No Caldeirão, Domingo às 4
26
Fev

2014

O céu quando é mais azul

Por Paulo Pereira

 

A ida da primeira-volta a Belém é um dos jogos mais profundamente estruturantes da nossa época.

Chegámos ao Restelo a tocar o céu com a ponta dos dedos, depois de abrir as hostilidades a ganhar ao Benfica e imediatamente após ir obliterar o Setúbal ao Bonfim. O empate perturbador com a Olhanense nos Barreiros, numa tarde de futebol para dar e vender, assumira-se como um mero acidente de percurso, pelo que a visita ao Restelo, com o pódio na mira e perante quem perdera todos os jogos até então, insinuava ser uma espécie de oficialização. Podia dizer que o céu abriu-se sobre as nossas cabeças nessa tarde, mas isso como que sugeria que tivemos culpa de menos pelo que aconteceu, que fomos, de alguma forma, superados pelas circunstâncias. Não é verdade.

O Marítimo fez em Belém o pior jogo da época porque não foi uma equipa séria. Porque levantou o pé e deu por adquirido, porque agiu como equipa pequena, inconsciente ou positivamente ignorante do esforço ostensivo de que se faz o sucesso.

 

Uma volta depois, o Marítimo mudou muito. Ganhou umas coisas, perdeu outras, perdeu, talvez, mais do que ganhou, do jogador mais determinante à ilusão do que podia ser esta época. Não deixo de ficar contente, porém, ao constatar que hoje também já não sobra nada dessa sobranceria e desse dolo bacoco de fim de Verão. Este Marítimo é honestidade dos pés à cabeça. Com as suas deficiências, os seus traumas e os seus fantasmas, mas com uma honestidade competitiva visceral, para os adeptos e para consigo mesmo.

Esta equipa já viveu e já sofreu muita coisa, o suficiente para saber o que custa, e para saber dar o valor a uma oportunidade quando ela está ao seu alcance. Às vezes não jogamos tanto à bola como há uns meses, como este domingo por exemplo, mas certo é que agora é sempre a sério.

Frente ao Belenenses entrámos bem e marcámos cedo, o que definiu o tom do jogo de forma liminar. Estamos habituados a cavalarias maiores e não somos definitivamente uma equipa que se sinta confortável a defender vantagens. Assim, o golo de Weeks teve o condão de nos retrair. O Belém, em boa verdade, é uma equipa bastante fraca e nunca esteve sequer perto de conseguir especular com nada. Ao contrário do jogo frente ao Setúbal, uma partida enorme a todos os níveis, o Marítimo-Belenenses foi, em vez, um jogo quase sempre pachorrento, a um ritmo baixo e com uma segunda-parte desoladora. Constato isso sem qualquer pudor até porque, enquanto nos espreguiçávamos nessa torrente de jogo, sentir na boca o gosto da vitória a fermentar foi o verdadeiro ouro sobre azul.

Não seria correcto da minha parte acabar esta crónica, contudo, sem falar do filme de terror que foi a arbitragem de João Capela. A expulsão idiota de Duarte Machado, em cima do intervalo, assassinou o jogo, e ‘compensá-la’ com outro vermelho demente a João Luiz é o tipo de coisa que dá eco a quem acha a arbitragem portuguesa uma perturbação medievalista qualquer. Um jogo sem caso nenhum, sem rudeza nenhuma, acabou virado do avesso pela incompetência bruta de um único elemento, justamente o que devia ter menos protagonismo. Dá que pensar.

 

Individualmente, saúdo o regresso do Danilo Pereira, dono e senhor do miolo e o melhor médio-defensivo da Liga-fora-grandes. Gostei da mecânica ofensiva da ala direita, com os bons pés do João Diogo e a infindável vertigem do Danilo Dias. Na defesa, dou graças a mais um jogo quase irrepreensível do Salin e do Bauer, os nossos jokers de Inverno, sob cuja liderança acumulámos o terceiro jogo em branco nos últimos 4! (sendo que a mácula no registo é o golo extemporâneo em Olhão...). Seja como for, engoli em seco a lesão do Gegé. Também porque o Rozário e o Rúben continuam a acumular erros primários na leitura dos lances e mantêm a paz no sector permanentemente armada...

O melhor em campo foi, na linha do que escrevi na semana passada, o Nuno Rocha. Aos poucos, o miúdo cabo-verdiano vai esculpindo o seu espaço e, desta vez, numa posição mais agressiva de trabalho do que de oferta atacante, liderou as linhas e deu o mote aos colegas.

 

Com o Caldeirão a servir de bálsamo, foram três vitórias nos últimos quatro jogos, que nos colocam, uma vez mais, na antecâmara europeia. Mantenho gelo nas expectativas e acho, por todas as razões e mais algumas, que seremos sempre o underdog da questão, mas tenho esperança de chegar à luta com legitimidade para discuti-la em campo.

Assim, antes de defrontar, de enfiada, o Vitória, o Estoril e o Sporting, sobra uma ida instrumental à Mata Real e a um Paços errante, num dos tais jogos em que efectivamente se cumprem ou se perdem objectivos. Que o céu azul de promessas volte a estar lá para nós.