O Fantasista
12
Set

2014

AVC vs Paternidade Pt. 1

Por O Fantasista

Dia 25 de Julho o Fantasista sofreu um acidente. Um AVC. Dia 29 de Julho o Fantasista foi Pai pela primeira vez. Um Guilherme.

Comecemos pelo início.

 

Dia 1 - 6ª Feira 25

O vosso fiel scout Inglês acordou com uma fraqueza substancial do lado direito do corpo, nomeadamente nos membros (braço e perna) e na cara. A frustração aumentou quando percebi a imensa dificuldade demonstrada na linguagem e fala – 1ª crise emocional. Também não conseguia engolir, nem sequer água. Estava consciente e sem perda de sensibilidade, e não me afectou a visão ou a audição. Mesmo desequilibrado, com pé e mão pendentes, conseguia andar. Retenho dois pormenores interessantes: não conseguir apertar os atacadores do calçado, e por segundos ter recuperado a fala (originado um breve suspiro de esperança).

   Hospital Divino Espírito Santo

Entrada nas urgências na companhia do meu Pai. Diz que a profissão do dito é mesmo Médico, o que, neste caso, até deu bastante jeito. Enquanto espero, outro duro golpe: não consigo escrever SMS's com a mão direita, com o dedo polegar literalmente parado em cima da letra correspondente à ordem emitida pelo cérebro.

   Yusef (médico)

Como podem imaginar, um dos diálogos mais interessantes do dia. Nada contra o médico em causa, nem contra a sua nacionalidade, mas certamente concordarão que um estrangeiro terá sempre mais dificuldades em perceber o português apresentado pelo débil atleta com a dita disfunção.

   Leandro (médico - 1º neurologista) mais o Interno do dia

Alguns testes naturais para aferir a gravidade da coisa. Sentado na marquesa, braços esticados para a frente, braço direito descai e mão direita fecha involuntariamente. Deitado, pernas para cima com joelhos flectidos, perna direita descai e pé direito apresenta-se bambo e solto. Segue-se a visão, tudo normal. A fala continua afectada bem como a capacidade para engolir. Atribuem-me uma cadeira de rodas – 2ª crise emocional.

   Rosa (médica), Rita (técnica) e Jorge (técnico)

Segue-se uma mini-bateria de exames, começando por um TAC, uma viagem bem curta no anel radiológico. Exame simples, bem conduzido pela Rita. Sem alterações.

RMN ao crânio, outra viagem, bem mais longa, num caixão tubular. A antena aplicada na cabeça é sem dúvida assustadora, ainda mais quando iniciamos o percurso ao interior da máquina. No entanto o Jorge preparou-me muito bem para o facto. Sem alterações. Aparentemente tudo boas noticias mas as sensações não se alteravam. Estranho, pensei eu.

   Joaquim (médico) 

Seguiu-se uma Laringoscopia – sonda introduzida pela via nasal para observar as cordas vocais. A suspeita era de possível “parésia” das ditas, o que também não se confirmou. Na saída, mais uma vez por meros segundos, volto a recuperar a fala normal. Começam a suspeitar de um possível AIT, acidente isquémico transitório.  

   Isabel (médica)

Eco-Doppler carotídeo, uma espécie de ecografia às carótidas. Esta denotou uma diminuição de fluxo na carótida interna sem lesões morfológicas detectáveis significativas. Resultado prático: novo TAC, desta vez um angio-TAC.

   Laurindo (assistente operacional) e uma enfermeira

Entro na Sala de Observação e estou oficialmente acamado. Troca de roupa e o cumprir do 1º sonho hospitalar: vestir aquela fatiota com atilhos nos costados, deixando o backyard à vista. Tão bom! Soro aplicado (provavelmente pela única enfermeira de quem não recordo o nome). 

Laurindo, 11 anos de oficio, possui aquele bigode farfalhudo à Paulo Machado que se impõe, mais ainda para quem te oferece pela primeira vez a possibilidade de urinar para “o cachorro”. Falhei claramente, não o orifício mas o acto. Quantos de vós já tentaram, com sucesso, mijar para um frasco enquanto deitados numa cama hospitalar?

Já deitado encaminhamo-nos, eu e o Laurindo, para a Radiologia. O cumprir do 2º sonho hospitalar: deslizar por entre os corredores hospitalares, vidrado nas luzes do tecto. A cadência com que estas passam por ti é algo difícil de explicar. Só posso deduzir que o Laurindo sabe o que faz, tal a velocidade aplicada no percurso.

   Rosa e Jorge

De volta ao anel radiológico para um Angio-TAC, desta vez com contraste. E que contraste! Aos comandos tínhamos novamente o Jorge e só relembro esta frase: “vai sentir calor aquando da introdução (via venosa) do contraste”. Conclusão, aquela m**** é mesmo potente. Uma agonia térmica de 3, 4 segundos, quase sufocante. E só termina quando sentimos a onda de calor beijar a pontinha do anus. Sem alterações.

