No Caldeirão, Domingo às 4
05
Jun

2013

O que se perdeu e o que se ganhou

Por Paulo Pereira

 
2012/2013 dividiu-se, para o Marítimo, em duas claras metades: a uefeira e a outra. Na verdade, a época começou mesmo pelo auge. Ainda ia quente o Verão, e o Leão entrou pela primeira vez numa fase de grupos europeia, garantindo, desde logo, que batia o seu recorde de jogos internacionais no mesmo ano. No Marítimo, a UEFA sempre foi a ilusão por excelência, desde que, há 20 anos, os lendários Maravilhas de Autuori lá chegaram pela primeira vez, e nenhum maritimista que se preze, poderá alguma vez esquecer o primeiro golo ao Antuérpia, a primeira eliminatória com o Aarau, a epopeia arrepiante com a Juventus ou os desencontros britânicos com a sorte, nos penalties com os Leeds e os Rangers deste mundo.
 
Entrar naquela fase de grupos enchia-nos o coração a todos, e os golos do Héldon e do Danilo num campo mais ou menos martirizado da Geórgia lá longe, fizeram-me ir ao aeroporto buscar a equipa pela primeira vez. Pareça pouco ou não, mas foi uma comoção colectiva, e a nós, são mesmo essas pequenas vitórias que nos enchem o peito. É por isso que, independentemente dos azares do caminho, e de tudo o que podia ter corrido melhor, 12/13 será sempre um ano para lembrar.
 
Talvez as crónicas não façam jus, e sejam cruas, como eu se calhar também seria no seu lugar, mas nós tínhamos 6 milhões de euros de orçamento, o Brugges tinha 45, o Bordéus 60 e o Newcastle 90. Não perdemos nenhum jogo no Caldeirão, não fomos últimos, fomos a melhor equipa madeirense de sempre na fase, e estivemos a dois pontos de passar e de eliminar o grande Newcastle, não tivesse o Roberge acertado na trave, em cima da hora do jogo de estreia, ou tivéssemos sido mais felizes na gala que fizemos em pleno St. James Park, naquele que foi, possivelmente, o nosso melhor jogo europeu de sempre.
 
Em crise, porém, se o cobertor tapa a cabeça, ficam os pés de fora. A equipa perdeu 4 jogadores nucleares - Peçanha, Roberto Sousa, Benachour e Baba, este a meio do ano anterior -, e não se reforçou com verdadeiramente ninguém para os seus lugares. Não houve dinheiro, não podia. Junte-se a isso o aumento da responsabilidade, o aumento da carga de jogos, e as flutuações de forma dos que ficaram para aguentar o barco, e claro que iam faltar ovos. Até ao Natal, então, a equipa não evitou andar no limbo da segunda metade da tabela, irritantemente perto dos lugares perigosos, e fazendo-nos engolir em seco algumas tardes, a limitar-nos a esperar pelo melhor. 
 
Porque não tivemos a estrelinha na UEFA, feliz ou infelizmente, a nossa época para consumo interno "começa" em Janeiro. Nas primeiras 14 jornadas, ganhámos 3 jogos. Daí para a frente, ganhámos o dobro, ao ponto de, após uma goleada em Setúbal na jornada 24, já naquele último sprint, nos termos isolado, finalmente, no nosso 5º lugar europeu. A liga foi completamente atípica, para o bem e para o mal, e a oportunidade que tivemos, deixámo-la fugir no derby que podia ter sido a chave da época, num jogo cru, bem menos emocional do que se poderia estar a pensar, e que ninguém mereceu ganhar verdadeiramente. Marcámos primeiro, tínhamos aquela vitória e o nosso passaporte continental na mão, mas, simplesmente, não fomos capazes. Caiu-nos o peso do ano nas costas, e soubemos aí que, desta vez, não era mesmo para nós. A concorrência aproveitou, e foi embora.
 
 
 
Apesar de tudo, e do 10º lugar ficar feio no retrato final, não posso dizer, em consciência, que foi uma época perdida. Afinal de contas, fizemos História. Superámos adversidades, e soubemos estar na crista dos nossos objectivos até ao último fôlego. Quem nos viu jogar, não elogiou sempre, mas elogiou muitas vezes. E fomos, por mérito próprio, um bastião temível das contas do título, onde se perdeu e ganhou um campeonato, mesmo que, depois, tenha sido ao contrário. Não acabou como gostaríamos, e como temos sempre de querer acabar, mas o terceiro ano da era Pedro Martins teve mais coisas boas do que más. Hoje, mesmo longe do dinheiro de outrora, mesmo a ter de inventar jogadores e a lançar todos os miúdos, somos um projecto consistente, respeitado e com identidade. A partir desse chão, só podem vir coisas maiores.