No Caldeirão, Domingo às 4
05
Jan

2015

Os Guardiões do Templo

Por Paulo Pereira

 

Poucas coisas terão sido mais dramáticas no último quarto de século do futebol português do que a construção do Estádio do Marítimo. Num país de vacas obesas, que nunca olhou a meios para engordar o futebol, e numa região afamadamente despesista, construir um estádio ao único clube representativo da insularidade portuguesa, a um dos verdadeiramente históricos do campeonato nacional, pareceu uma verdadeira travessia no deserto.

Comecei a escrever sobre o Marítimo tinha os meus 13 anos, no saudoso Fórum, primeiro alojado no site original, depois uma casa apaixonada de muitas moradas, até ao inesquecível CSMarítimo-Online, numa jornada que durou uma década. Desses anos, lembro-me de devorar, com os olhos de puto a brilhar, as primeiras maquetes e as primeiras animações que caíram na internet, então quase em segredo, do que viriam a ser os Barreiros do século XXI.

Vou lembrar-me sempre da nossa euforia. Páginas e páginas de posts extasiados por aquele que se tornou num dos maiores desígnios do Maritimismo: devolver o Caldeirão à Modernidade. Pareceu-nos sempre tão perto. Que ia ser no ano que vem, que o projecto final ia sair não tarda, que o Governo Regional, o nosso untuoso parceiro, o tinha como prioridade da mais alta estima. Assisti a Alberto João Jardim a prometê-lo com todas as letras em mais do que um dos nossos jantares de aniversário. Há anos e anos que o tempo já levou. 

Vi o projecto de raiz para a Praia Formosa. E depois o projecto reduzido. Vi o projecto de raiz para os novos Barreiros. E depois a remodelação. Vi a promessa de que estava pago e vi deixarem-nos com a conta na mão. Ao longo destes anos, a União de Leiria e o “Algarve” tiveram estádios de 30 mil lugares pagos pelo erário público. Quando ambos desapareceram do mapa, já ninguém sequer lá jogava. O Boavista e o Beira-Mar também, para jogarem nos confins das segundas, com mil adeptos ou menos.

Cúmulo dos cúmulos, até o nacional teve uma espécie de estádio pago integralmente pelas finanças da Região Autónoma da Madeira, no meio de uma serra em que era proibido construir e com um prejuízo de 50%, que acabou na modesta quantia de 30 milhões de euros. Um clube que, num dia bom, não tem 2 mil adeptos.

Toda a gente conhece a Madeira, toda a gente conhece o Jardinismo: aqui há um campo de futebol em cada freguesia. Só não houve um campo de futebol para o único parceiro oficial do Governo Regional. O mesmo que um dia o humilhou em público, 20 anos antes de estar na moda. A coragem nunca está em promoção.

 

Importa-me dizer isto hoje porque passei parte substancial da minha vida adulta a ouvir que o Marítimo era a equipa do regime. Que ao Marítimo tudo se dava, que no Marítimo era fácil, que o Marítimo e o PSD eram as duas faces da mesma moeda, qual Fátima, Fado e Futebol.

Quando a nossa dignidade nunca ninguém comprou. Quando para nós, cada degrau até à Primeira Divisão, em 1977, foi subido com sangue, suor e lágrimas, a pagar do próprio bolso aos árbitros e aos adversários para que viessem à ilha, e pudéssemos então usufruir dum mérito que já conquistáramos em campo, num país que já tinha tido Revolução, mas que ainda não sabia o que era a continuidade territorial.

Nós que fomos a primeira equipa madeirense a subir à 1ª Divisão, a primeira equipa madeirense a ir às competições europeias e a primeira equipa madeirense a ir ao Jamor, sem nunca nos darem um tostão. Estão quase aí os nossos 40 anos seguidos de campeonato nacional. Para o futebol madeirense, só há verdadeiramente uma medida: tudo aquilo que o Marítimo fez antes dos outros. Discutir o maior das ilhas é tão inócuo como uma brincadeira de crianças. 

O Marítimo era a equipa do regime, mas o regime sempre estremeceu à mera menção do Marítimo, e daquele que sempre foi o nosso espectacular e incomparável poder popular, que o mesmo regime sentiu na pele nesse imortal 15 de Maio de 1997, quando nos tentava extinguir de papel passado, para fundar essa criação orwelliana que era o Madeira SAD. Era essa a nossa relação privilegiada. Usarem e abusarem do nosso nome para contar eleições e aproveitarem as dívidas como porta de entrada para se tornarem numa sanguessuga da nossa reputação, e perdurarem numa SAD da qual nunca tivemos uma única benesse.

