No Caldeirão, Domingo às 4
16
Dez

2013

Uma sexta-feira 13 e o mesmo azar de sempre

Por Paulo Pereira

 

É fácil comentar um jogo em que se mereceu perder. Este ano, o Marítimo foi mau demais e mereceu-o inteiramente em Belém e em Guimarães. Mais difícil, mas ainda mais saudável, é reconhecer quando o adversário foi pura e simplesmente melhor. Aconteceu, por exemplo, com o Estoril, nos Barreiros. Agonizante, pelo contrário, é fazer o suficiente para ganhar dois jogos mas garantir que só se leva um ponto na trouxa, porque não há forma de corrigir o sorvedouro que mora na nossa área.

 

Numa sexta-feira à noite cinzenta, dia em que é um crime que haja futebol, e que apresentou, por isso, um estádio frio e vazio à sua imagem (vénia à tarja da Mancha Negra, a lembrar que deviam haver coisas muito mais importantes do que a televisão...), o Marítimo foi a Coimbra fazer 90 minutos de grosseiro sentido único e, sinceramente, vulgarizar uma Académica que as crónicas maquilhavam para muito melhor. O completo deserto futebolístico da Briosa não foi estratégia, nem foi falta de atitude: foi, tão só, total falta de capacidade. A equipa acantona-se no seu quadrado, deixa os laterais irem correr de vez em quando e espera que o tempo passe até ter um encosto que valha livre ou um ressalto que valha canto. Deduzo que Sérgio Conceição só prepare bolas paradas nos treinos, porque, de resto, dá dó.

 

Neste ideário futebolístico de primeira água, o Marítimo conseguiu, mesmo assim, ir para o intervalo a perder. Na única oportunidade que a Académica teve em 85 minutos. De bola parada, obviamente (não sendo preciso dizer como é que foi a segunda). Foi sexta-feira 13, será que tivemos azar? Depende, é que o nosso azar tem nome e anda-se a apresentar ao serviço desde o Verão.

 

Como para a pior defesa do campeonato todos os dias são dia, aproveitou-se para facturar o 25º golo dentro... e sinceramente é um milagre que não se tenha sofrido o dobro disso. Pela segunda semana seguida foi uma bola parada a vir roubar os pontos, mas as bolas corridas são um drama ainda maior. Até a Académica, o pior ataque da Liga, uma equipa que para todos os efeitos é alérgica à bola no último terço, foi presenteada com episódios como nenhum central se fazer à bola no corredor central, num festival de défice táctico - de bagagem individual dos envolvidos e, tenho de supor, de trabalho nos treinos - de má leitura, má comunicação e de uma total falta de confiança.

Neste momento, qualquer equipa à face do planeta Terra conseguiria marcar golos ao Marítimo e já não sei qual é o pior dos muitos problemas, mas sei que estamos naquela fase da época em que ou se o resolve, ou pode o Marítimo bem se conformar em ficar da segunda metade da tabela para baixo. É que nem o facto de se ter os melhores avançados em anos consegue compensar tamanha tragédia. Que se passe a semana a fazer treinos bidiários específicos, que se experimente os defesas todos da equipa B, mas que se faça qualquer coisa. Porque "esperar que passe", acho que já podemos todos ter a certeza de que não vai funcionar.

 

Leoni voltou felizmente à baliza, na vez de Wellington, e se nada pôde fazer no golo, segurou com a defesa da noite a outra "oportunidade" da Académica, que teria valido uma derrota, ela sim, surreal. No imediato, o cerne do problema estará no coração da defesa, e se Gegé vai fazendo pela vida, mesmo que com mais energia do que método, já Márcio Rozário está pior do que um vulto em relação a como surgiu no ano passado. A herança de Roberge tem sido, pura e simplesmente, impossível de suportar, e tendo o brasileiro outras qualidades, não tem manifestamente condições para ser o chefe da defesa, porque, para isso, é preciso mais do que fôlego, força e vontade.

Ainda por cima, por estar mais exposto, os seus erros de posicionamento e de abordagem aos lances (como hoje) passaram a acumular-se. Rozário como patrão do quarteto tem sido como um soldado a correr sozinho à frente de uma linha de tiro, encadeado e totalmente desorientado, e nisto temos todos encaixado as balas. Há que ter coragem para mudar e repito que, na equipa B, anda um senhor imensamente promissor, que já esteve nas equipas ideais da 2ª Liga do ano passado, chamado Patrick Bauer. É provável que não seja um Beckenbauer, mas, nesta altura, pago para ver.

 

É irónico falar tanto da defesa num jogo em que ela tão pouco teve para fazer, mas também é sintomático. O Marítimo só atacou, só teve bola, só jogou no meio-campo da Académica. É verdade que o ataque não foi tão feliz como noutros dias mas, em circunstâncias normais, a cabeçada divina de Derley teria dado e sobrado para a encomenda. Assim, continua a equipa atolada em 11º, a inculcar que precisa de marcar 3 golos se quiser ganhar algum jogo...