   Leandro (o 1º neurologista), Paula (enfermeira) e uma outra médica (morena com pinta, jeans e kit hospitalar azul escuro).

De volta ao SO, uma Punção lombar – incomodativa mas necessária para excluir a possibilidade de uma infecção. Agulha infiltrada na região lombar para retirar liquor da espinhal medula. O pior são os possíveis efeitos, as famosas dores de cabeça. Exame efectuado com sucesso e sem grande dor. Obrigado Dr. Leandro e Enfª Paula.

São 17:00, estou há 6 horas em exames, e pela primeira vez percebo que provavelmente irei passar alguns dias nesta cama. Anunciam a transferência para a Unidade de Doenças Cérebro-Vasculares, onde ficarei internado. Algo ensonado, relembro uma despedida carinhosa por parte da Enfª Paula: agarrou na minha mão direita, a fraca, tranquilizou-me ao dizer que amanhã já estaria melhor.

   Cláudio (enfermeiro)

Finalmente naquele que seria o meu quarto nas próximas 7 noites, passo a residir na Medicina IV. Recepção por parte do Cláudio, um jovem, alto, esguio, e com a típica indumentária de enfermeiro. A sua cabeça flutuava num manto branco.

O momento libertou uma memória antiga, ainda bem pois era sinal que, ao menos, esta, não a tinha perdido. Um encontro em 2010 com o então ex-Treinador do SCP e futuro Mister e ex-Mister da Seleção Nacional, Paulo Bento.

O quarto, com 4 unidades, estava totalmente vazio, e reservaram-me a Unidade 2, perto das janelas. Já não entrava muita luz e o cenário transmitia absoluta tranquilidade. Condições ideias para a 1ª alimentação do dia, bolachas e um chá com leite. 

De papo cheio passo à vestimenta apropriada para esta unidade de tratamento, umas meias brancas à Cristiano de Madrid. Puxadas bem acima, passando por completo o joelho. São anti-coagulantes com uma faixa de silicone na parte superior para não descaírem. Sinto-me bem!

   Liliana (Namorada) e Guitó (Pai)

A 1ª visita foi composta pelo Pai e pela Namorada, esta com parto marcado daí a 5 dias. Foi o melhor momento do dia. Após a saída de ambos, 3ª crise emocional. O Cláudio aparece a trabalhar, e bem, o psicológico. Obrigado. Entretanto sai a dose diária de medicação.

Mais tarde outra tentativa com o amigo “cachorro”. O Cláudio até abriu uma torneira, mas nada. Consigo convencê-lo a colocar-me de pé, e com a sua supervisão caminhar 5 metros até ao WC privé da Medicina IV. Porta aberta, por questões de segurança, bengala do soro à minha direita, “cachorro” na mão esquerda (a forte), e lá foi. Apesar da dor, nunca tinha sentido tal alívio... Estava pronto para dormir, mas ansiava pelo acordar.

 

Dia 2 - Sábado 26

A noite não foi fácil, mas na medida do possível deu para descansar. Soro no braço esquerdo, oxigénio nas narinas, 4 eléctrodos mais cabos para checkar os sinais vitais e um dispositivo no dedo indicador que emitia uma luz vermelha, ET phone home, é material a mais para deixar um gajo dormir.

   Sara (enfermeira), Catarina (enfermeira) e Saúl (barbeiro)

Às 7:00 já há actividade. Vislumbro um homem de bata branca, manga curta, e com tatuagens no braço. Cumprimenta-me, eu respondo. Mas fico sem perceber qual o seu propósito naquele horário. Mais tarde chegaria lá. Logo surge a Sara para os testes neurológicos matinais. Os sintomas mantêm-se. Pequeno-almoço e medicação a cargo da Catarina. Avisa que não irei ter direito a banho, só estão mulheres ao serviço (enfermeiras e assistentes operacionais).

   João (médico – 2º neurologista e director do serviço)

Pai de um amigo meu (o tal parceiro da London Trip da época passada). Há necessidade de fazer novo TAC, diz ele.

   Liliana, Guida (Mãe) e Guitó

2ª visita em espaço hospitalar. Namorada com parto marcado daí a 4 dias. Após a saída de todos, 4ª crise emocional.

   Rosa e um técnico de radiologia

Mais um TAC, este com mais dor devido à punção lombar. Desta vez conduzido por um técnico do qual não me recordo do nome, só sei que Ele tinha uma t-shirt vermelha e estava com calor. Sem alterações. Tudo normal.

