No Caldeirão, Domingo às 4
01
Abr

2014

Fin del camino

Por Paulo Pereira

 

No fim da noite, dei por mim a desejar que o empate odiosamente estéril em Barcelos tivesse sido a pior notícia do dia. Não foi. Afinal, a frustração condensada de ter vendido mais um pacote de inabilidade tudo-incluído (a saber: a indispensável vantagem desperdiçada, o par de erros graves na defesa e a expulsão da praxe) pareceu um problema bastante resolúvel, assim que, lá mais bem perto de casa, Quaresma bateu a sua penalidade em cheio para um poste, no coração de uma floresta de eucaliptos onde nem devia haver um estádio de futebol. Este era o destino que nos fazia uma espera há tempo demais, sabíamos todos isso. Que se tenha cumprido num dia em que saímos de um campo escondido pela porta dos fundos, enquanto o pior de todos ganhou ao Campeão e levou o prémio, foi só o contorno cruel do nosso fracasso. 

 

O Gil é um adversário que marca indelevelmente os limites da época maritimista. Primeiro, em Novembro, por ter-nos feito acreditar. Foi nessa tarde com sol, chuva, cinco golos e um arco-íris que pusemos fim a 5 derrotas seguidas, saímos da pornografia da linha de água e voltámos a poder olhar-nos ao espelho. Ontem, finalmente, pela formalidade de cauterizar-nos quaisquer ilusões. Um Gil, curiosamente, muito pior do que esse então 4º classificado de Inverno, um Gil que até nos deu de barato um penalty para o olho da rua.

A fazer fé na cobertura possível, não foi um jogo particularmente feliz da nossa parte, mesmo que freudianamente já tivéssemos feito, como quase sempre, o mais difícil. Bola na marca para o Derley, é bola resolvida - ainda vais à Bota de Prata, craque! -, e não teria sido necessário o jogo da nossa vida para consumar essa sebastiânica primeira vitória fora em 4 meses.

Sucede que, entre suspeitos do costume, se marcou o mesmo de sempre, também não faltou o Robin dos Bosques dos nossos adversários. Em vez de nos rebentar o jogo ao minuto e meio, desta vez o Rozário deu uma abébia, e concedeu aos colegas uma hora de avanço, antes de, então sim, fazer o seu penalty e reclamar um sempre aprazível cartão vermelho. Sobre isto, só posso remeter para o que já escrevi na semana passada. Agora é tentar dormir bem, a pensar se o Gegé, o Fábio Santos, os centrais da B ou os suplentes dos juniores têm algum meio de conseguir emular tamanho rendimento frente ao Arouca.

O Gil nem marcou logo aí. Marcaria dois minutos depois, só o tempo de trocarmos um médio-ofensivo por um central e perdermos o último fôlego. É evidente que a substituição não está em causa - estávamos a ganhar, em inferioridade, e era evidente ter de equilibrar a equipa -, mas foi inevitável lembrar-me de uma nuance que, em tempos, foi nossa identitária. Em 2011/12, no ano da melhor média de pontos da nossa História, tivemos de jogar 5 ou 6 jogos com menos um em campo. A regra era darmos conta de nós, continuarmos a criar caos com o trio da frente e levarmos a melhor. De certa forma, o eclipse dessa confiança na maneira de estar e de abordar os jogos, dessa agressividade resiliente e competitiva, é a grande derrota dos últimos dois anos. Agora parece que tudo nos acontece, parece que estamos sempre vagamente condenados. 

 

Todas as épocas a equipa tem perdido referências e obviamente que isso deixa cicatrizes, tão profundas quanto o estrago. A realidade do que se pode contratar, por seu lado, também não é estranha a ninguém. Em clubes como o nosso, porém, a medida do sucesso está em fazer melhor do que as circunstâncias. Como no poker, em ganhar não porque temos a mão ideal, mas porque usamos melhor as cartas que nos saíram.

Guardiola disse na semana passada que foi embora do Barça porque já não conseguia motivar os jogadores. Não sendo obviamente equivalente, nem tendo o desfecho de ser o mesmo, parece-me claro que algo se perdeu no poder da mensagem, na capacidade de contágio e, defintivamente, na dinâmica de vitória.

É sobre isso que importa reflectir até Maio...