No Caldeirão, Domingo às 4
02
Dez

2013

O lugar onde ainda íamos ser felizes

Por Paulo Pereira

 

Há uns meses escrevi isto: 'Ir correr o país com o Marítimo era um dos entusiasmos da minha ida para a Faculdade. Quem não vai ao estádio poderá relativizar, como o fará quem, consoante lhe apeteça, pode fazer uns quilómetros de carro e ir ver a sua equipa de sempre a um vizinho qualquer. Para a insularidade, porém, "ir ver" o Marítimo sempre foi uma coisa especial, uma afirmação, uma razão em si mesma. O meu pai não ia ao Continente passar uns dias com os amigos; o meu pai ia ao Continente ver o Marítimo, o que faz, basicamente, com que o resto fossem só as sobras. Eu nunca tinha ido. Daí que, à entrada para uns quantos anos do outro lado, já visse tudo na minha cabeça.

 

Como nas melhores histórias, o meu primeiro jogo foi o acontecimento mais inortodoxo à face da Terra. O primeiro ano ainda estava naquele início de Outono, eu ainda a perceber bem o que era aquilo tudo, e o meu velhote foi fazer as honras. 19 de Outubro de 2008. O Marítimo ia jogar a primeira eliminatória da Taça desse ano a casa de um clube então absolutamente desconhecido, que teria acabado de subir da 3ª para a 2ªB, algures lá bem no coração do Norte. Nesse dia, comi pão de ló pela primeira vez na vida. Descobri onde raio era Arouca no mapa, e fiquei a saber o que é perder-se pela noite nos caminhos de Portugal. Infelizmente, também percebi o amargo que é o nosso clube ser o gigante na tal história dos tomba-gigantes.

Até hoje, essa eliminação ocupa um lugar de destaque nos traumas da memória colectiva maritimista. Desse dia, contudo, guardo uma coisa completamente diferente. Ironicamente, o que nunca vou esquecer dessa derrota absurda é o gosto desmedido na cara do meu pai, por estarmos lá. Para ele, percebi isso depois, aquilo não era um jogo da Taça. Aquilo era uma passagem de testemunho. Um rito, uma etapa, uma instituição de pai concretizada. Era "irmos ver" o Marítimo, e nisso residia, por si só, todo o valor. Nesse dia, aprendi uma das minhas maiores lições de maritimismo: não interessa como acaba. Tudo o que interessa é que se esteja lá.'

 

Ontem, alguns 5 anos depois dessa tarde, voltei a lá estar. Dizem que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Pois pelo menos aos outros, parece que sim. No gelo profético do Inverno nas entranhas do país, num daqueles jogos para duros, não para jogar mas para ganhar, o Maior das Ilhas veio dos trópicos e cruzou um Oceano para garantir que ajustava as suas contas com o passado.

Com todo o respeito por um Arouca que pôs sempre em campo um brio admirável, era um jogo que tinha de ser do Marítimo, estivesse a equipa de uma vez por todas com a disponibilidade mental para agarrar a sua época nas mãos. Mesmo com uma primeira-parte anémica, mais uma vantagem desperdiçada e outro vermelho traumatizante para a galeria, era mesmo dia para escrever a gelo e fogo a crónica da nossa primeira vitória encadeada do ano.

 

Podia destacar muitas coisas. Desde logo o momento de forma brutificante do Héldon, neste momento talvez um dos 5 jogadores mais determinantes da Liga. O jogo excepcional do Alex Soares, o nosso pequeno Moutinho, que com cada vez maior confiança está a abrir um livro para nos deixar vagamente maravilhados. A grande demonstração de força do Danilo Pereira, que entrou a frio à meia hora para agarrar o jogo, e que não só o agarrou, como o engomou, dobrou e embrulhou para prenda. O gigantismo do Gegé no coração da defesa, o rigor do Rúben na lateral-esquerda ou a bola imaculada com que, no flanco oposto, o João Diogo deu paternidade ao 1-2. E eles merecem absolutamente que se reconheça isso.

Que se lhes reconheça o carácter, a capacidade competitiva e, acima de tudo, a extrema vontade de ganhar. Noutro tempo, noutro lado, é possível que um empate fora jogado num campo perdido no mapa, com um frio polar, tivesse sido suficiente. Ontem, pelo contrário, era dia para se matar antes de sair da relva sem aquela vitória. Depois de cruzar para o Héldon, o João Diogo não festejou; ajoelhou-se e agradeceu a missão cumprida. É disso que estou a falar.

 

Esta crónica jamais estaria completa, porém, se não falasse da dezena de fiéis que se abalou até àquele canto do mundo para viver um Arouca-Marítimo como se fosse a final da Liga dos Campeões. A maioria das pessoas nunca poderá perceber o que é que nos move num jogo do qual o resto do planeta não quer saber; para todos os que já lá estiveram um dia, para todos os que fizeram centenas de quilómetros e todos os sacrifícios para dizer que podemos ser pequenos em muitas coisas mas nunca no coração e na gente, cerrar o punho no fim é quase tudo. A maioria das pessoas não poderá perceber e em boa verdade eu jamais poderei traduzir em palavras o sofrimento homérico e a euforia bestial que lhe sucedeu, porque isso não faz parte do domínio das coisas que se podem descrever.

Cada maritimista a vibrar, a viver e a morrer nos campos desse país fora, por mais sozinho que esteja, é a prova acabada de que o Marítimo não é um clube; é, acima de qualquer outra coisa, um sentimento. E, com a chama a queimar no peito, rodeado por pessoas cujos olhos brilham da exacta mesma maneira por causa de um raio de uma vitória em Arouca destinada a ser esquecida pelos livros, tenho o orgulho inenarrável de saber que isso é coisa de que poucos se poderão gabar. No fim, os jogadores vieram dar um abraço. 'Obrigado por terem estado, obrigado por ajudarem'. Não era preciso. O Leão nunca andará sozinho.

 

Quanto a mim e ao meu pai, eu já formado e ele de veterano da claque, fizemos o acerto com os velhos tempos. Afinal Arouca era só o lugar onde ainda íamos ser felizes.