O cume de tudo isto foi o desespero em que ficámos há 3 anos, com o estádio demolido, compromissos assumidos e sem ninguém que honrasse os contratos-programa, deixados à nossa própria sorte. Tivemos culpa, claro que sim. Podíamos ter lutado mais e lutado melhor. Ter evitado o comodismo. Ter visto o que estava o horizonte. Fomos culpados de muitas coisas, claro que sim, mas nunca fomos a equipa do regime. O que somos é cada uma daquelas pessoas que esteve hoje nos Barreiros. Aquilo é o Club Sport Marítimo.

 

Hei de contar aos meus filhos a honra que foi entrar ali pela primeira vez. A dedicação ao avaliar cada pormenor, até os mais simples, com aquela alegria mal escondida de quem tem uma coisa sua e sabe o tanto que lhe custou.

Hei de contar-lhes o sorriso na cara de toda a gente. As piadas, o entusiasmo, a reverência. A forma como todos pareciam um bocado sem jeito por estarem ali, como não conseguiam evitar o ar idiota ao olhar em volta e como em cada esquina se cumprimentava um amigo, com aquela afectação dos velhos companheiros de guerra que, afinal, viveram para chegar ao dia da condecoração.

Hei de contar sobre a honra que foi entrar na nova casa e perceber que há coisas que nunca nos poderão tirar. Que nunca deixaremos de ser, que nunca vão mudar. Que nenhum outro clube nesta terra terá jamais este coração, esta mística, este compromisso com uma causa. Que o Marítimo não é um partido, não é uma conveniência, nem é uma moda. O Marítimo somos nós. O Marítimo somos todos e é para sempre.

Os que estiveram muito antes e os que vão estar muito depois. Os que nunca abandonaram. Os que voltaram. Os que não puderam estar. Os que se afastaram, mas que nunca deixaram de crer, e todos aqueles que, de uma forma ou de outra, sabem que existe uma única verdadeira Igreja na Madeira e que aqui até a terra nasce verde e vermelha. Como a minha tia-avó, que tem quase 90 anos e nunca viu um jogo de futebol, mas que me desejou sorte para quinta-feira, porque o meu avô sofria muito nestes jogos contra aquela gente. E a família é para estas coisas.

Hei de contar aos meus filhos que o Marítimo é a outra família que eles já tinham antes de nascer e que o novo Caldeirão foi uma das nossas vitórias mais difíceis.

Mas que, como todas as outras, soube melhor assim. E que, nesse dia, mesmo a fazer um mau campeonato, mesmo numa crise existencial, encarámos uma equipa tão milionária quanto arrogante, e aquilo foi tudo nosso, incluindo o projecto asqueroso de treinador que eles tinham no banco, e que perdeu tão em feio como merecia.

Que aquilo que os jogadores não conseguiram fazer em campo, porque não estavam certos de o saber, fizemo-lo nós das bancadas, electrificados em viva voz, com gargantas e devoção capazes de engolir legiões inteiras. Que se prestássemos um bocadinho de atenção, ouviríamos não milhares de homens, mas um grande leão a rugir por nós, na mesma voz que já foi dos nossos pais e dos pais deles, e que, nessa tarde, nos provou que não havia um velho e um novo Caldeirão, porque, afinal, o Caldeirão é imortal.

 

Não sei até onde é que esta época vai e não sei como é que vai ser o futuro, nem qual é o papel que o novo estádio vai ter. Mas também não me interessa. O que sei é que hoje foi um dia bom e que amanhã lá estaremos. O que sei é que vai valer sempre a pena.

Uma das imagens que guardarei para a vida é a das pessoas que todos os dias, durante estes últimos anos, se devotaram a acompanhar as obras dos Barreiros. A maneira como todos lá parávamos, numa ou noutra vez, e ficávamos a velar, sobre o vale, por aquele que seria o nosso futuro. As fotografias que tirámos, as mensagens que mandámos, a vaidade com cada cobertura e com cada fila de cadeiras nova.

Acho que toda a gente que o tenha vivido vai-se lembrar e não vai poder deixar de sorrir. Disse-me tantas vezes o meu pai que não havia um dia em que passasse por lá e não houvesse um maritimista a tomar conta do Caldeirão. O que hei de contar aos meus filhos é que esse maritimista somos nós. 

O Leão nunca andará sozinho