No Caldeirão, Domingo às 4
15
Jan

2014

Singularidades de um amigável

Por Paulo Pereira

 

Rotações, pé levantado e muita disposição em jogar. O Sporting-Marítimo fez jus ao formato anedoticamente viciado da Taça da Liga e foi uma futebolada de que se gosta, sem se levar muito a sério. Não fosse o frio e, no nosso caso, a negra depressão que se abateu sobre a equipa, e ninguém diria que não era um simpático jogo de pré-época. Se fosse, estava bem-disposto.

Quem não viu o jogo há de achar-me louco, mas o Marítimo jogou à bola que se fartou. Teve mais ataques, mais cantos e o dobro dos remates do Sporting. Brilhou nas transições rápidas e até deu cartas em posse. Encheu o campo e acho que impressionou qualquer alma que tenha assistido. Se isto fosse um dos primeiros amigáveis do Verão tinha-me, portanto, enchido as medidas. A meio da época, contudo, jogarmos isto e sermos goleados é tão cru como soa.

 

Foi um dia irónico, em que um ataque ao nível do que de melhor já produziu não chegou inacreditavelmente ao ponto - glória do nosso velho e grande Boeck, que provou de forma ressonante o absurdo que é estar há três anos num banco -, e em que uma defesa hoje sustida foi tão penalizada como nas piores noites. Provavelmente, não devia estar tão amargo. A Taça da Liga não merece a chateação e o subconsciente diz-me irritantemente que o futebol da equipa foi digno de maior contentamento. Isso tudo e nunca me poderei conformar com nenhum 0-3, nem nunca verei nada de positivo na inevitabilidade da derrota. 

O nosso clube é o que nós quisermos, é a medida do que nos faz sentir. Para mim, o Marítimo será sempre o favorito, mesmo no pior buraco, contra o melhor adversário, e nunca saberei reagir ao contrário. A dignidade da derrota é para os que não importam e, por muitos anos que viva, nunca me permitirei a ser essa equipa que "perdeu, mas jogou bem". Prefiro ser cru e a dizer que o jogo foi o reflexo duma equipa atraente por fora, mas desconjuntada por dentro, com o talento para jogar à bola, mas sem a resiliência que ganha os jogos. Coisa que, mesmo na Taça da Liga, mesmo a jogar tão bem, é a única coisa que contou.

 

Dito isto, a frustração de hoje é a esperança de amanhã. O primeiro dos quatro rounds foi de KO, mas no domingo lá estaremos, de cara lavada, prontos a começar tudo outra vez, com a mesma ilusão de sempre. É assim que tem de ser.

Ficam três destaques, para servirem de pontapé de saída:

Danilo Pereira: o miúdo está um gigante. Às vezes parece um vingador pós-apocalíptico qualquer, a vaguear sozinho nos escombros que se acumulam à sua volta. Está melhor a cada carrinho, a cada ombro, a cada palmo de metro conquistado. A carteira já inclui passes longos e remates de meia distância. Não vai parar de crescer.

Derley: os jogos sem golos são ainda melhores para perceber toda a sua qualidade. Fora os predicados dentro da área, é extraordinária a forma como baixa no campo, como sabe jogar de costas, como é inteligente a sua progressão e requintado o seu critério a dar a bola. Numa equipa equilibrada e confiante, a sua parceria com Héldon poderia valer registos históricos.

Danilo Dias: o melhor jogo em dois anos. Disponível, entusiasmante, com diagonais desarmantes e a bola eléctrica na ponta das botas. Que tenha vindo para ficar, porque bem precisamos dele.