No Caldeirão, Domingo às 4
20
Jun

2013

Os(As) Barreiros(as) da Subsídio-Dependência

Por Paulo Pereira

 

Ponto prévio: subsidiar o futebol profissional é uma aberração. É profissional, o nome diz tudo. É alta competição, e devia ser como outro negócio qualquer: se não tem condições para sobreviver pelas próprias pernas, então nem faz sentido que exista. Cada clube só pode ter a dimensão exacta das suas possibilidades; se tem poucas pessoas, se gera poucas receitas e se tem um sucesso desportivo residual, então que se comporte como tal. O extraordinário é que, em Portugal, estas contas de merceeiro parecem física quântica.

Todas as Câmaras pagam, todas as Juntas dão o que podem e os próprios Governos Regionais nunca tiveram mãos a medir. Os clubes formam jovens, têm um impacto social relevante e, se estiverem nos campeonatos da Liga, até são boa publicidade para as cidades. Compreendo isso, mas há sempre outras formas de o reconhecer, em vez de injectar dinheiro, ofertar terrenos e perdoar dívidas. Subsidiar o futebol profissional em Portugal não é uma prática social; é pagar jantares a amigos, cobrar favores, lavar dinheiro e comprar votos. Talvez nem seja sempre, mas certo é que a questão nunca se devia colocar. Primeiro, pelo mais primário pudor, porque não se devia alguma vez misturar política e futebol; depois, por racionalidade. Porque, numa sociedade com bom senso, devia ser dado adquirido que os clubes têm de ser competentes, têm de ser bem geridos, e que só fazem sentido se tiverem um tamanho à sua imagem. Talvez o nosso futebol não fosse tão descaracterizado, se a maioria dos dirigentes tivesse de chegar aos adeptos, em vez de contar com a torneira.

O futebol na Madeira, como se sabe, sempre foi um paradigma dessa subsídio-dependência. Não foi o monstro que hipocritamente pintaram, porque só alguém que não faça ideia do futebol português, é que pode achar que isso era diferente do que acontecia em todo o lado; mas era errado, tanto no conceito - dar o dinheiro - como na forma - liberalizar a ideia de que pagar a clubes profissionais é algo que está bem, e que faz sentido. Gastou-se até onde se pode imaginar. Dinheiro público para todos os embriões de clube, campos em qualquer freguesia, estádios para todos os que andassem nos nacionais. O União teve um complexo desportivo, e o Nacional teve a transformação da Choupana paga de fio a pavio. Havia dinheiro e, portanto, podia haver todo o pão e todo o circo. O futebol regional dos últimos 15 anos foi, em boa parte, essa subsídio-dependência. Até ao dia em que a torneira fechou.

O Marítimo recebia cerca de 2,5 milhões de euros/ano, exactamente o mesmo que o Nacional, cerca de 1/4 do nosso orçamento, no auge. Fará falta, mas é certo que os outros estarão piores, e que nós vamos sobreviver. A verdade é que nunca recusámos o bolo. Se deu jeito andarem a pôr e dispor do nome do clube em todas as situações e em todas as eleições, e inculcar que o grande Marítimo e o PSD grande eram unos? Evidente que sim. Mas nós é que perdemos identidade e não nos soubemos distanciar desse cancro. Agora estamos a pagar. Mesmo sem nunca ter recebido mais um tostão por isso, o Marítimo ainda é o pomposo parceiro de SAD do Governo Regional. Ironicamente, o parceiro foi o único a não ter um complexo desportivo pago, ou não tivesse Sto. António sido feito do bolso de maritimistas. Mas não só. Pelos vistos, o parceiro também será o único a quem não vão construir um estádio. 

O Estádio do Marítimo, a erigir junto a uma das praias do Funchal, era uma das jóias queridas do Governo Regional, que se aprontou a pagá-lo, e disse, à boca cheia, que o tornaria possível, pelo "nosso Marítimo". Entretanto, veio a crise, e o Estádio do Marítimo passou a não ser mais do que uma reformulação dos Barreiros, daí em diante propriedade oficial do clube. O Governo doou o Estádio ao Marítimo com a garantia de que a obra seria feita, e a obra começou. Acontece que, depois, a crise também piorou. Foi aí que o estádio que era do Marítimo, passou, então, a ser um problema do Marítimo. Com meia obra por fazer, pararam as máquinas, porque o Governo entendeu que era hora de ser adulto. Que, afinal, só havia dinheiro para coisas importantes, não para isso dos futebóis.

Acabar o estádio ou morrerem pessoas no hospital, era uma coisa. Mas ninguém é ingénuo o suficiente para o pôr nesses termos. Estes Barreiros, como tudo nesta terra, são política. Lidar com o Marítimo nunca foi uma história de amor, e uma humilhação disfarçada é sempre a que dá mais gozo. Depois, é publico que o clube quis ter uma palavra a dizer sobre as obras que também ia ter de pagar; nesse caso, pois que as pague sozinho. Como disse Carlos Pereira há um mês, "Nada tem a ver com a crise, é uma mentira, é uma má vontade que já vem antes da crise". Claro que a crise não ajudou. E com o buraco e o resto, estes Barreiros tornaram-se de vez num problema grotesco, do qual o Governo Regional é o único culpado, e que agora, pura e simplesmente, decidiu que não quer mesmo resolver. Nisto, até ver, fica o maior clube da Madeira sem meio estádio e com 14 milhões de euros!? de obras inacabadas por pagar, e fica a própria região sem nenhuma infra-estrutura digna desse nome. 

Subsidiar o futebol em Portugal é uma aberração. Oxalá que a Madeira, como deu o mau exemplo, também dê agora o certo: que acabe a estupidez de SAD do Marítimo, e que o Governo Regional se exile, de uma vez por todas, o mais longe possível do futebol. Antes, porém, que tenha a decência de contribuir para uma solução.