No Caldeirão, Domingo às 4
06
Nov

2014

O fim da inocência

Por Paulo Pereira

 

Há um mês atrás relatei aqui, em exaltação, um dos jogos mais excepcionais que já presenciei nos Barreiros. Contra um adversário directo, digno desse nome, o Marítimo foi tudo em campo. Subiu, nessa tarde, ao 2º lugar da liga e deu-se formalmente a conhecer a 2014/2015. Infelizmente, todavia, as luas-de-mel não duram para sempre; desde essa tarde divina temos vindo a perceber isso à força. 9 golos sofridos em 3 jogos, 3 derrotas seguidas e uma derrocada de 8 andares até à segunda metade da tabela canalizaram-nos o mar de rosas todo para as urgências. 

Nem sempre é fácil perceber os pontos fracos e fortes de uma equipa. Nos meses iniciais de uma época, então, um raio-x pode ser surpreendemente turvo. Este Marítimo, pelo contrário, demonstrou de forma precoce uma característica que costuma estar adstrita às equipas de sucesso: foi transparente. Leonel Pontes, mesmo com uma pré-época atribulada, ensaiou um onze base muito cedo. Teve tempo para rotiná-lo, para passar as ideias. A equipa, pese as muitas mudanças, assentou numa defesa que não mudava nada. Cresceu a partir daí. Ao fim de um mês, ou pouco mais, era seguro tirar as medidas ao novo Marítimo: um onze de posse, paciente e muito dedicado a construir. Uma equipa talentosa, mas coesa, bem posicionada e que se obrigava a ser intensa no jogo. Depois do fiasco no Dragão, ganhámos 4 jogos em 5. 10 golos marcados, 3 sofridos. Os méritos da equipa eram evidentes. Uma nuvem, contudo, foi-se insinuando sobre a nossa cabeça. Não tínhamos pragmatismo no dicionário. Ou ganhávamos bonito... ou não ganhávamos de todo.

 

Esse mal-estar fez-se sentir logo na tépida tarde do Dragão, ainda que aí se multiplicassem as condicionantes. O prenúncio tornou-se sério um mês depois, em Belém, onde chegavámos de três vitórias seguidas. Novamente fora e com um adversário bom, a fazer pela vida, baqueámos, e logo na faixa do cronómetro em que a obrigação é exclusivamente nossa. Podem-se perder jogos de muitas maneiras ao longo de uma hora e meia: porque o adversário foi melhor, porque tivemos azar, porque jogámos mal. Mas não se podem perder jogos nos últimos 5 minutos. Aí, não tem a ver com talento, tem a ver com cabeça. Aí, ficou a nu que este era um Marítimo perigosamente inocente, parco na manha e na rudeza que faz os sobreviventes. A saída seguinte, na Mata Real, com três golos sofridos em 11 minutos, depois de voltar do duche, e quando se estava a ganhar, já foi um desastre à espera de acontecer. Não tínhamos travão de segurança. Era sempre tudo ou nada, ganhar ou perder. Não é por acaso que o Marítimo é a única equipa da liga sem empates. 

Alvalade não era um sítio bom para ir de seguida. Foi um feel good Sunday, onde deu a cara um grande Marítimo, cheio de vontade e de futebol para mostrar, que foi buscar um 0-3 e acabou nas graças de meio país. É tudo verdade, mas a ressaca, essa, foi a de derrota de sempre, tornando redundante tudo o que acabei de escrever acima. Domingo, finalmente, era o dia ideal para respirar fundo. Para sarar as feridas e recuperar equilíbrio. Como um castelo de cartas, porém, o estado de graça ruiu pela base.

 

Pela primeira vez esta época honestamente pressionado, o Marítimo foi irreconhecível. Primeiro, no maior de todos os pecados, afastou-se da bola. Pareceu ter desaprendido. Não teve iniciativa, não parecia ter uma única ideia sobre como atacar o adversário. Contaram-se pelos dedos as vezes em que jogámos por dentro. Em que pensámos o jogo, articulámos, em que demos 4 ou 5 toques na bola em progressão. O coração do meio-campo do Moreirense foi quase sempre desertificado por nós que, quais animais feridos, estranhos a nós próprios, tentámos disfarçar tudo com um futebol pesado e vulgar pelas alas, ora trapalhão, ora directo, à espera de um chutão qualquer. Tivemos exíguas oportunidades de golo, sendo incapazes quer de acelerar, quer de emprestar qualquer amostra de criatividade ao que lá andávamos a fazer. 

