No Caldeirão, Domingo às 4
13
Jan

2014

O túnel sem uma luz no fundo

Por Paulo Pereira

 

A primeira coisa que me veio à cabeça depois do Héldon marcar aquele golo foi que ia chamar a esta crónica "Quando for grande, quero ser um minuto 86". Os 60 segundos mais extraordinários da minha semana pareceram nunca ir acabar. Pensei que os fosse reviver em loop, sempre deslumbrado, como símbolo de um filme da época que, por mais tortuosos que tivessem sido os caminhos do Senhor, ia ter final feliz.

Esse carrossel perfeito até começou nas botas do adversário. Cavalgada pela direita, o nosso lateral batido, toda a nossa defesa antecipada e o nosso desejo de morte rechaçado de dentro da baliza e duma derrota consumada por um Sá gigantesco, numa daquelas defesas para a posteridade. Aquela palmada foi uma parede ao curso normal do universo e soltou um caos pandórico no ar, que logo se personificou no "Nhuk", o nosso super-herói de serviço que, numa clara experiência extra-corporal, passou como uma assombração num sítio ocupado fisicamente por um central adversário e construiu sozinho uma vitória saída dum sonho qualquer. Gritei esse golo como se estivéssemos a ser campeões do mundo. Nem repetição vi, só vi depois o Sá de joelhos a meio do campo a fazer o mesmo e pensei no quanto aquilo fazia sentido. Quando fosse grande, queria ser aquele bendito minuto 86.

 

Apetecia-me fazer um texto só sobre isso, sobre a satisfação surreal desses segundos perversos, sobre a desopilação perfeita que senti no corpo todo, a leveza na cabeça e o alheamento a todos os nervos do mundo por irmos ganhar aquilo. Já tinha deitado a toalha ao chão e, por um dia, ia correr tudo infinitamente melhor do que isso. O minuto 86 era tão perfeito que tinha de ser o início e o fim. O jogo acabava ali. Tinha de acabar, porque, àquela luz, não era racional que ainda nos fosse acontecer algo de mau, nem mesmo na casa dos horrores que tem sido a nossa época. Não era possível que aquilo não acabasse bem, porque nem este Marítimo ia conseguir inquinar tamanho guião. Que a pior equipa da Liga em casa tenha tocado a bola no círculo central e, a quatro toques, empatado o jogo na jogada seguinte, ao minuto 87, não consigo elaborar nada. Não é futebol, é uma aberração qualquer que foge a tudo o que pode ser racional ou compreensível.

Imaginem que a vossa equipa perdia uma vantagem no resultado pela 12ª vez esta época, pela 3ª vez em cima da hora e pela 2ª vez na mesma semana, tendo em conta que a primeira valeu ser eliminado dos quartos-de-final da Taça de Portugal em casa, por uma equipa da 2ª Liga. Imaginem que a vossa equipa têm ADN europeu, mas que vira a Liga no 11º lugar, a 5 pontos da linha de água, e com a pior defesa da prova. Imaginem que têm potencial para infinitamente mais, mas que, em alta competição, não conseguem defender melhor do que uma má equipa da Serra Leoa, e não demonstram qualquer nervo, disciplina ou tino em campo para garantir que, no meio da infinita incompetência colectiva, se salve o mínimo de pontos fáceis que imploraria o bom-senso. Vendo bem, não imaginem, que para o esgotamento nervoso já bastamos nós.

 

O Marítimo fez uma exibição muito má em Vila do Conde. Sem ganhar há cinco jogos e recém-humilhado, não se esperaria mais, mesmo num anfiteatro despojado, com um adversário inferior que aí perdera 6 das 7 vezes para o campeonato. Era inevitável que a equipa fosse jogar a medo, assustada com a sua própria sombra, sem arriscar mais um passo do que o necessário e que, no fundo, se limitasse a fazer os serviços mínimos para o nulo. Já jogámos muito bem este ano e também já jogámos muito mal; não sei o que dizer é sobre voltarmos a este último modelo nesta fase da época. Temos o mesmo treinador há quatro anos, já tivemos um ciclo terrorista após o primeiro mês de Verão e eventualmente levantámos a cabeça. Agora, voltámos a quebrar espectacularmente e, sem ainda ter vendido ninguém, como se espera que aconteça em Janeiro, o que vejo são quatro jogos seguidos com os grandes e tenho vontade de me sufocar com uma almofada qualquer. 

O jogo, de resto, não teve história, porque a equipa de Nuno Espírito Santo também anda estranha que chegue. Talvez mais duas oportunidades para cada lado, as nossas de chutões a meia distância dos trincos... É o que houve. Numa equipa com um recorde de seis portugueses, o melhor foi um dos três cabo-verdianos, Gegé, o patrão da defesa, imagine-se, mesmo que evidentemente também tenha visto do coreto o resto da banda a passar na hora fatídica. Com três entradas em directo da equipa B, também gostei de Marakis. Faz falta ter aquela raça e disponibilidade no miolo, sobretudo agora. José Sá e Héldon também merecem o reconhecimento, como é óbvio, pelo génio no momento que devia ter sido decisivo. 

 

Até hoje, fui sempre um defensor insuperável de Pedro Martins. Contudo, no futuro próximo, pelo bem da equipa e pela nossa sanidade mental, têm de ser os jogadores a demonstrar em campo que também estão com ele. Há momentos em que somos vergados às nossas circunstâncias e, por mais que me custe, o resto da época não pode ser isto. A bestialidade do que nos tem acontecido não é pontual, nem sequer recorrente. É o padrão de uma primeira-volta inteira, sem nenhuma sugestão de melhora, num projecto que, repito, não começou ontem, e ao qual há coisas que já não se podem admitir.