No Caldeirão, Domingo às 4
17
Jun

2013

Um esboço de Leão para 2013/14

Por Paulo Pereira

 
Mais um ano, mais uma espécie de revolução no plantel, com as mesmas dificuldades financeiras do passado recente. Para já, partem quatro titulares (oito saídas até ver), ainda sem contar com as vendas obrigatórias que terão de existir. Nomes para o plantel principal, no entanto, ainda não existem.
 
Na baliza, depois de Peçanha no ano passado, a equipa volta a perder o número 1. Romain Salin teve um início suspeito, mas, após uma lesão, foi uma figura nuclear na segunda volta. Não chegou a acordo para renovar (Braga é o destino, ao que se diz), e, desta vez, é discutível que o grupo possa absorver a perda. É que nas semanas em que teve de substituir o francês, Ricardo Ferreira foi um a menos. Wellington, por seu lado, não chegou a mostrar o que quer que seja, e com o emprestado Marafona a ir continuar muito provavelmente fora das contas, fica um lugar de peso para preencher.
 
No centro da defesa, a perda não é menos violenta. Valentin Roberge, um dos grandes centrais do campeonato nos últimos dois anos, acabou contrato e já assinou pelo Sunderland. Também João Guilherme, um dos capitães de equipa, um jogador já com 6 anos de casa, vai abandonar: perdeu a titularidade este ano, e também não chegou a acordo para renovar. Vai para o APOEL. Márcio Rozário é quem se afigura como o patrão indiscutível da próxima era, mas, como Pedro Martins já admitiu, o clube está mesmo no mercado por um central experiente. Completarão o leque Igor Rossi, já integrado no plantel principal, e, possivelmente, o alemão Patrick Bauer, 20 anos, que continuará emprestado pelo Estugarda, depois de um primeiro ano na equipa B. Nas laterais, segue, para já, a quadra de madeirenses, mas Rubén Ferreira é um dos activos no mercado, e a sua saída não poderá surpreender ninguém. João Diogo, na ala oposta, uma das revelações do ano, assim como os veteranos capitães Briguel e Luís Olim, já renovaram.
 
A senda de perdas de fundo continua logo na cabeça da área, com o adeus de Rafael Miranda, a maior referência da equipa no último par de anos, a par de Roberge. Voltará ao Brasil (Bahia), onde lhe podem pagar o triplo do que o Marítimo podia. Parte um grande profissional, ao qual se juntam, dispensados, o histórico Olberdam, depois de dois anos destruídos por lesões, e o errante Rodrigo António, a caminho do Paços. David Simão, por sua vez, regressou ao Benfica ainda antes do fim da época, com um processo disciplinar. Para já, são apenas três os nomes seguros no miolo, nenhum deles determinante no ano que acabou: os trincos Semedo e Marakis, e o #8 João Luiz, que passou a temporada na enfermaria. Ricardo Fernandes (21 anos), um médio madeirense ex-União, é reforço, mas segue para a equipa B. Fala-se, no momento, no empréstimo de Vinícius (Braga) e Miguel Rosa (Benfica), mas o dossier de expediente urgente é o da continuidade de Artur (por empréstimo do Chernomorets), cuja criatividade foi o traço mais distinto da equipa na segunda metade da liga.
 
Nos extremos, estão quase todos os anéis da equipa, e quase todos depois de fazerem uma última época aquém do esperado: Sami, Héldon e Danilo Dias. Pelo menos um deles será vendido, com Sami a ser associado ao Valência e Héldon a um Málaga que está a pescar em Portugal. Para continuar a crescer nas mãos de Pedro Martins, a única continuidade certa é a do miúdo Kukula, cujo virtuosismo já deu ar da sua graça. No coração do ataque, Suk é a estrela para ser. O exótico sul-coreano chegou como perfeito desconhecido no mercado de Inverno, mas não demorou muito a causar estrondo (golos na vitória em Alvalade e no empate com o Porto), ao ponto de ter congregado interesse de todos os quadrantes e de, inclusive, já se especular sobre a sua saída. Tem, contudo, mais três anos de contrato, e parece, claramente, a referência à volta da qual o próximo Marítimo se vai construir. Com menos peso nos ombros, Fidélis também continuará, e com boas perspectivas de sucesso, sendo mais incerto o futuro do nigeriano Ibrahim. Adilson já foi dispensado. Nos últimos dias, Oliver, avançado brasileiro de 20 anos que passou pelo Nacional sem sucesso, também terá sido oferecido.
 
Neste momento, o melhor onze possível do próximo Marítimo seria: Marafona; João Diogo, Rozário, Rossi, Rubén Ferreira; Semedo, João Luiz; Héldon, Danilo, Sami; Suk. 
 
O reforço do miolo determinará muito provavelmente as aspirações da equipa. É o sector mais deficitário, e é imprescindível garantir um dínamo à altura de Rafael Miranda, para além da assegurar a continuidade de um talento como Artur. Mesmo depois disso, contratar um terceiro elemento com unhas para entrar no onze também seria uma prioridade. Depois será necessário cobrir as saídas que vão existir, muito provavelmente duas, entre Rubén, Héldon, Danilo e Sami. Dos quatro, é este último quem está em pronunciado fim de ciclo, e, por consequência, quem deve ser melhor encaminhado à porta. Héldon será o outro grande candidato a partir (valorizou-se na CAN), mas o cabo-verdiano, ao contrário do colega guineense, tem todo o perfil para vir a ser um dos líderes da equipa, e a sua continuidade devia ser zelada. Seja como for, além da compensação dos que saírem, a linha avançada também devia ver chegar uma alternativa extra. Finalmente, ter em conta substitutos para Salin e Roberge não devia ser descurado.  
 
Certo é que se adivinha um defeso tão longo quanto tardio, e grandes surpresas não são de esperar. É ficar a torcer por bons negócios, e por mais um bom trabalho de Pedro Martins com os miúdos. Neste momento, ainda não é líquido que o Marítimo venha a ter uma equipa para jogar para o top 6, mas a verdade é que essa também não é a prioridade para o imediato: antes de mais, é vital ser realista, e garantir a sustentabilidade geral do próximo ano (salários, logística, etc.), até porque a época que passou esteve longe de ser fácil; depois, continua na ordem do dia a delicadíssima questão das obras paradas nos Barreiros, e é para aí que o pouco dinheiro que entrar terá de ser canalizado.