No Caldeirão, Domingo às 4
30
Set

2013

"Jogos do Ano" são para quem os ganha

Por Paulo Pereira

 

Como é que se critica um dos melhores jogos da temporada? Se tivermos ficado do lado errado dos golos, claro...

O que aconteceu nos Barreiros, no Sábado, foi surreal. Por 3 vezes - três - esteve o Marítimo a ganhar em casa, ao último classificado, e das três deixou-se apanhar, levando o cheque-mate da praxe nestas coisas ao minuto 88, qual guião bacoco de filme de super-heróis. De facto, para os homens de Costinha, nada podia ter sido remotamente mais romântico. Fim da linha, um estádio difícil, três vezes a perder. Levar de volta um cabaz de 3-4 de último minuto é uma daquelas vitórias que mudam o destino e que fazem campeonatos.

Irónico é que, num dos jogos mais extraordinários que a Liga viu este ano, o vencedor não jogou propriamente um futebol transcendental. Superou-se, de facto, a nível de resiliência e de mentalidade, e é por isso que ganhou mas, no geral, jogou menos do que um Marítimo disponível e qualitário, mas suave demais, como tem sido irritantemente a regra, e que nunca desconfiou da borrasca que se insinuava acima da sua cabeça. O Paços tem boas individualidades, do tiro de Bebé ao livre perfeito de Manuel José, e tem uma ideia positiva de jogo. Mereceu ganhar, porque quem ganha assim, merece sempre. Não teve, porém, o fluxo de bola que o resultado parece sugerir. 

 

No seu 4-2-3-1 habitual, e com Sami a começar no banco para variar, o Marítimo começou muito bem a dar conta de si, e a expurgar os fantasmas de um dos jogos mais insuportavelmente miseráveis de toda a Era Pedro Martins, a derrota em Belém, na semana anterior. Derley, um senhor gingão que todos os dias parece cravar-se na lista de ilustres de Vera Cruz que brilharam na cunha do nosso ataque, partiu a anca à defesa em tempo recorde e marcou o primeiro, quando ainda estava gente a chegar à tarde de chuva dos Barreiros. O golo prematuro e a vantagem ao intervalo pareciam embrulhar a vitória bem quentinha e fazer, de vez, as malas do Costa, mas a meteorologia da tarde é que tinha dado o mote: se já chuvia, a segunda parte seria uma tempestade de trovões.

Em 3 minutos, 3 golos, coisa psicadélica das histórias. Entalanço da nossa defesa, golo do Caetano pequenino, para o pessoal respirar fundo, ver mexer a bola e estar a ganhar outra vez - que bruta de classe, Derley, um compasso abaixo de toda a gente a parar, expirar e metê-la no saco -, para, ainda com o pessoal de pé, Bebé enfiar a 20 metros um rabisco da razão porque é jogador do United. Nesse momento, é justo dizer que ninguém sabia o que esperar. Tinha a certeza de que tínhamos ganho um nano-milésimo de segundo antes, mas ok, assim estava atado. O Marítimo ia dar um berro e o Paços ia matar-se por esse ponto. Sucede que o carrossel ainda estava aí para as voltas.

Quando Rossi marca o profético 3-2, pois a Providência que fosse brincar aos dados para outra terra qualquer. Até sol já estava. Tínhamos um jogo bonito, uma vitória e uma história para contar. Acontece que os dados por lá continuaram e o drone de Manuel José, acabado de sair do banco, como que determinou que ia ser ao contrário. Naquelas circunstâncias, tinha-se tornado num jogo em que só uma equipa podia perder.

 

É injusto dizer que o Marítimo fez uma má partida. Não fez, foi disponível, teve bola, teve oportunidades, teve 3 golos. O problema não está no que produziu, mas, sobretudo, no défice de discernimento e, novamente, no coração da táctica da equipa. Ao fim de mês e meio de época, o miolo continua a enfartar de dores de cabeça. O miúdo Danilo escasseia em personalidade e tarda em ser um pivot à séria, com intensidade e inteligência para olhar o campo de frente, ao passo que João Luiz é, de vez, uma promessa eternamente adiada, e confirma-se, semana sobre semana, como uma menos-valia naquele meio-campo. Sem capacidade de cobertura, sem intensidade e sem agressividade naquela zona, controlar um jogo parece impossível nos dias que correm, e o Marítimo já é a pior defesa da Liga...

Diria que, apesar de tudo, os verdadeiros pontos perdidos foram em Belém e não agora porque, apesar de uma equipa adulta não poder facilitar o que o Marítimo facilitou, a génese do jogo assumiu uma dimensão que já não pôde ser controlada. É futebol. Facto é que o Marítimo, depois de uma sensacional goleada em Setúbal, que meteu a equipa na zona europeia, conseguiu perder para os dois últimos, duas equipas que contavam por derrotas (quase) todos os jogos que tinham feito, o que, neste momento, está-nos a causar um desespero físico a todos. A Era Pedro Martins trouxe uma infinitude de coisas positivas. Uma das que persiste em enervar, porém, é esta propensão de amolecimento da equipa, esta ligeireza em todos os momentos em que estamos "a fazer mais do que era preciso", e que nos tem sabotado de forma recorrente.