No Caldeirão, Domingo às 4
04
Fev

2014

Só nós é que sabemos

Por Paulo Pereira

 

Só há uma característica mais significativa do que a dificuldade que é não ser adepto de um grande em Portugal: é o gozo que dá ganhar a um.

 

Não é só a perversão das probabilidades, a transcendência, porque o acto de nos superarmos prevê na sua própria génese que os efeitos sejam sempre mais recompensadores. Assim, ganhar a um favorito, ser melhor do que quem é maior e tem infinitamente mais condições, é algo especial por definição.

A questão é que em Portugal é mais. É que aqui não há grandes, médios e pequenos. Há uma tripolarização doente que esgana e devora quase tudo à sua volta, que é transversal à esmagadora maioria da população e que é alegremente cavalgada por qualquer meio de comunicação social. Esse complexo de inferioridade regional é, igualmente, a razão pela qual estamos condenados a ser um campeonato mais ou menos terceiro-mundista, como já escrevi mais do que uma vez.

Em Portugal ganhar a um grande é sempre muito mais do que isso, porque a cisão que se alimenta entre os três e os outros ultrapassa quase todo o razoável. É abissal. Se vou aos Barreiros ver o Benfica ou o Porto, provavelmente estou em minoria, o que é uma aberração. A cobertura mediática a este fenómeno é uma causa e uma consequência, estéril que é a qualquer imparcialidade, integridade jornalística e, não raras vezes, à própria vergonha na cara.

 

Há uma semana, fomos ao Dragão rodar a equipa numa competição idiota, onde já não tínhamos espaço, mas num jogo que, para o Porto, era decisivo. Curiosamente ou não, demos muito boa conta de nós e dignificámos o espectáculo muito mais do que ele merecia. O reconhecimento foi passar os descontos com a TVI a vibrar que “só mais um golo, Porto, mais um golo chega!, pelo menos nas nossas contas”.

Para a maioria das pessoas isto há de soar normal. A cortina de fumo, o défice futebolístico-cultural e os vícios dos media fizeram com que soe normal. Mas acho que qualquer um com um mínimo de senso, e que se dedique dois segundos a pôr a mão na consciência, percebe o grotesco.

Para a comunicação social em Portugal e para 80% dos adeptos há os três grandes e depois há treze patos de abate. E nem vale a pena disfarçar quando um dos patos dá mais luta do que era suposto. A multidão entretida, adeptos e julgadores, qual coliseu, presta-se logo a urrar incendiada até ver o sangue do humilde gladiador.

No Dragão lá perdemos, de facto, para banquete de lordes e um guião feliz. Para tristeza generalizada, infelizmente, achámos de fazer as contas na volta.

 

O gozo que dá é tanto maior, porque a coisa se joga, como já disse, em campo neutro. Não estamos a receber onze adversários difíceis, mas antes toda uma multidão que nos invade a casa para nos ver perder. Conterrâneos, não raras vezes, que têm pena de nós porque somos de um clube pequeno, que não ganha campeonatos, enquanto eles partilham um escudo da metrópole superior.

O gozo que dá é tanto maior porque também nós, os irredutíveis que aguentamos o forte, sentimos aquilo mais na pele. Sentimos que é mais connosco e queremos mais, e gritamos mais e lutamos mais. E foi bestial arrepiar-me nos Barreiros um dia mais, com a gente à minha volta a assistir aos descontos de pé na Central, como se, por causa isso, os pudéssemos ajudar melhor dentro do campo. Como se, ao nos mantermos firmes nas pernas, nesse reflexo instintivo, segurássemos os ombros dos que lá tinham dentro de suster a carga final. Ou, pelo menos, como se assim dignificássemos modestamente o esforço que eles tinham de fazer hercúleo para que pudéssemos ganhar.

Os reflexos ninjas do Salin na baliza, que regressou meio ano depois para o nosso primeiro jogo da época sem sofrer golos. A raça do beckenBauer, o nosso generalíssimo alemão para ser, coisa que assino já de cruz que vai acontecer. Os quilómetros de pernas do Danilo Pereira e os pianos que ele carrega, até decidir que mais valia tocar um e, com uma marselhesa, ganhar-nos o jogo. E o Derley, sozinho contra o resto do mundo, no jogo e agora até no nosso ataque, contra quatro e cinco adversários de cada vez, mas sempre a querer dizer que isso não tinha assim tanta importância.

 

Adriano Moreira escreveu uma vez, sobre as coisas do mar, que “ninguém escolhe o povo e a terra onde lhe aconteceu nascer, e que partir é um direito de ir e andar pelo mundo. Mas a outra decisão, que é um acto de amor, é decidir ficar. A Marinha é um conjunto de homens que decidiram ficar.” Qualquer um de nós também podia ter “partido” para o outro lado. Era muito mais fácil que sim e já todos tivemos todas as oportunidades. O problema é que o amor não está no domínio das coisas fáceis...

Por isso, o meu Marítimo também é orgulhosamente o conjunto de homens que decidiram ficar. Obrigado por esta, Leão. Valeu a pena, só nós sabemos o quanto.