No Caldeirão, Domingo às 4
18
Fev

2014

Um leão como nós

Por Paulo Pereira


    
Minuto 94.

Um estádio inteiro sustinha a respiração.

Os minutos finais são maus para qualquer equipa que esteja a segurar um resultado, mas já toda a gente sabe que, para este Marítimo, são pior do que uma tragédia assombrada. Os adversários predam instintivamente esse medo. Um minuto antes, o Setúbal tivera a sua melhor oportunidade do jogo: canto, Salin batido, uma bola sacudida no limite, em cima da linha. Os 4 minutos de descontos pareciam durar outra vez uma vida inteira, numa distorcida experiência extra-corporal. Cristalizados nesse sofrimento torturante, o que nos apetecia a todos era entrar em campo, cerrar as fileiras e fazer o melhor minuto das carreiras que nunca tivemos. 

 

Faltava a última carga. Instalado no nosso meio-campo, o Setúbal sai pela esquerda, para uma agressão final... e é aí que, de repente, entrámos mesmo em campo. Ou pelo menos, entrou o melhor de nós para, uma tarde mais, fazer melhor do que nós podíamos. Na guerra de nervos desse derradeiro contra-relógio, despojados de uma auto-confiança substancial, quando só queríamos modestamente defender as nossas falências, o Derley foi ao meio-campo defensivo, roubou uma bola, fintou o primeiro que lhe saiu, aguentou a carga, bateu o segundo em velocidade e foi ganhar uma falta ao limite da área contrária. Suponho que Couceiro avisou a sua equipa para a possível recompensa do pressing final; só não podia prever que, quando chegasse a hora, não encontraria só jogadores. O último fôlego seria de um leão como nós. 

Escrevi depois do empate em Olhão que, até Maio, a única coisa que lhes exigia era um empenho incondicional. Um compromisso honesto, uma genuína vontade de ganhar. Domingo provaram que sim, que posso confiar. Que este Marítimo pode ser muitas coisas, mas que não é a equipa que já desistiu. Sentimos isso nos pormenores, na disponibilidade, no brio a carregar jogo. Nos nervos do Pedro Martins, no abraço colectivo no fim e na comunhão com as bancadas. Na conferência de imprensa, o Pedro disse que “foi a primeira das 12 vitórias que pretendemos.” Não sabemos para onde é que vamos mas, assim, podem ter a certeza de que vamos juntos.

 

Foi um grande jogo nos Barreiros, bem acima da média da Liga. O Marítimo ganhou sem discussão, porque foi a equipa mais intensa e a que esteve sempre mais próxima de o fazer – Kieszek foi o melhor em campo –, mas há que fazer uma vénia à transformação do Vitória às mãos de Couceiro. É uma equipa que mudou do dia para a noite desde os tempos de José Mota. Uma equipa que agora valoriza inequivocamente o jogo, com um bom miolo e um bom ataque, boas triangulações, bom toque, bons laterais. Foi apenas a segunda vez que o Marítimo não sofreu golos na Liga deste ano, mas o Vitória foi dos melhores adversários do ano e justificou-o muito mais do que tantos outros.

Claro que nós também ficamos a dever muitos golos. Mesmo que num jogo nem sempre coeso, onde foram notórias deficiências na construção ofensiva, a generosidade da equipa veio ao de cima, e as oportunidades acumularam-se desde cedo. Danilo Dias voltou-se a evidenciar e parece seguro que será um ás para esta segunda-volta. Na estreia na Liga, Jorge Chula encheu a ala e provou que vale a pena continuar a confiar na combustão com a equipa B. Nuno Rocha ainda não está como peixe na água no box-to-box, mas a confiança continuada de Pedro Martins tem-no feito queimar etapas e o golo servirá de tónico. E nova palavra para os protagonistas da defesa, Salin, Bauer e, particularmente, Gegé que, fora de posição, a cobrir as ausências na lateral-direita, insiste em ser um pilar. Mesmo regrado nas subidas, mereceu estar directamente ligado ao lance do golo.

 

Todavia, queria acabar como comecei, a falar de alguém que vai sendo mais especial para a nação do Almirante a cada semana que passa. E falar dele nos jogos em que não marca golos faz ainda mais sentido, porque Derley é muito mais do que isso. O Marítimo-Setúbal não passou na televisão, pelo que quem não esteve nos Barreiros não poderá avaliar o alcance de exibição que ele fez. O Derley, vale a pena contar a quem não sabe, não teve escola e, até aos 23 anos, não era sequer futebolista a tempo inteiro. Foi descoberto pelo Pedro Martins nos distritais do Rio de Janeiro, numa viagem para observar outro jogador. No domingo, não pela primeira, não pela segunda, mas pela enésima vez este ano, dei por mim nos Barreiros a constatar a enormidade daquele talento. 

Era natural que o Derley tivesse sido outra coisa qualquer. O destino quis que, por linhas tortas, chegasse a um bom campeonato europeu fora de idade e quando pouco o faria prever. A única verdade é que o campeonato português é pequeno demais para ele. Dizer isto não tem nada de hipérbole, é meramente reconhecer um talento nato quando o vimos. O Derley não é um avançado prestável, competente, que marca os seus golinhos. É um ponta-de-lança que tem tudo: força, velocidade, técnica, inteligência, instinto, carácter. Joga incrivelmente bem de costas e em profundidade, arrasta literalmente a equipa sozinho e não podia estar mais confortável dentro da área. É um tipo que, ainda por cima, se mata a trabalhar, mas que parece que não sua e que joga de smoking, tal a elegância com que, depois de recuperar uma bola, ou de esperar pela equipa no meio de 3 ou 4 adversários, consegue transcender, em posse, finta ou abertura, aquela que parecia ser a melhor solução possível.

No Verão, o Derley seguirá certamente a carreira por outras paragens. É a medida da qualidade bestial que ele tem e faz parte da nossa realidade, sabemos todos isso. Só queria aproveitar para dizer que, nesta era impessoal, de mudança constante, alheia a ídolos e a referências, é um orgulho tê-lo por cá. Não por ser tão bom mas porque, todos os dias, é um tipo a quem a qualidade não sobra. O mais talentoso é, neste caso, o que se esforça mais. O que tem mais humildade, mais brio, mais vontade e mais raça. O Derley está cá há meio ano e parece que jogou de Leão a vida toda. Alguém que, no fundo, joga como nós jogaríamos, se pudéssemos, está condenado a ser um tipo especial.