No Caldeirão, Domingo às 4
19
Ago

2014

Strikeout

Por Paulo Pereira

 

Começar uma liga em casa de um estarola é como ir ao primeiro dia de trabalho depois de um mês de férias. Um gajo até pode ir com boa cara e com vontade, mas já acorda com um mau pressentimento e passa o dia todo com a aflição dos condenados.

Ir aos grandes deixa-me fisicamente mal disposto em qualquer mês do ano, porque aquilo é verdadeiramente um casino, em que a casa ganha sempre. É o momento em que a sombra da diferença de recursos é mais desconfortável e mais abissal, onde os graus de confiança e desconfiança mais se desequilibram no campo, é um pico de hostilidade e é o lugar onde os jogadores me parecem quase sempre ir jogar em via sacra, absolutamente convencidos de que nada lhes pode mudar o destino.

Ora, eu não sei ver jogos do Marítimo nestes termos, nem nunca vou saber. Qualquer sugestão de que as coisas vão acontecer exactamente como no guião começa-me a inundar de veneno a vesícula biliar e é uma experiência honestamente cáustica. Sair da praia para isto não é, como é bom de ver, o sonho mais bonito de uma noite de Verão.

 

Ir ser gladiador a um dos coliseus do tripartidarismo português é sempre mau. No primeiro dia é pior e, sem ter equipa nem identidade formadas, é quase desconcertante. Fica-se sempre à espera de um golpe de asa qualquer, de um assomo de mentalidade que nos contagie e perverta as probabilidades, mas nenhuma batalha deve alguma vez ter sido ganha no primeiro dia de trabalho depois das férias.

Ainda que com variados altos e baixos, Leonel Pontes foi coerente na pré-época. Deixou claro o sistema que queria utilizar, tal como parte substancial da sua espinha dorsal. Com reforços que nunca chegavam isso era, de facto, o melhor que podia ter feito: não experimentar demasiado, não perder tempo. Por um lado, acho que parte dessa compostura foi patente em campo; por outro, não apreciei a ligeira nuance, que foi incluir um quarto médio para sacrificar um dos extremos. 

Ao contrário do que até é mais ou menos crença comum, não concebo que um treinador tenha de fazer equipas por padrão. Que esteja moralmente proibido de alterar o seu desenho habitual, se achar que isso o aproxima da vitória. Antes pelo contrário: táctica e estratégia são as duas faces da mesma moeda, e o papel do treinador é ler as virtudes da sua equipa e as dos outros, ler as circunstâncias do jogo, e manipulá-las a seu favor. Ainda assim, a realidade parece-me sempre roubar a razão, já que, quando se muda, dificilmente não é para fazer uma tracção atrás.

Ao contrário do que foi experimentando, Leonel Pontes achou que o Dragão era logo o momento para abdicar de um extremo em benefício de um quarto médio. A equipa foi séria e equilibrada em contenção, é verdade, o problema é que, a criar, nunca se vislumbrou qualquer ideia que suportasse a opção táctica. Recuámos expressamente para defender mais. E defender, nestes jogos, é quase sempre perder por poucos. Isto não é nenhum afrontamento, e não põe nada em causa mas, sinceramente, gostava de ter visto outro Marítimo em campo, se não com outro resultado, se não com outros meios, ao menos com outra coragem.

 

É que também vale a pena reconhecer que o Porto de Lopetegui podia ter sido um adversário bem mais indigesto. A hispanização entrou em campo de pantufas, muito metódica e com medo de falhar, e isso foi-nos emprestando oxigénio, ainda que não tenha tido benefícios práticos.

O Marítimo, com um ataque inteiro que não vejo a ser o titular da época (no ano passado, começámos com Sami, Héldon e Derley...), arrumou-se bem no campo, equilibrou-se como pôde e, mesmo sem um conceito claro de como construir, acabou por reclamar o seu tempo de antena num par de contra-golpes que o jogo propiciou.

Quanto a isso, o momento do nosso jogo é o suor frio de Edgar Costa quando, isolado na cara de Fabiano, depois duma abertura bestial de Fernando Ferreira, resolveu esboçar um passe, em vez de pintar o balázio da sua vida. Morreram-lhe as pernas, morremos nós por dentro. Num jogo destes, sabes sempre quando passou a tua oportunidade.

Danilo foi o melhor em campo e todos os dias são bons para lembrar a catástrofe que seria perder um futebolista da categoria do miúdo, numa posição tão insubstituível como a sua. Agora que o Benfica o acha publicamente caro, porque não é sérvio, nem sul-americano, e porque um dia cometeu o pecado imperdoável de abandonar a formação do clube (para quem não sabe, o Amorim, o Sílvio e o Paulo Lopes ainda se chicoteiam todos os dias, num clube que tem a Academia como imagem de marca), que seja a desculpa para blindar esta conversa até ao próximo Verão. 

Salin, Fernando Ferreira e, especialmente, Dyego Sousa foram as outras notas positivas. O ex-Portimonense tem à vontade longe da área, sabe segurar a bola e tem boa finta curta. Pareceu, de facto, uma mais-valia, inclusive para parear com outro homem na frente. No resto, foi uma última agrura de pré-época que, espero, tenha sido bem assimilada. É preciso mais nervo, mais arrogância, mais qualidade. Que faça calo.


O ano começa verdadeiramente sábado, com a Briosa, eventualmente já com um par de trunfos sobre a mesa. Os muito aguardados extremos chegaram: Jhonny Vidales (22 anos), peruano, formado no Alianza Lima e contratado pelo Parma; e o cafetero Felix Micolta (24 anos), com um percurso respeitável por bons clubes colombianos. Fica a faltar o fim da novela faraónica com Mohamed Ibrahim, que esta semana já foi confirmado e desconfirmado duas vezes...

Que o meio do Atlântico seja um lugar feliz para esta pequena babilónia futebolística.