No Caldeirão, Domingo às 4
25
Nov

2013

Expiação

Por Paulo Pereira

 

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
"Aqui ao leme sou mais do que eu"

    "O Mostrengo", Mensagem, Fernando Pessoa

 

Nenhum maritimista lá terá ido à espera de um jogo pacífico. O tempo ensinou-nos melhor e o momento falava por si. Não íamos controlar o adversário, nem capitalizar uma vantagem mínima, não íamos abusar da eficácia, nem inventar um ferrolho. Íamos, tão somente, entrar na montanha russa de coração nas mãos, com a única certeza de que esse coração era grande o suficiente para nos trazer com vida para fora. Ontem, para sobreviver ao nosso pior ciclo em meia década, foi.

Perdemos duas vantagens, tropeçámos na área e ainda levámos as mãos à cabeça, mas não há bem que nunca acabe, nem mal que sempre dure. Depois de perder 3-4 com o Paços e de ganhar 4-2 em Setúbal, depois de perder 2-3 em Alvalade, foi a vez de ofertar 3-2 ao Gil. Não é vida que dê saúde, mas há coisas piores, ou há 20 anos não tivéssemos aprendido o mantra de um pai de santo brasileiro, Autuori de seu nome, que rezava que está tudo bem em sofrer 4, desde que se marque sempre 5.

 

O Gil entrou nos Barreiros com uma daquelas fichas de apresentação que faz muita inveja: 4º classificado, 3ª melhor defesa, batido apenas por Porto e Benfica. No entanto, como muito dignamente reconheceu João de Deus no fim, foi uma vitória sem discussão da melhor equipa em campo, fruto de uma postura que, sinceramente, me continua a deixar orgulhoso e, sobretudo, confiante no que está para vir.

O Marítimo já fez jogos muito maus este ano, é facto, ou Belém e Guimarães ainda não dessem pesadelos. Tem uma defesa que precisa de um exorcismo e demorou muito mais do que o admissível a achar um onze, processo de cujas consequências no miolo foram as mais evidentes. Mesmo com isso tudo, não estou a ser chauvinístico se disser que fizemos por merecer muito melhor do que tivemos até agora. Fizemos jogos verdadeiramente bons este ano (Paços e Olhanense sobretudo, mas também Alvalade) que quase só por perversão do destino nos rebentaram na cara e nos atiraram para debaixo das bóias de salvação. Ontem, sentiu-se, era o dia de expiar esses pecados todos. Mais vertigem, menos vertigem, claro.

 

Acima de tudo, foi um grande jogo nos Barreiros. Duas equipas com nível, dispostas a jogar, com executantes capazes de fazer a diferença. E, sinceramente, com uma superioridade inequívoca do Marítimo, de início ao fim. Vénia ao Gil por não se ter escondido e por ter valorizado sempre o espectáculo, mas, já ao intervalo, o empate era uma aberração. Um rácio de 5 oportunidades para 1 (Héldon e Derley, se isto engatar, tereis uma história bonita para contar em 2014), estava a valer um empate a 2, e parecia que a nossa vida era um sentido único de andar para trás. Aquele cúmulo de livre do Peixoto em cima do intervalo foi um pé de cabra pronto a arrombar a nossa caixa de Pandora pessoal e a soltar os fantasmas todos dali fora, com a tragédia do Paços evidentemente à cabeça.

No tudo ou nada, porém, aqueles onze não tremeram. Levaram um golpe e depois levaram outro, mas, como o marinheiro de Pessoa, cravaram as mãos ao leme dispostos ao terceiro, porque ontem era um daqueles dias em que o destino deles era maior do qualquer azar e do que qualquer mostrengo do mundo. E, por isso, o pontapé monumental do Alex Soares nunca poderia ter sido defendido, como não se pode humanamente defender uma bola que, na camada quântica do universo, foi rematada por cinco mil pessoas ao mesmo tempo.

 

No Caldeirão, Domingo às 4, respondeu a gente e respondeu a equipa, respondemos todos um dia mais, imbuídos da certeza dos loucos de que, às vezes, nem é preciso jogar para se saber como acaba. Como o homem do leme, como qualquer marítimo digno desse nome, ontem a nossa viagem só acabava depois da tempestade. Porque há imagens que valem por mil palavras, acabou assim. Há tardes que valem por uma semana.