No Caldeirão, Domingo às 4
30
Set

2014

Génesis

Por Paulo Pereira

 

Deduzo que nunca vamos saber se a Protecção Civil e o Exército estiveram ou não em vias de invadir os Barreiros ao intervalo mas, como em qualquer chacina em directo, parece-me evidente que sim. Pelo que ouvi dizer, a SportTV foi mesmo obrigada a pôr bolinha vermelha na emissão e os telejornais avisaram, antes do resumo, que as imagens podiam chocar as pessoas mais sensíveis. Nos Barreiros, o abalo percorria a cara dos anciãos e os pais tapavam os olhos aos filhos, impotentes perante tamanha selvajaria. É provável que aquela tenha sido a melhor primeira-parte da minha vida.  

 

Apesar de perpetuado em coração ao longo dos tempos modernos, a verdadeira reputação do Caldeirão é indissociável das suas raízes. Remonta a um futebol mais simples, pessoal, na transição do preto e branco, quando os campos não tinham cadeiras e não havia canais desportivos. Tudo o que havia era um estádio ao domingo e esse estádio ao domingo era o mundo que bastava. Sinto isso com aquelas saudades estranhas de algo que, na verdade, nunca vivemos.

Cresci com a comoção do meu pai a lembrar o que eram os proféticos “15 minutos à Marítimo”, uma hipertensão que começava ainda no aquecimento e que era alimentada pelo facto das equipas entrarem uma de cada vez. Depois, a tempestade perfeita celebrava-se a si própria desde o pontapé de saída, indiferente a qualquer adversário. Para esses, até onde podiam saber, o que se abatia sobre eles era a verdadeira Ira borbulhante de Deus. Surgiu assim o epíteto que nos acompanhará até ao fim dos tempos, cunhado por Luís Calisto nas páginas do Diário de Notícias, e imortalizado por Juvenal Xavier, aos microfones da Antena 1. Tinha nascido “O Caldeirão dos Barreiros.”

Mais igual ou mais diferente, à minha maneira e conforme cada tempo, sei o quanto já o vivi muitas vezes. Digo, porém, e mesmo que na ressaca da vitória, que poucas tiveram o radicalismo de domingo. Desta vez, foi como ver os “15 minutos à Marítimo” reeditados a ácidos, durante três quartos de hora que pareceram nunca ir acabar. O Marítimo avassalou o campo, possuído pela fome que não vemos todos os dias, quais leões enlouquecidos, destinados a abocanhar tudo o que lhes aparecesse à frente. Foi mais uma Arena do que um Caldeirão, para êxtase do povo, que me pareceu estar sempre perigosamente perto de entrar na relva, e aparecer a cabecear um cruzamento do Rubén, a dar uma bola ao Fransérgio ou a isolar o Maazou que, como já bem sabemos, se não fosse leão, era um gladiador.

A primeira-parte acabou com a multidão de pé e em claque, de sorriso insultuoso na cara e com a alma arrebatada. Foi aí, quando o árbitro apitou o intervalo, que encarei o deslumbre incontido do meu pai e tive a certeza donde estava. A envolver-me a toda a volta, verde, vermelha e em chamas, aquela era a erupção que nenhum guarda-redes do mundo podia defender. Algures entre a chuva de golos, quebrámos o espaço e o tempo e viajámos até ao sítio aonde fomos feitos. À minha frente estava o Caldeirão em carne e osso.

 

É escusado dizer que este início de campeonato tem obliterado até as nossas melhores expectativas. Com tudo o que tão profusamente mudámos, com um cheque em branco de garantias, já sermos isto, ao fim de um mês e meio, é perfeitamente abissal. Não é só o facto de estarmos em 3º, à frente de candidatos, a pontos com milionários, só com o titulado à frente. Ou com 100% de vitórias em casa e uma média de quase 3 golos por jogo nos Barreiros. É, acima de tudo, uma questão de identidade. É percebermos que a equipa assimila, mais do que os processos de jogo, uma concepção do que deve ser o Marítimo. É ver a fusão entre o muito bom trabalho técnico e o compromisso dos jogadores, entre eles próprios, enquanto grupo, e deles para com o escudo. Sentir-lhes o gosto de jogar, a vaidade, a fome de bola. Ver que eles estão confiantes, motivados, bem preparados, que sabem o que podem fazer, querendo o mais que puderem. 

