No Caldeirão, Domingo às 4
09
Abr

2014

Os tortuosos caminhos do Senhor

Por Paulo Pereira

 

Calor, ritmo e irresultadismo de pré-época. O Marítimo-Arouca é candidato distinto a pior jogo do ano: foi uma experiência penosa, capaz de ralar nervos e, da nossa parte, com um apetite de morte do tamanho da baía do Funchal.

Ironicamente, se em tantos outros jogos em que nos esfolámos, tivemos a má fortuna a gangrenar as nossas falências, neste, em que tentámos por todos os meios meter uma reforma antecipada, as bolas do Arouca rasaram a baliza de Salin com uma perversão quase maquiavélica, durante uma segunda-parte em que pareceu que a equipa de Pedro Emanuel podia lá ter ficado a tentar a semana inteira.

Como a beleza do futebol começa e acaba na expiação da vitória, a saída do Caldeirão já se fez com a boa disposição dos reis, sob a benção do relato de uma inundação no Sado, e enquanto o Professor Machado tentava configurar de que terra era a foz daquele rio bravo.

 

Num jogo para esquecer a quase todos os níveis, o MVP foi o Weeks. Da Libéria com amor, o descendente de Weah não tem parado de crescer na exigência da casa #10. Não é um primor de técnica, mas é um tipo duro, com grande cadência, facilidade em arrastar a equipa e corrente constante ao jogo. Se escassear talento ou vontade, pelo menos é certo que com a sua faísca podemos sempre contar. Alex Soares também voltou à equipa uns bons meses depois, e com nota positiva. É, sem sombra de dúvida, o nosso interior mais criativo e esclarecido tecnicamente e, num jogo suave, teve todo o espaço para tocar.

Bauer e Danilo Pereira estiveram tão bem como sempre e escusado é dizer que para o assassino todos os dias são dias: Derley está agora a 2 golos de bater dois gigantes do panteão verde e vermelho, Gaúcho e Alex Bunbury em pessoa, e reclamar o ceptro de melhor marcador de sempre do Marítimo numa só época na primeira divisão.

 

O destino quis que cheguemos no Sábado à choupana em condições de incendiar a floresta e evidentemente que não há nada que pudéssemos fazer de melhor grado. Estamos a jogar pior e vamos fora com 4 pontos à menor; podia dizer que nos derbies é tradição ganhar a equipa em momento mais duvidoso, ou qualquer alegoria do género, mas isto é só um jogo contra o nacional. A única tradição é mesmo ganharmos nós.

Não termos rigorosamente nada a perder é só a derradeira provocação desta época caótica, coisa que anda a dar noites em claro a um par de pessoas (podia dizer "muito boa gente", mas associar o adversário a muita gente seria tão errado quanto jocoso). O nacional está tão acabrunhado que fixou o preço dos bilhetes entre os 20€ e os 55€, declarando Rui Alves que "quantos menos forem, melhor". A tacanhez própria de clube pequenino eu posso tolerar, ou não fosse inevitável. Acho é que pelo menos a vergonha na cara podia plasmar de outras entidades, por exemplo das que ditaram que, nesta terra, fossem todos os contribuintes a pagar o futebol profissional.

Assim, já que o adversário prefere perder uma das suas raras oportunidades de ter público no estádio, assustado que está para dignificar o espectáculo, resta-nos não desapontar quem nos tem em tão alta estima.