O Moreirense, pelo contrário, soube sempre o que fazer. Tem todo o mérito na vitória porque, pese as nossas insuficiências, foi um adversário com a altivez de vir aos Barreiros jogar o jogo pelo jogo. Foi agressivo, ambicioso e concretizou a estratégia com talento e com coragem. A vitória foi não só justa, como natural.

Ironicamente, apesar do Moreirense ter sido a melhor equipa em campo, teríamos, pelo menos, empatado com facilidade. Pela maior qualidade individual, porque se proporcionaram 2 ou 3 lances e, acima de qualquer outra coisa, pelo facto dum jogo deste tipo ter um contexto sempre destinado à partida. É o tipo de partida em que jogas feio, empurras e carregas os pianos todos, em que fazes o que sabes e o que não sabes, mas em que empatas à força, com um golo de ombro, nos descontos, a entrar pela baliza a dentro. Com qualquer coisa. Porque não, não se perdem jogos em casa com o Moreirense.

Uma vez mais, porém, não soubemos. Perante a adversidade, fomos indefesos, desamparados, pueris. Duvidámos de nós próprios, perdemos as forças, parecemos condenados. 

 

O que está em causa não é falta de atitude ou de vontade. Esta é uma equipa extremamente jovem, mas se há coisa pela qual a voto é um compromisso honesto, um querer fazer puro, exactamente como quando éramos miúdos e jogávamos na rua. O problema é que a selva não é um lugar para inocentes.

Não é à toa que se diz que os campeonatos se fazem verdadeiramente das vitórias mais feias. Daquelas em que o universo chutou a bola para o limbo e fê-la pender para qualquer um dos lados. Daquelas que não era suposto acontecerem, sobretudo daquelas em que, apesar de estarmos obrigados, fizemos tudo mal, comprometemos e não merecemos. Uma vitória dessas, arrancada aos ferros do Inferno, enche-me mais do que uma goleada. São as vitórias do nervo, do instinto, da mentalidade. São as vitórias em que tomamos a sorte nas mãos e em que mudamos o próprio destino. São as vitórias que, no fim, fazem realmente a diferença. Domingo, não podíamos ter perdido com o Moreirense. 

Este Marítimo tem compromisso, o que não é dizer pouco. Tem talento e tem trabalho feito, o que é realmente importante. Tem uma enorme margem de progressão. Vai é ter de crescer mais rápido. Vai ter de aprender a fechar a cara e a ir à luta, a jogar feio e a jogar sujo se for preciso, a aguentar a pancada toda e a levantar-se uma e outra vez, por saber que não tem outra opção. Entrar em campo e achar que somos melhores é só a parte fácil. Ficar à espera que as peças caiam no seu lugar e que o relógio faça o talento vir ao de cima, contudo, é a história dos que perdem. Nós temos de entrar em campo a saber que, se faltar drible, inspiração e remate, se a defesa descoser, se estiver mau tempo ou do outro lado um adversário ungido por deus, que se tudo o resto falhar, nós nos fodemos a fazer um pacto com o diabo, antes de sair de lá de dentro derrotados, porque ninguém vai querer aquilo mais do que nós.

Eu não quero ver vontade de jogar à bola, eu quero ver vontade de ganhar. Agressividade, hipertensão, mentalidade sobre todas as coisas. Se está a correr mal, então quer dizer apenas que vai dar um bocadinho mais de trabalho. Que não me voltem a perder um jogo imbecil nos Barreiros, nem me voltem a ser anjinhos do outro lado do mar. Quero ver defesas com a faca nos dentes e quero ver uma linha de fogo na frente. E quero que, ao meio, joguem como senhores. Esconder-se nas alas é coisa de equipa pequena. Quero que construam por dentro, que fintem adversários dentro de cabines telefónicas, que vejam o que os outros não vêem, que encarem a baliza, que vão de frente. Que encham o campo. Que joguem difícil, mas joguem à grande, na cabeça e nos pés, que sejam completos. Não pedia isso se não achasse que eles eram capazes. Se já mostraram que são, pois agora devem-nos isso tanto a nós como a eles próprios. 
Se for para perder, então que os outros cabrões tenham sido pornograficamente melhores do que nós. Nunca menos do que isso. 

Que na 2ª o Leonel lhes tenha dito que aqui não se choram derrotas nem se tem pena de nós. Aqui aprendemos com as derrotas e fazemos melhor. Aqui jogávamos já amanhã, se pudéssemos.

Aqui lavamos a cara e vamos ao Bonfim cumprir a tradição.

 

P.S. – O Danilo tem 23 anos acabados de fazer. Está cá há um. No fim do jogo de ontem explicou porque é que, mesmo assim, é ele o capitão. És um orgulho, puto. Mais tarde ou mais cedo, vais chegar muito alto. Nesse dia, será uma honra ficar contente por ti.