No Caldeirão, Domingo às 4
30
Out

2013

O abismo a olhar para nós

Por Paulo Pereira

 

Poucos poderiam acreditar que um projecto de quatro anos que arranca para a nova época a ganhar ao Benfica poderia estar, a meio do Outono, quase ligado às máquinas. A verdade é que, à quarta derrota seguida, a um ponto da linha de água e com um calendário imediato hostil, não há ninguém que não tenha levado as mãos à cara no domingo à noite, nos Barreiros. É oficial: o Marítimo de Pedro Martins atravessa a sua fase mais frágil e, à parte a nossa vontade, o futuro insinua-se carregado de nuvens.

 

Como no último jogo em casa, mais um ror de golos sofridos; como no último jogo fora, a derrota novamente a chegar depois de uma expulsão. O que pode correr mal tem, de facto, corrido e, vergada às suas circunstâncias, a equipa parece incapaz de levantar-se do chão. Sente-se que uma vitória pode mudar tudo, mas cada nova derrota parece inevitável e enegrece todo o cenário à sua volta.

O Marítimo não entrou mal perante o Estoril e nem sequer reagiu mal à desvantagem. Frente a um adversário que se prestou a assumir o jogo, a equipa pareceu aliviada da responsabilidade e explorou aquele que sempre foi o seu traço mais distintivo: o contra-ataque. Depois do empate, era um jogo aberto mas que, por força da nossa necessidade de pontos e do jogo europeu do Estoril a meio da semana, parecia encorajador. Isto até Weeks, que estava a ser um dos melhores e uma excelente alternativa à amorfia de Artur, ter assassinado, a meio-campo, um adversário e mais pontos.

Depois, honra lhe seja feita, o Estoril é uma equipa de uma qualidade excepcional. Joga futebol que nunca mais acaba, tem uma auto-confiança inabalável no seu jogo e está com a moral nos píncaros. A jogar contra 10, fez o que quis no nosso meio-campo e tornou o jogo dolorosamente fácil e sem mais história. Não adianta chorar sobre o leite derramado, mas o que jamais podia ter acontecido eram os pontos incendiados com Olhanense, Belém e Paços, equipas, essas sim, obrigatoriamente na nossa linha de tiro. Neste momento, perder para este Estoril era normal. Foi simplesmente sal na ferida.

 

Como é óbvio, nenhuma má fase se faz exclusivamente de factores exógenos. A segunda pior defesa da Liga é um marco que continua a falar por si e que voltou a determinar um jogo. O primeiro golo é mais um caos defensivo impensável em alta competição (Briguel batido com uma recepção, Balboa a saltar sozinho entre quatro jogadores...), o segundo mais uma deficiência nas bolas paradas defensivas, que a equipa insiste em defender em linha, com resultados muito discutíveis.

Se acho que a calma advirá sempre das vitórias (as expulsões não são um acaso), injectar caras novas no sector (João Diogo, Bauer...) parece mais premente do que nunca. É que, no resto, o ataque continua vivo e o miolo teve uma das suas mecânicas mais felizes, com Danilo a meter finalmente os dentes de fora e o liberiano Weeks, em estreia, a ser uma das figuras da equipa como #10... até à expulsão. O resto vai ter de passar pelo treinador, pela sua capacidade para espicaçar a equipa, motivar e passar a mensagem. 

 

Ironicamente, o jogo em que se tornou no treinador com mais jogos na História do Marítimo foi, também, o seu dia mais frágil de todos. Pedro Martins falou abertamente sobre a possível saída no fim da partida e reuniu-se com o Presidente ontem para essa reflexão, coisa quase impensável no passado recente.

A opção, quanto a mim, perfeitamente correcta foi a da continuidade. Como em qualquer um dos anos anteriores, Pedro Martins perdeu a espinha da equipa (4 titulares este ano) e teve reforços, quanto muito, racionados. Apesar dos resultados nem sempre terem sido estrelares, tem o melhor campeonato da História do clube (em média de pontos) e foi o primeiro a entrar numa fase de grupos europeia. Com todos os cortes, é, hoje, a cara de um projecto reconhecido e respeitado a nível nacional, num clube que, durante anos demais, viveu numa dança de treinadores absurda.

Acredito que é em cima disso que se cria e acredito, acima de tudo, no carácter de Pedro Martins, um grande trabalhador, um homem brutalmente honesto e que sempre pareceu ter um jeito especial com as pessoas e com os seus jogadores. Acredito nele para dar a volta por cima, da mesma forma que acreditei nos dias bons e isso ainda tem de valer para alguma coisa. Agora, certo é que já passou mais do que um alerta vermelho e que, não interessa como nem contra quem, os pontos têm de começar a cair. Com Sporting e um super-Gil no horizonte, só pode haver um caminho, e não é mais para baixo.