No Caldeirão, Domingo às 4
04
Dez

2014

O Livro do Desassossego

Por Paulo Pereira

 

A tua equipa ganha 4-0.

À partida, se não ficas satisfeito, é provável que tenhas um problema qualquer. Que sejas masoquista, maníaco-depressivo ou, pelo menos, neurótico. 4-0 é demasiado farto. Nessa tarde, dificilmente te conseguiste chatear ou duvidar de alguma coisa. 4-0 é o tipo de coisa que deves aceitar calado e grato pela tua própria sorte. O que há para não gostar?

Bem, talvez estivesse de mau humor. Também é provável que seja algo compulsivo e, definitivamente, céptico. Mas o problema do 4-0 é que ganhas o jogo tão cedo que, imediatamente, passa a haver demasiado tempo para olhar todo o resto. O Marítimo 4, Boavista 0, é uma óptima crónica de jornal. É um resumo televisivo perfeito. É simples, é fácil de contar, é o alibi ideal. É especialmente rico por isso. Porque, às vezes, quando há demasiado ruído, tens de fazer um esforço para ouvir melhor. E o meu estetoscópio futebolístico deixou-me preocupado.

O que vale, afinal, um 4-0 a este Boavista?

 

Marcámos cedo e não acabámos tudo logo de seguida por culpa de um anti-milagre qualquer, num dos falhanços da época. Houve, aí, tempo para o Boavista viver o papel e dar duas defesas ao Sá, antes do penalty com expulsão ter incinerado o pouco que sobrava do jogo.

Nesse momento, com a maturidade de um miúdo febril a jogar FIFA na consola, o Boavista decidiu começar a expulsar jogadores, num espectáculo absolutamente grandificante para uma primeira divisão e que, no mais, explica porque é que vale a pena um campeonato como o português ter 18 tão boas equipas.

4-0. A vida, às vezes, é simples. Ou não. Convenhamos que não saí dos Barreiros a chorar, e que a segunda vitória seguida, depois dum ciclo envenenado, aconchega os demónios, claro que sim. Mas o racionalismo obriga a que fiquemos por aí. E a que, por uma vez na vida, tenhamos de dissecar as cruezas dum 4-0.

O principal sintoma é como o algodão. É grosseiramente evidente, não engana. Num jogo tão propício a isso, não jogámos realmente bem em nenhum período. Não tivemos brilho individual, muito menos dinâmica colectiva. Não fomos exemplares tacticamente, não apresentámos filosofia ou qualidade de jogo e, o pior de tudo, o que verdadeiramente me tirou de sério, nunca, mas nunca apresentámos intensidade.

 

Contra uma das piores equipas da liga, que ficou de joelhos cedo e devassada com meia-hora para jogar, fomos sempre insuportavelmente condescendentes. Nunca nos demos à maçada, nunca metemos o pé. É o tipo de coisa que me deixa doente. Não retiro particular gozo do facto de humilhar ninguém, não queria que andássemos lá a dar olés e não achei particular piada ao facto do Gallo ter festejado o 2-0 na cara do Petit.

Para mim, porém, há uma única forma de respeitar o adversário, que é jogar sempre no máximo. Sempre. Curiosamente, essa é, também, a única verdadeira forma de se respeitar a si próprio. 

Os jogadores perceberam cedo que o jogo estava ganho. Não muito depois, perceberam que não tinham de fazer rigorosamente mais nada. Entendo isso, e também compreendo que o tango se dança a dois e que, se um adversário não valoriza o espectáculo, seja difícil motivar-se. Pelo contrário, o que os jogadores não perceberam realmente no Domingo é que cada jogo nos Barreiros é toda a motivação de que eles precisam para viver. Que ali estão a jogar para as suas próprias pessoas e que essas merecem o mundo. Essas pagaram para estar ali a uma tarde de Domingo a vê-los, num luxo de profissão em que o palco só demora 90 minutos por semana. Se tiveram um jogo 7 dias antes e têm o outro 8 dias depois, e não querem fazer mais um sprint naquela hora e meia, podem crer que me vai pulsar ódio seja em que 4-0 for.

Se eu tivesse qualidade suficiente para estar em campo, eu corria 90 minutos até deixar os bofes fora. Eu não desistia de uma bola, nem havia um golo que eu não quisesse marcar. Passavam por cima do meu cadáver antes de me ganhar a feijões. Se um Marítimo-Boavista pudesse ficar 8-0, esse passava a ser o único desígnio da minha existência. Ora bem, não peço que os jogadores sejam doentes como eu, até porque já não tenho 11 anos e sei que o futebol é bem pior do que isso.