   Carolina (amiga) e Luís (amigo)

Uma amiga de infância e mais um grande amigo de secundário e faculdade, casados, um com o outro. Conheceram-se em minha casa, no longínquo ano de 1997. Inesquecível. Ao vê-los aproximarem-se da cama não contenho a emoção e pela primeira vez o chorro é presenciado – 5ª crise emocional. Obrigado mais uma vez aos dois. Segue-se o almoço.

   João (amigo)

Conheci-o, na Cidade Universitária, num campo de treinos de captação para a equipa de Futebol de 11 da faculdade. Amigos desde então. Em trânsito, com destino aos US of A, combináramos antes um convívio matinal com almoçarada. Não foi possível almoçar, mas o convívio surgiu ali à beira da cama. Ainda deu para uma collect-call para o Algarve. Apesar da dificuldade na fala, ouvir as vozes de Frederico, Mário e João deu o alento necessário.

O restante da tarde é passado entre longos turnos de sono. Os sintomas mantém-se, agora com muitas dores de cabeça em qualquer posição que não fosse uma horizontal perfeita. Por vezes nem a almofada tolero.

   Liliana, Guida e Guitó

Pai, Mãe e Namorada. Primeira refeição caseira. Mãe, há só uma.

Medicação e descanso. Antes de adormecer mais uma viagem à casota do “cachorro”. Misto de dor e alivio.

 

Dia 3 - Domingo 27

   Catarina (enfermeira) e Ana (assistente operacional)

Primeiro banho quase integral – as senhoras assumem pois continuam a não existir homens na área. Lavagem quase total. O Fantasista assume as partes mais íntimas a pedido da dupla. Qual cobaia de um famoso hair-designer insular, sou submetido a uma lavagem exemplar do meu cabelo. Só faltou a música. Cabeça refrescada, melhor momento do dia.

   José (médico)

Enquanto despacho o pequeno-almoço, recebo um amigo da família. É sempre uma alegria ouvi-lo. Foram 45 minutos de introspeção necessária, admito. A lesão não “aparecia” e era preciso “vislumbrar” outras razões para o acontecimento de tão trágico evento. Obrigado.

   João (o director do serviço)

Sintomas mantêm-se, mas a fala melhorou. Continuo bastante cansado e com dores de cabeça. Nova ressonância marcada para o dia seguinte.

   Liliana, Guida e Guitó

Pai, Mãe e Namorada (parto daí a 3 dias). Nova refeição caseira. Apesar de ser a segunda, Mãe há só uma.

   Carlos (tio)

Tio, irmão da minha Mãe. Não vive na Ilha, como tal foi completamente inesperado – 6ª crise emocional. Veio ver o Cliff Diving com membros do team Toro Rosso, aquela bebida especial (e ideal) para misturar no vodka. Agora estou arredado de tais companhias. Penso eu de que...

   Nuno (enfermeiro)
 
A tarde completa-se em modo "ronco profundo". Após o jantar tenho finalmente vontade de evacuar qualquer coisa. Talvez fosse do susto, da falta de força, do não conseguir estar em pé, de comer pouco... não sei ao certo. A muito custo e com o apoio fundamental da minha nova bengala, o soro, deslizo para o privé. Já sentado faço um primeiro esforço, originando uma pressão diabólica na coluna. As dores de cabeça aumentam a um ritmo alucinante e o corpo é invadido por suores frios. O desmaio está perto! Toco na campainha mágica. Nuno to the rescue. Estou traumatizado.

Nuno, estudou em Portalegre, não fuma há 2 anos. Talvez devido ao que já presenciou na sua unidade de trabalho. Gente boa, tem horizontes largos e conhece o mundo, e acima de tudo aparece, e parece, sempre bem disposto. Discordou do titulo deste post. Até o percebo mas é a minha história. E talvez até faça sentido comparar a força e o impacto de ambos os acontecimentos. Vicissitudes da vida.

   João I (paciente – o 1º na Medicina IV)

AVC do lado esquerdo afectando ambos os membros, fala e visão. Vende melancias e possui uns tantos alqueiros de terra. Oito filhos e dois netos.
Como foi colocado à minha direita, não me vê. Desconhece por completo a minha existência. Estamos separados por um longínquo metro e meio. Ligo a música e adormeço.

 

Dia 4 - 2ª Feira 28

Outra noite mal dormida, a primeira sob o efeito do tal “Diazepamzinho”. Esta droga é mesmo forte! Pelo menos para quem a toma pela primeira vez. No meu caso dormi directo aí umas 5 horas, acordando às 3:00 da manhã de barriga para cima, braços abertos à la Jesus, boca aberta e pastosa, basicamente completamente anestesiado. Sensação agoniante pois só adormeci passado 1 hora. Acordo novamente às 7:00 para os exames de rotina. Adormeço novamente.

