No Caldeirão, Domingo às 4
10
Dez

2013

O Natal não resiste aos mais pequenos

Por Paulo Pereira

 

Não estava a contar perder o derby. Não à partida, ainda menos depois do 1-0 e definitivamente jamais depois do 2-1 a cinco minutos do fim e em superioridade numérica.

Mas suponho que o jogo tenha de ser assim, ingrato e perverso. Que nos assalte a 4ª vitória seguida e nos mande um bloco de gelo pelo crânio abaixo só porque sim, porque o futebol não pode ser um mar de rosas, nem mesmo no Natal. Da quadra, aliás, só plasmou mesmo a nossa oferenda fora de horas, quais pais natal verdes além de vermelhos, dóceis e afogueados demais para negar brindes aos mais pequenos. 

 

O derby com a terceira equipa da Madeira foi um jogo aberto, não vale a pena branquear isso. Teve oportunidades que sobre para justificar os quatros golos no marcador e até mais e, durante uma fase, até podia ter caído para qualquer lado, já que à boa postura caseira se associou aquela transcendência de quem joga com os maiores e, no caso, num estádio com mais de 500 pessoas a ver.

O que é desesperante, portanto, não é termos tido falta sorte; é termos alienado uma vitória certa de uma forma grosseira e infantil depois de, por mérito próprio, termos feito tudo o que era mais difícil. Deixar-se empatar naquelas circunstâncias é todo um compêndio da surrealidade que jamais pode existir em alta competição. É uma falha capital de competência e de nervos que custa mesmo muito a aceitar. Sobre o 2-2, focar aquela que me parece ser uma das maiores deficiências estruturais da estratégia de Pedro Martins, e que já não vem de agora: os livres defensivos.

Já falei deles aqui e é um ponto fraco recorrente e que tem custado caro. A equipa aborda todos os livres desfavoráveis com uma defesa em linha e uma marcação à zona. Ora, o sucesso de uma defesa em linha é como uma proeza de equilibrismo: é preciso que 6 ou 7 jogadores a executem de uma forma religiosamente imaculada de todas as vezes, num processo em que um milímetro ou um segundo põem tudo em causa, e onde ainda é preciso fintar o factor-sorte, materializado nas sinapses cerebrais do fiscal do linha. Tudo pesado, tem sido sempre a perder e era importante reflectir sobre isso.

 

Curiosamente, o jogo não foi sempre bem jogado, não foi sempre intenso, mas abusou em oportunidades. A sensação que fica é que as equipas foram pragmáticas no receio, investiram muito tempo na tocaia mas quando arriscaram, fizeram-no pela certa.

No último terço, impossível ignorar o glorioso momento de forma de Héldon. O nosso todo-poderoso cabo-verdiano está, como já bem admitiu, no melhor momento da carreira e cometeu o estapafúrdio de, só no último mês e meio, ter chegado a 3º melhor marcador da Liga (temos dois no top-4). Instintivo no 1-0 e um assassino de sangue frio no penalty a 5 minutos do fim, encheu o campo com a mesma alma com que contagiou um estádio inteiro, a quem abriu os braços, depois de beijar o Leão que leva ao peito. Se dúvidas houvesse, é ele o comandante do exército e o símbolo à volta do qual a equipa se deve congregar para a metade que falta.

A nível individual, enaltecer também mais um excelente jogo de Danilo Pereira. Num buraco que chegou a parecer irresolúvel, o miúdo está a agarrar a âncora do miolo como um senhor e, tal como em Arouca, voltou a ser um camião-vassoura na recuperação e um elegante criador do primeiro passe. Olhos neste rapaz. Na outra mó, voltou a estar a defesa, o que tem sido recorrente, mas com um ónus especial na baliza.

Como na jornada anterior, Wellington acumulou a porção rainha de calafrios (na retina, uma reposição rasteira de bola à entrada da área... entre dois jogadores do nacional), escancarando o debate pela titularidade nas redes. Não tem sido um tema fácil e à 12ª jornada já jogaram os três guarda-redes do plantel... mas uma coisa parece certa: tão nervoso em cada momento, sendo um desastre pelo ar e a dar úlceras em vez de um humilde fio de confiança a quem o rodeia e a quem o vê, é impreterível voltar a olhar para o titular dos Sub-21 ou para o internacional suíço que estão à espera na sua sombra.

 

Como comecei por dizer, não estava à espera de perder o derby, um jogo que, para nós e como se percebe, só tem dois resultados possíveis. Já o adversário, que encheu a barriga com anti-jogo mal empatou e festejou abertamente essa vitória, é mais feliz nesse campo, ou não dispusesse daquela sorte de pequenagem de se poder sempre agigantar e de ter sempre uma tripla melhor do que a nossa.

Como o Brasil quando sobe ao Equador, resta-nos não ficar maldispostos na segunda volta, quando tivermos de escalar as serras do Funchal para cumprir a formalidade de acertar este desagradável confronto directo.