No Caldeirão, Domingo às 4
13
Fev

2014

O purgatório

Por Paulo Pereira

 

A perda de tempo em Olhão foi uma das poucas partidas do ano impossíveis de ver, pelo que esta crónica será sempre redutora e está condenada, à partida, a plasmar pouco mais do que o fel de quem se desiludiu outra vez. Sendo que desilusão, aqui, é uma mera força de expressão. O Marítimo 13/14 tem sido isto, sempre e só isto: um meio termo, um paliativo, uma miragem. Uma equipa protegida dos resfriados do fundo da tabela, mas iludida pela proximidade dormente aos lugares europeus. Fizemos dois terços de liga sempre na segunda metade e, mesmo assim, bastam duas vitórias para colarmos à zona uefeira. Duas vitórias que parecem sempre irritantemente próximas de chegar mas que a realidade crua evidencia que nunca chegam.

Por mais la palaciano que isso soe, o Marítimo é a equipa que ganha ao Porto, mas que empata com a Olhanense. Duas vezes. Que ganha ao Benfica, mas que perde com o Belenenses e com o Paços. Que tem o 5º ataque e a 2ª pior defesa, que marca a qualquer um, mas que sofre de todos. Uma equipa perdida no limbo, quixotesca, sempre a insinuar um salto que já não vai chegar. Uma equipa boa demais para estar no inferno mas de menos para subir ao céu, cristalizada a meio dos mundos. E não há nada mais ingrato do que o purgatório.

 

Um tipo ilude-se sempre, claro que sim, faz parte, e fica sempre profundamente consumido depois. É a história da vida de um adepto e nunca vai mudar, porque só há uma forma de estar nestas coisas. Mas, mesmo sem ter prazer nenhum em reconhecer isto, esta época já nos ensinou que chegue. O que aconteceu em Olhão já não é um choque. É o expectável, é a regra. Este Marítimo trágico é ordenado por uma lei de Murphy qualquer e, por algum azar e muita incompetência, já viveu este ano as maiores surrealidades até onde a memória me permite chegar. Esta ducentésima vantagem perdida, e a 5ª bastonada fora de horas (só nos últimos dois meses...), já não foi mais do que o rodapé a essa evidência.

É facto que tínhamos acabado de ganhar ao campeão. É facto que marcámos quase antes do jogo começar e que aguentámos a vantagem o tempo inteiro. Mas quando um miúdo senegalês que jogava nos Estados Unidos, e que tinha entrado em campo dois minutos antes, nos estoirou o tecto outra vez, não posso dizer honestamente que tenha ficado mortificado. O que se apoderou de mim foi aquela melancolia tosca, o desalento vago da última das cinco fases do luto: a aceitação. Se não ganhamos isto em Olhão, é evidente que não vamos cumprir os objectivos. Se não ganhamos ao projecto futebolístico mais distópico da Europa ocidental, uma espécie de quadro de Dali em mau, uma sociedade das nações de glórias acabadas (Kroldrup, Obodo, Santana?!), destinada a evaporar-se para a segunda divisão, quando vimos de ganhar ao Porto e de controlar o jogo desde o minuto 4, a única vontade é mesmo que isto acabe rápido.

 

 

Não foi no domingo que deixámos de ganhar alguma coisa, mas foi no domingo que me forcei à realidade: se a equipa ainda não tem dimensão competitiva e estrutura mental, já não vai a tempo de a poder ter. Eu, claro, vou continuar lá, à espera de ganhar ao Setúbal e assombrado por poder comprometer tudo outra vez com o Belenenses, a contar o matematicamente possível até ao último fôlego, como se a nossa Liga Europa depender de uma múltipla de 12 jogos da bwin fosse um cenário perfeitamente favorável. Mas, em consciência, já não tenho o direito de me desiludir.

A partir de agora, a nossa época deve jogar-se noutras balizas. Não estamos em risco, não vamos passar um mau bocado, mas também não vamos à Europa. Obrigatório, daqui para a frente, é a primeira metade da tabela (algo que falhámos duas vezes nos últimos três anos). Igualmente, melhorar o desastroso registo nos Barreiros. Estar à altura da recepção ao Sporting e da ida à choupana. Jogar bem à bola, valorizar o espectáculo e lançar bases e rotinas para a próxima época. Mais do que isso, por mim, lançar já amanhã os próximos miúdos. E, acima de tudo, honrar o Leão.

 

Eu posso tolerar muita coisa. Posso perceber que não haja investimento na equipa enquanto se perdem anéis e até posso pôr mais um falhanço de objectivos em perspectiva (se bem que isso é uma questão bem mais larga, que terá de ser avaliada condignamente no fim da época). Mas o que não admito é que se metam férias daqui para a frente. Temos 1 vitória nos últimos 12 jogos oficiais e, na minha cabeça, tenho pesadelos suicidas com um fim de época à Carvalhal. Não ir à Europa eu posso aceitar, que eles não queiram saber, jamais.

Espero bem que seja esse o tom para o que falta. Sei que posso confiar que, independentemente de vir ou não a ficar, o Pedro Martins tudo fará por isso. Que ainda seja suficiente.