No Caldeirão, Domingo às 4
10
Out

2013

De bandeira branca no Castelo

Por Paulo Pereira

 

Costuma dizer-se que, quem joga para o empate, perde sempre.

Lei linear da sabedoria popular esta tem-se provado certa, porém, uma quantidade de vezes espectacular. Em súmula, foi isso que aconteceu ao Marítimo na segunda-feira à noite, no Afonso Henriques.

Depois da hecatombe de ter perdido para os dois últimos da Liga, a equipa foi a uma casa complicada mentalizada em auto-censurar quaisquer expectativas. Do ponto de vista pragmático, consigo compreender que um ponto em Guimarães fosse um bom coeficiente, sobretudo nesta altura; do ponto de vista prático, e por lírico que isso possa soar, empates são sempre uma consequência do que se jogue e nunca um efeito por si próprios. 

 

Honestamente, Guimarães assistiu a um dos piores jogos da Liga, um daqueles que faria um mero apreciador de futebol mudar de canal ou então ficar a chorar pelo dinheiro gasto no bilhete.

Nenhuma das equipas é tão má quanto aquilo, mas o que se viu foi um Vitória macio, sem ideias, cheio de segundas escolhas e possivelmente cansado da ronda europeia, e um Marítimo absolutamente amorfo e envergonhado, ainda preenchido de dúvidas existenciais e assombrado pela partida de referências de outros dias (Roberge e Miranda fazem falta por quatro...), capado à ideia de que o 0-0 seria uma mina de ouro

Nem o Guimarães acabado de descrever serviu para abrir o apetite; o Marítimo foi ao Castelo em missão de paz, com tréguas pré-redigidas e de bandeira branca, à procura do seu mal menor. A sorte, como se diz, costuma proteger outra gente.

Ironicamente, no meio daquele penoso Sahara futebolístico, o Marítimo teve duas oportunidades de golo, contra uma única do seu adversário. Leoni, em estreia, não teve de fazer qualquer defesa, nem sequer uma remotamente cansativa.

Nada. O Marítimo não quis jogar e o Guimarães não soube mais, até que, então já em inferioridade numérica, toda a retaguarda da segunda pior defesa do campeonato voltou a baquear... e perdeu o jogo: inadmissível a displicência com que Rúben deixa sair o cruzamento, constrangedora a inabilidade com que Briguel, à frente do adversário, se deixa bater, e desesperante toda a falta de agressividade do sector em geral.

Ao contrário do seu perfil e do seu histórico, Pedro Martins foi bastante vocal na conferência de imprensa em relação à arbitragem. Não foi, contudo, por ela que o Marítimo perdeu. Olegário Benquerença continua a ser o árbitro patético que sempre foi e a minar o jogo de faltas e amarelos provincianos, mas o segundo cartão a Gegé tem de aceitar-se e não há qualquer falta de Marco Matias no 1-0. O único drama foi mesmo não ter ido fazer pela vida mais cedo. 

 

Neste momento, cada bocado do aparelho defensivo é uma dor de cabeça. Guarda-redes, centrais, laterais e pivots, toda a gente parece em cheque e dificilmente pode ser considerada indiscutível. Gegé, apesar da expulsão, foi, talvez, o melhor jogador do Marítimo e merece ver repetida a aposta. O miúdo Nuno Rocha, outro cabo-verdiano em estreia absoluta, também demonstrou laivos de personalidade tão em abstinência na nossa primeira fase de construção, e deve continuar no lugar de João Luiz.

Quanto ao resto, há tendências já incontornáveis: Briguel continua a fazer uma época miserável na direita, Rubén vai vivendo do status na esquerda, cada vez mais displicente, e Danilo Pereira é um trinco que não tem agressividade, não compensa bem e não tem à vontade com a bola... Da mesma forma, no resto do meio-campo, Artur é um fantasma do maestro do ano passado e Lindoso não dá uma para amostra, ainda em ritmo de Brasileirão.

Com três derrotas seguidas, o momento fala por si e as próximas três semanas sem Liga vão ter de contar, porque a época não espera por ninguém e, assim, estamos completamente a jeito de a deixar passar. A equipa tem de rever, com urgência, a agressividade, os processos e a maneira de estar e, neste momento, impõem-se, igualmente, alterações no onze. 

 

O jogo da Taça com o Freamunde, depois das selecções, já deve ser o último tubo de ensaio para essas mudanças, contando com a recuperação de lesionados (Marakis, Fábio Santos e Alex Soares) e com a promoção de mais uns quadros do filão que é a equipa B (Patrick Bauer, acima de todos). A título de mero rascunho, e a esta distância, concebia para a violenta recepção ao Estoril entrar com: Leoni; João Diogo, Gegé, Bauer e Rozário; Marakis, Alex Soares; Danilo, Sami e Heldon; Derley.

Seja como for, certo é que tem de mudar alguma coisa e já.