No Caldeirão, Domingo às 4
06
Mar

2014

Enquanto houver estrada para andar

Por Paulo Pereira

 

Como se diz na guerra, há uma fase em que já não há tempo para chorar os mortos. Em que já não se contam as baixas, contam-se as espingardas. O jogo na Mata Real era uma oportunidade exponencial para a época do Marítimo, confirmada pelos resultados dos rivais: em casa do último classificado, como equipa em melhor forma da prova - a par de Benfica e Estoril -, podíamos ter entrado em 6º lugar no último terço da Liga, a escassos 4 pontos da meta europeia. Em vez, voltámos a ser lembrados do nosso testamento de fragilidades: perdemos a bilionésima vantagem e perdemos o jogo nos últimos 10 minutos, com duas bolas paradas. Em seis jogos frente aos três últimos, perdemos metade e só ganhámos um, o que também explica muita coisa.

Acho, porém, que não vale a pena dramatizar, não vale a pena prestar-se à montanha russa que tanto nos tem torturado este ano. Este Marítimo é o que é. Não é a esta hora que se vai sanar ou reinventar. Se conseguirmos alguma coisa, será sempre a partir das nossas próprias insuficiências. A perder vantagens, a sofrer com rivais piores e a levar golos de canto aos 90'. Rocky Balboa dizia que o mais importante é saber de onde vêm os socos. Nós sabemos. Sabemos as nossas fraquezas e os nossos fantasmas, sabemos tudo o que está contra. Sobra-nos dar o que temos. Talvez não seja suficiente mas, até lá, apetece-me lutar. Apetece-me que valha a pena.

 

No verdadeiro batatal da Mata Real, acho que Pedro Martins teve a boa ideia de lançar Fidélis de início. Abdicou de Weeks, puxou Artur ao meio e acrescentou peso bruto ao ataque, com o reforço de mensagem que era entrar em campo com dois pontas-de-lança de raiz. Pelo resumo, ainda para mais naquele relvado minado, nunca houve futebol bom, mas levámos a nossa avante quando, já depois do Danilo ter desperdiçado a primeira oportunidade do jogo, o super-Derley matou, à autêntico assassino,uma bola perfeita do João Diogo (está aberta, de vez, a candidatura à Bota dourada da liga).

Ironicamente, às vezes o "problema" é marcar cedo, em particular antes do intervalo, e acredito que vivemos um desses casos agridoces. Na cabine já tínhamos o ouro nas mãos, já só tínhamos a perder, quando ao Paços, galvanizado pela chicotada, não sobrava nada a não ser ir para o campo fazer melhor. 

A segunda-parte foi, pois, tão má como podia, de absoluto sentido único, e resultou no que se sabe. Compreendo a substituição de Fidélis pelo Marakis, um avançado por um trinco, já depois do 1-1, pela tipologia do jogo e pelo momento. Os jogos não se ganham só por atacar e, naquela fase, a generosidade de Marakis, numa horta recortada a cal, podia ter sido determinante para aliviar o jogo dos avançados.

Custou-me mais a falta de ambição na entrada do Rubén Brígido: a 10 minutos do fim, Pedro Martins não abdicou do trivote no miolo, subentendendo que o empate não era de mal. O Paços acabaria com o jogo três minutos depois.

Mas lá está, tudo isto são conjecturas de quem não viu o jogo e só ouviu uma vitória a esvair-se lá longe, comentada pela verdadeira tragédia radiofónica que é o Rádio Clube de Paços Ferreira, uma martelada provinciana que redefine o significado de parcialidade.

 

O que me apraz dizer é que, nas palavras do Palma, "enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar". Se a época estiver perdida, é porque já se perdeu há muito. Se for ganha, sê-lo-á daqui para a frente. O Vitória, o Estoril e o Sporting vão ter de provar se são bons o suficiente.