   Mónica e Ana (assistentes operacionais)

Volto a despertar às 9:00 para o pequeno-almoço. Segue-se mais um banho, exactamente nas mesmas condições do dia anterior. Ao contrário da maioria dos trabalhadores nesta área, estas duas meninas tem cara de poucos amigos. Sorriam mais!

   João ( o director de serviço), Marina (médica, a 3ª neurologista) e Carolina (médica, a 4ª neurologista)

Ronda matinal. Sou informado que farei hoje um electroencefalograma e nova Ressonância Magnética. Mais à frente falarei das doutoras.

   Teixeira (assistente operacional)

A grande figura do Hospital Divino Espírito Santo! Aquele artista sempre bem disposto, conhecedor, como ninguém, dos meandros mais curvilíneos do Hospital. Especialmente os femininos. Carreira no pico, 22 anos dedicados à causa, trabalha as suspensões das camas com ninguém. Uma das viagens mais divertidas. Obrigado Teixeira!

   Carlos (técnico)

Teixeira faz o drop à porta de um compartimento esconso, paredes meias com a unidade Otorrinolaringologia. Tempo para apreciar uma das batas mais bonitas do sector, a bata branca da Mariana. Eletroencefalograma – basicamente enfiamos na cabeça uma touca amarela, estilo polo aquático, à qual se juntam uns cabos conectados com gel. Proporciona uma viagem à cave do Lux.

Aos comandos, Carlos, antecipou bem todos os passos do processo. Dono de uma pequena sala de cortiça, completamente alheado de tudo, mostrou-se um bom conversador. Pareceu-me ser de Lisboa e confirmou o seu benfiquismo. Saí muito bem disposto! 

   Vasco (assistente operacional)

O stallion lá do sítio e homem dos sete ofícios, árbitro e bouncer em outras vidas, confidencia apetite especial por doutoras americanas em estágio por estas bandas. Animado, deposita-me na Radiologia.

   Rosa, Gonçalo, Ricardo e Rita (técnicos)

Deitado na cama, espera-me novo confronto com a máquina da ressonância magnética. Dois velhos conhecidos do secundário, escola Domingos Rebelo, aproximam-se. Bom rever caras conhecidas, mesmo que espantados por me ver ali e nas circunstâncias conhecidas (ainda sem saber o que realmente tinha acontecido). Gonçalo é o primeiro a reconhecer-me, segue-se o Ricardo. O último acompanha-me, a par da Rita, para o interior da sala.

Em estreia com phones e música, entro na urna ao som dos U2. Walk On! Extremamente apropriado. Um minuto depois saio. A máquina pede um reboot. Volto a entrar. Nada! Volto a sair. Vão chamar o “engenheiro”. Não me contenho e proponho desligar no quadro. Verdadeiras máquinas colocam-nos sempre perante erros destes. Corte elétrico funciona sempre. Adeus.

   Liliana (parto daí a 2 dias) e Guida

3ª refeição caseira. Um mimo!

   Carolina (médica)

Interna do meu Pai, conheci-a em modo festivo, através de uma amiga (Cristina, também ela médica) do meu Irmão.

   Frederico (amigo)

Além da amizade, foi também colega de curso na faculdade. Inicialmente forte parceiro de estudo, agora parceiro em tudo. Adoro passar tempo na sua presença. Apareceu lesionado numa vista mas ainda foi a tempo de malhar a minha sopa. Obrigado.

   André e Carolina (colegas de trabalho)
 
Se excluirmos a Liliana do meu dia-a-dia, é com esta dupla que vivo. Carolina há 1 ano, André há 7 meses. Espero que se sintam recompensados pela constante partilha de experiencias. Tenciono continuar a aprender com vocês. Obrigado aos dois.

   João II (paciente – unidade 4)
 
AVC do lado direito, com vista afectada. Guarda Nacional Republicano, 47 anos, nascido em Luanda. Chega acompanhado pela Mulher, enfermeira no Hospital. Sente-se algo confuso e fala muito pouco. Na 2ª noite, à sombra de John Scofield, afirma gostar muito de música, e mostra orgulho por saber tocar muitos instrumentos. Resultado directo dos anos de estudo num seminário alemão em Gouveia. Ao 3º dia não se recorda desta conversa...

   Bruno (paciente – unidade 3)
 
É o primeiro repente na área. Barman, 27 anos, não aparenta qualquer alteração, sendo o único com permissão para se levantar. Telemóvel sempre ligado e em constante funcionamento, com o toque altíssimo. Talvez a audição estivesse afectada. Talvez. Só pernoitou uma noite, e logo pela manhã apanhei-o, com a cara cheia de espuma, submetido à navalha do Saúl “O Barbeiro”. Agora sim...