Professo que o futebol é universal e que a proveniência de alguém não é condição, mas não posso ser indiferente ao facto de que isto se faz com um madeirense no banco. Leonel Pontes ainda tem um caminho longo e tremendo para percorrer, e são os resultados que inevitavelmente o vão julgar, mas, para mim, já fez o mais difícil. Já provou que conhece o Marítimo e, mais importante, que sabe o que o Marítimo deve ser. Os mares de rosas toldam o julgamento, mas encontro nele alguém que já viu o mesmo do que nós. Alguém que, mais perto ou mais longe, já cresceu com isto. Esse é o tipo de experimentação e de vivência que não se pode comprar. Reitero o que disse no início, mas facto é que soube bem ganhar assim com 5 portugueses titulares, 3 madeirenses, no dia em que o seleccionador teve a dignidade de começar o reinado a ver um Marítimo-Guimarães. Fernando Santos que, de resto, também já foi orgulhosamente um dos nossos e que lembrou, a bater o peito na tribuna, que não o esquece.

O hiato por cá já ia grande, portanto não me vou alongar em todas as considerações que queria fazer sobre a equipa, porque haverá tempo para isso. A nível táctico, contudo, gostava de salientar o grau de pormenor que já é possível observar nos processos colectivos. A construção ofensiva deste Marítimo foi cuidadosamente trabalhada e é a jóia da coroa. A equipa cansa-se até encontrar a melhor solução para chegar à área, com poucas precipitações e um nível surpreendemente baixo de más decisões. Os jogadores jogam sempre por dentro, procuram sempre os apoios, as tabelas. Têm as movimentações extremamente bem treinadas, inclusive dentro da área. A defender, nota-se mais preocupação do treinador, que está constantemente a corrigir posicionamentos. Raramente jogamos directo. A bola sai sempre no pé, e Leonel Pontes tem uma ideia muito clara de como quer a disposição dos jogadores em campo, quem baixa, quem estica e quem dobra. Até ver, este Marítimo é um projecto cuidadosamente esculpido em laboratório, com laivos de excelência. Não é à toa o que se vê em campo. Nada é por acaso.

Individualmente, gostava, em especial, de dar a mão à palmatória quanto a Edgar Costa . Fui frontalmente contra a sua contratação e, no Verão, escrevi que era mais uma garantida infelicidade de casting. Na verdade, tem sido um dos mais fortes. Num esquema que só privilegia um extremo puro, tem sido uma mais-valia, quer pelas soluções que oferece na frente, quer pela solidariedade com que equilibra sempre a equipa. Mereceu muito aquele golo. Fransérgio tem confirmado o que já se suspeitava dele. É um box-to-box de elite, mais perna-longa do que seria provável para a posição, com bons pés, boa pegada e uma chegada à área impressionante. O seu jogo de cabeça é um absurdo. Maazou era um dado adquirido, mesmo apesar dos tormentos finais no Minho. Foi titular pela primeira vez, porque Leonel Pontes tem confiado no onze de pré-época, com Dyego Sousa, mas era tudo uma questão de tempo. É um tanque autêntico, um poço de força, assassino e vertiginoso no último terço. Vai com uma média bestial de minutos/golo e desta vez, antes da brutalidade a picar o ponto, ainda demonstrou todo o leque de recursos na assistência para o 2-0, a esticar a equipa, temporizar e a cruzar religiosamente bem. É craque. Para seleccionador ver, Rubén fez questão de mostrar que continua bem vivo. Faca nos dentes a defender, duas grandes assistências para golo. Vê-se que o treinador perde muito tempo com ele, mas está a pagar. Pode mesmo ser o seu ano. Salin, Bauer e Danilo (ontem capitão, rumo às Quinas) são, por esta altura, a mão invisível que embala a equipa, os pilares imperturbados nestes dias de acalmia, que permitem aos outros brilhar. São impagáveis.

 

Claro que nem tudo se faz de qualidade, método e vontade. Dias chegarão em que só será possível sobreviver com personalidade, sangue frio, cinismo ou, até, sorte. Certo, porém, é que assim está-se sempre mais perto. O Marítimo que se graduou no direito de sonhar, frente ao Guimarães, é uma equipa cheia, inebriante, ora irresistível. Até onde vamos, não podemos saber. No domingo, o que soubemos é que vamos juntos.