No Caldeirão, Domingo às 4
04
Nov

2013

O leme somos nós

Por Paulo Pereira

 

Churchill disse, uma vez, que o sucesso era a capacidade de ir de falhanço em falhanço sem nunca perder o entusiasmo. Hoje, apetece-me pensar assim.

 

Este ano, já perdemos jogos para perder, já perdemos jogos para ganhar, já falhámos jogos que não podíamos falhar uma e depois outra vez, e perdemos todas as nossas últimas oportunidades. Nunca gostei de ouvir treinadores dizerem que não há jogos decisivos, porque sempre achei que isso era uma reminiscência de fraqueza. Futebol é vida ou morte, é encarar o touro pelos cornos de todas as vezes como se fosse a última.

No fundo, porém, isso é só romântico e o coração aberto pode ser uma coisa perigosa nestas andanças. Nas horas más, não é ele que nos faz dar a volta, é a cabeça. Não é o talento nem a boa-vontade, é a mentalidade e a resiliência para subsistir, para agarrar-se com unhas e dentes ao último casco e viver para aproveitar a oportunidade que virá inevitavelmente depois da borrasca. Como num pântano, não vamos sobreviver a esbracejar, a querer fazer tudo rápido e a desesperar. Nas horas más, percebemos isso, e, por sanidade, somos forçados a ganhar distância e perspectiva. Nas horas más, percebemos que só o tempo e a maturidade é que nos vão safar.

 

É por isso que, do jogo de Sábado, prefiro-me lembrar do carácter de uma equipa que, mais batida impossível, foi capaz de, em casa de um grande, virar um jogo que estava a perder, do que da agonia nervosa que nos sabotou durante uma segunda-parte que pareceu nunca ir acabar; da forma como o Héldon correu a dar um abraço do fundo da alma ao Pedro Martins, com o resto da equipa às costas, do que das limitações desesperantes com que a pior defesa do campeonato continua a lidar com os avançados adversários.

Como escrevi, é nestes momentos que se deixa de falar em jogos providenciais, tal como se deixa de pensar em revoluções no onze. Mudar de lateral-direito, experimentar centrais ou explorar opções no miolo eram ideias para momentos normais. Agora, deixam de fazer sentido fórmulas mágicas e já ninguém vai reinventar a roda. Vamos ter de voltar a ganhar com os que já estão e, muito especialmente, com os que estão pior. Porque ninguém fica mal para sempre e, decerto, porque ninguém vai lá para dentro ganhar por nós.

Mais cedo do que tarde, chegará o dia em que a defesa vai ter segurado os cavalos e alforriado a carburação do ataque, e vamos voltar a ouvir o último apito com os três pontos no bolso. Bendita seja, no jogo a seguir, vamos arrancar para dois de diferença e, depois, até vamos fazer o estapafúrdio de ganhar três em três. Aconteça o que acontecer, teremos sempre o Caldeirão, em cada próximo Domingo às 4.

 

Claro que preferia estar na cabeça da tabela, mas, às vezes, bater no fundo tem o condão de nos lembrar das coisas verdadeiramente importantes. De clarear o julgamento, incendiar a chama, de fazer-nos sentir mais vivos do que nunca.

E, neste momento, chamem-me de louco, mas não trocava o espírito com que vou sair de casa no próximo Domingo por nenhuma melancolia amorfa de meio de tabela. A romaria de toda a nossa gente em cada artéria até ao Caldeirão, a forma como vão voltar os que andam alheados, porque a causa precisa deles, a luz, a cor e o barulho dos Barreiros, aquela electricidade a correr a pele no meio da família, aquela ilusão nos olhos de que é hoje que ninguém nos pára.

E fico contente de pensar que, mesmo abaixo da linha de água, num estádio que punge as nossas dificuldades, o Caldeirão vai ser, um dia mais, o melhor campo do mundo, porque ninguém que lá estiver o trocaria por lugar nenhum à face da Terra. Nas vitórias só são precisos onze, mas é nas derrotas que jogamos todos. Se tudo o resto pode falhar, nós não.

Por isso, da próxima, apareçam. Vistam a camisola, calcem as botas se quiserem. Não é à toa que, do Almirante aos quatro cantos do globo a que a diáspora o levou, este é Leão do leme. O leme somos nós.

Quando o Marítimo precisa, joga esta terra, jogamos todos, mais vale acreditar.