da Liliana, enquanto a Avó Guida deposita o neto nos os meus braços. Momento da primeira foto do novo agregado familiar. 

Não sei como pegar no puto, muito menos com a fraqueza apresentada no outrora membro superior predominante. Sustenho a sua pequena cabeça na minha mão esquerda não mais de 1 minuto, o enorme calor que se faz sentir no quarto começa a incomodar-me e a cervical ressente-se do meu olhar vidrado no Guilherme.  Retenho o momento em que ele retribui o gesto. Emociono-me. As dores na coluna aumentam, as dores de cabeça e os suores frios reaparecem, acompanhados do meu ar esquálido... Tenho o regresso marcado. Olhos fechados durante todo o percurso de volta.

   Bruno e Rute (amigos)

Mais um amigo de escola secundaria e roommate em Lisboa desde 1998 até 2001. Afastados fisicamente pelas nuances da vida, mas nunca na mente nem no coração. Ela, também amiga dos tempos de Lisboa e responsável pelo acalmar da fera. Eternamente agradecido pelo trabalho feito na restruturação da vida de um grande amigo meu. Obrigado.

   Carolina (médica – 5ª neurologista), José e Eulália (enfermeira)

Pela pronuncia diria que é Terceirense (?), jovem, e decididamente uma provável inovadora na área. Andou por Lisboa e Londres mas acabou por voltar as origens, na Ilha rival – São Miguel. Ao tomar conhecimento da minha ideia para o texto, convida-me de imediato a colocá-lo no pasquim do Hospital. Ainda vamos a tempo, Doutora!

Diz ela que o problema foi na cápsula central do hemisfério esquerdo do cérebro (o AVC reflete-se no lado oposto). José descreve na perfeição: imagina uma central telefónica com algumas linhas (adjacentes à principal) cortadas, resultando num corrupio de luzes apagadas. A sorte foi imperial para estar aqui, e agora, a escrever...

Eulália, mulher do José, manifesta-se desagradada com a escolha (genial) da oferta para o Guilherme. José mandou-se para um pack de fraldas! Na minha óptica, leva o troféu. Dá jeito e surpreende pela positiva, afinal um dos propósitos mais importante do acto. 

   Francisco (paciente – unidade 3)

AVC do lado esquerdo, afectando a fala e o membro superior. O braço levanta muito pouco, e a rouquidão na sua fala dificulta ainda mais a minha percepção. Trabalha na lavoura, 53 anos e fuma desde os 11, viúvo com 2 filhos. Denota alguma falta de consciência falhando redondamente em alguns dos testes neurológicos realizados pelo Nuno. Afirma estarmos no dia 11 de Junho de 2006. Apresento-me e consigo o seu nome. Nada mau para 1º dia na casa.

   João I, João II e Francisco

Jantamos, recebemos visitas, conversamos (o possível) e adormecemos ao som de Josh Rouse.