No Caldeirão, Domingo às 4
20
Jan

2014

Ressacar a capital

Por Paulo Pereira

 

Também eu, quando vou de visita a Lisboa, tenho por hábito chegar sem preocupações de maior, ter disposição para tudo o que der e acabar ressacado. Curiosamente, a analogia e a noite corriam-me melhor não tendo de digerir duas derrotas secas, com um saldo de 0-5 em golos e uma repetida bastonada na moral.

 

O Marítimo encerrou o périplo pelas duas mansões da capital sem levantar a cabeça, sem ameaçar surpresas e com pouco a que se agarrar. Disse e repito que, para mim, as derrotas sabem-me todas ao mesmo mas, à luz do apagão na Luz, lá vou reconhecer que ao menos do outro lado da Circular tivemos uma presença paliativa que sempre inspirou um vago orgulho. Frente ao Benfica, essa pouca vitalidade foi-se. Foi daqueles jogos que, mal se insinua a postura derrotista da equipa em campo, quais 11 conformados cordeiros de sacrifício, tenho impulsos para apagar duas horas a televisão.

É especialmente difícil escrever sobre o Benfica-Marítimo porque o Benfica-Marítimo não teve nada para dizer. Foi um jogo a opor o líder, ainda nas nuvens de um derby vencido, a quem não ganha há 8 jogos e acha que não consegue ganhar a ninguém, um jogo que podia ter sido simulado no FIFA e deixado perfeitamente de acontecer.

A equipa de Jesus nunca teve de se maçar, ninguém se lembrou de Matić e, qual boa casa portuguesa, onde cabe sempre mais um junto à mesa, uma equipa em profunda necessidade tratou de oferecer um cabaz ao anfitrião e evitar essa chatice que era ter de discutir o jogo. Oblak ainda fez as duas defesas mais difíceis desta sua sebastiânica titularidade mas, sendo realista, o Marítimo não mereceu melhor, porque nunca se levou a sério, nunca acreditou que aquilo era menos do que impossível. Assim, sou eu o primeiro a arrumar as armas e a partir para o próximo. 

A consequência mais relevante do jogo para nós aconteceu na sala de imprensa, quando em todo este cenário insuportavelmente amornado, Pedro Martins disse, com todas as letras, que se demite no momento em que achar que já não há condições para chegar à UEFA. É, sem grande esforço, a frase mais significativa da temporada, e resta saber se isso ainda diz ou não alguma coisa àquele balneário. Certo é que mais um ano na segunda metade da tabela não é, seja por que medida for, suficiente.

 

Nos últimos dias também foram confirmados, por fim, os nossos dois primeiros reforços de Inverno. Meio ano depois, a nossa novela de Verão voltou à base, manifestando-se Romain Salin publicamente “arrependido” pela forma como nos trocou no defeso, o que o levou, “com o coração pesado” e, por certo, com um rasgão no salário, a pedir para voltar. Ninguém gostou da forma como partiu no fim da época passada, no habitual saque patrocinado pelo Braga, mas, no futebol como no resto da vida, os ressentimentos devem ser dirigidos a quem os merece de facto. Salin sempre foi um profissional notável a jogar de verde e vermelho, e é um tipo carismático, com talento e experiência, “da casa”, que vem preencher directamente o buraco negro que mora na nossa defesa, pelo que é ostensivamente bem-vindo. Tenho pena que José Sá vá perder espaço, porque continuo a ter grandes expecativas para ele, e porque só a jogar é que se evolui, mas, neste momento, a nossa vida depende mesmo de um comando lá atrás. 

Para o meio-campo chegou, por sua vez, um favorito instantâneo para os compêndios do futebol português, cuja qualidade espero ser directamente proporcional à popularidade que o nome vai adquirir nas bancadas dos Barreiros. Fransérgio, assim mesmo, a meio caminho entre cantor romântico e licor caseiro, é, pelo que é dado a ver no vídeo, um médio-centro suficientemente esclarecido, disponível para meter o pé, com talento a dar a bola e facilidade a aparecer na área. A minha prioridade seria sempre um central, mas é facto que o interior do nosso miolo não sedimenta e ele, aos 23 anos, vem dos quadros do Internacional de Porto Alegre, depois de se ter formando no Paranense, e de ter jogado com certa regularidade na Série B do Brasileirão, pelo Criciúma. Já vi credenciais piores.

 

No próximo Sábado continuam as nossas visitas de hospício, desta vez ao Dragão, num jogo para a Taça da Liga que me merece tanta consideração, que eu levaria os juniores a ver a cidade.

Já para o round a sério, uma semana depois no Caldeirão, aí sim coloco as minhas fichas todas, num ciclo de cinco jogos, três em casa (PRT, olh, VST, BEL, pfe) que vai encerrar os dois terços de Liga e dizer tudo o que houver para dizer sobre as nossas aspirações.