Mas, para mim, seja qual for o resultado, a jogar no Caldeirão, num Domingo às 4, é grave que eles não sejam melhores. Ou que não queiram ser.

 

Além da dormência natalícia, faltaram soluções, faltou estrutura e faltou trabalho de casa. Só não viu isso quem não quis. Numa doce comparação de 4-0, o Marítimo que engoliu o Vitória teria marcado uns 12 ao Boavista.

Em dois meses, a equipa atrofiou quase completamente a sua ideia de jogo, a de um futebol apoiado, construído ao meio, sustentado pelas triangulações e pela chegada dos médios à área. Hoje, o Marítimo joga quase em exclusivo pelas alas. Lateral ou extremo, o primeiro a chegar à zona de despejo, mete na área, e seja o que deus ou Maazou quiser. Não há ninguém que assuma a batuta, que derive o jogo para a sua zona realmente nevrálgica, que jogue com visão, com a bola no chão. 

A equipa entrou, aliás, num 4-2-3-1, em que o lugar nas costas do avançado... foi de outro avançado, o que só acentuou mais essa matriz. Dyego Sousa não pode jogar nunca na casa #10, porque não tem qualidade para baixar, nem leitura e, muito menos, qualidade de passe. Houve quem estivesse a ver e dissesse que era óptimo ter dois avançados para este tipo de jogos nos Barreiros; a verdade é que, até picar o ponto, Dyego Sousa limitou-se a vaguear perdido no campo, de forma quase desoladora. 

Bruno Gallo, a fazer dupla com Danilo no miolo, é um tipo elegante a jogar e tem boa canhota, toda a gente sabe. Porém, até nestes jogos, favoráveis ao seu baixíssimo ritmo, nota-se a menos-valia. Com ele, a equipa joga devagar, mas não inventa nada, ao passo que nem pode sonhar com a possibilidade de comer metros em progessão. Limita-se a derivar em elipses pelo meio-campo adversário, até poder mascarar as coisas com os Boavistas desta vida.

Dito isto, não consigo remotamente perceber os afastamentos de qualquer um dos médios que estavam no banco: Alex Soares, pelo trato que dá à bola enquanto se desmultiplica; Fransérgio, pela chegada à área, pelos lançamentos e pelos golos; e Weeks, pela potência. Parece-me de palmatória que dois dos três deviam ser titulares e que não era na reencarnação do miolo que Leonel Pontes devia ter ido caçar soluções.

O défice de criatividade na equipa é outro problema congénito. Neste momento, o único bálsamo é Johnny Vidales. Ainda sem números que falem por ele, o peruano merece que paguem para ver. Centro de gravidade baixo, chispa, sempre a encarar o um-para-um. Não é que tudo lhe saia bem, mas é como se fosse questão de tempo. Num nível importante, dois conterrâneos: Rubén atravessa, aos 24 anos, a sua época mais produtiva de sempre; e Edgar Costa, aos 27, descobriu a identidade que lhe faltou tantas vezes, sendo hoje um futebolista reciclado. Raramente espectacular, mas capaz, constante e solidário. Honestamente importante para o colectivo. E, claro, há Maazou em quase todas as horas, uma verdadeira taluda premiada pós-Derley.

 

Parte destes problemas é relativizável. Parte é solúvel. Mas os sintomas estão lá, são sérios e nenhum 4-0 deve jamais menosprezá-los. O Marítimo-Boavista não justifica, sob prisma nenhum, um respiro de euforia, porque o que voltámos a ver é uma equipa bem pior do que já conseguiu ser este ano, traída por uma evolução perfeitamente inorgânica.

No médio-prazo, é indispensável que Leonel Pontes volte a aclarar as ideias. Que lhes peça para pensar o jogo, para criar, arriscar, para voltar a subir de nível. Que dê todo o espaço possível ao punhado que tem capacidade para o fazer. No curto-prazo falta, especialmente, a fome que tanto cativou no início. A fúria, como diriam os espanhóis antigamente. Essa é o oxigénio, é a pedra basilar. 

O nosso campeonato não é ganhar ao Boavista, espero que todos percebam isso bem. Por entre a fisioterapia para reaprender a jogar bonito, portanto, não se esqueçam que, da próxima, a única coisa que vale é correrem como se a vossa vida dependesse disso.