No Caldeirão, Domingo às 4
09
Ago

2014

Corações ao alto

Por Paulo Pereira

 

Uma Copa depois, é hora de voltarmos todos a ser profissionais. Essa ressaca ainda nos toma vagamente conta dos ossos, mas as férias acabaram com pompa e o contra-relógio começou com circunstância. O pano de 2014/2015 vai subir, e já só nos resta adivinhar o ano em que muda quase tudo. É hora de começar a sofrer.

 

Muda, desde logo, o número de clubes. Mas também mudou a esmagadora maioria dos treinadores, e os plantéis, mesmo os mais ‘clássicos’, estão a sofrer um processo de metamorfose inusitado e impossível de menosprezar. Nesse jogo de dados, poucos entraram tão de corpo e alma como o Marítimo.

Para nós, sabemos bem, o fim de época foi particular. Não se tratou da corriqueira ‘dança de cadeiras’, mas verdadeiramente do fim de um ciclo especial, que todos guardamos com carinho e extrema consideração. À despedida do Pedro Martins, uno di noi, acabou por somar-se a partida de gente importante, alguns com muitos anos disto (Sami, Danilo Dias), outros com predicados no núcleo duro (Artur, Nuno Rocha e, evidentemente… Derley), fora a natural limpeza de balneário (Leoni, Lindoso, João Luiz, Fábio Santos, Chula, Brígido, Fidélis). Numa equipa que já tinha múltiplas carências e que acabou à margem dos objectivos, percebe-se o que está em causa.

 

Inevitavelmente, há que começar pelo rei empossado. À parte a jogada de relações públicas, em pleno Mundial, e o histórico desígnio de Carlos Pereira em buscar um treinador madeirense - que há uns anos, com Juca, falhara estrondosamente -, Leonel Pontes parece-me uma ideia certa. É claro que não ter calo como técnico principal preocupa sempre e que lidar com o desgaste de um campeonato, para um homem da Formação e das Selecções, será um desafio carregado de obstáculos no caminho. Seja como for, olhamos para os prós e não os podemos desprezar. Num clube que vive da formação há muitos anos, ter um homem testado numa das melhores Academias do mundo só pode ser bem-vindo.

Leonel Pontes também tem, não o desconsideremos, anos de trabalho de campo como adjunto na Primeira Liga e, quando de lá saiu, foi para gerir gente da craveira de Ronaldo, Pepe, Nani, Moutinho ou Coentrão, numa das melhores selecções do continente. Evidente que, nesta grelha de partida, não lhe podemos conhecer o método, nem sequer ajuizar qualquer táctica. Mas Leonel Pontes é um académico, com horas incontáveis derramadas a estudar e a reflectir sobre o jogo e sobre os jogadores. Vale o que vale, mas esse é um perfil que me interessa. Dentro da nossa folha de pagamentos, entre recorrer a um suspeito do costume ou a um estrangeiro duvidoso, sancionaria sempre esta escolha.

 

Há quem diga que um treinador é apenas tão bom como os jogadores de que pode dispor. Não sendo um dogma, é escusado dizer que os recursos existentes têm um papel directo em tudo o que se possa vir a conseguir. Se em relação ao treinador estou optimista, o plantel deixa-me bem mais desconfortável. Confirmam-se, até ver, seis reforços para a equipa principal: Ramsteijn (central), Bruno Gallo e Fernando Ferreira (médios-centro), Edgar Costa (extremo), Dyego Sousa e Ebinho (avançados). Depois, haverá, teoricamente, um joker preso por detalhes: Mohamed Ibrahim (criativo), pelo qual teremos sempre de esperar até ao fim do mês. 

Primeiro, ler as boas notícias: começo pelo defesa com heavy metal no nome, que vem corresponder a uma espécie de sebastianismo maritimista. Em honra e graça da dinastia imortal de Van der Gaag, a Madeira deve ser um dos melhores lugares do mundo para um central holandês viver. Kaj (24 anos) tem, ainda por cima, uma folha aprazível: formado no Feyenoord, é internacional sub-21 pelas Túlipas e vem de um ano de muita utilização no Sparta de Roterdão, ainda que na 2ª Liga. Vai entrar naquele que será o sector mais estável da equipa e terá tempo para crescer.
 
No coração da equipa, Fernando Ferreira chega com reputação de titular. Médio-centro experimentado, foi uma das âncoras do Belenenses ao longo dos últimos anos e vem trazer equilíbrio e experiência a um sector bastante jovem. O ás de trunfo, todavia, é um pequeno prodígio nascido às sombras de Gizé, na corte do Zamalek egípcio: Mohamed Ibrahim, 22 anos, número 10 ou extremo associado a mais do que um bom clube europeu ao longo da última temporada, estará comprometido connosco. Basta agarrar um vídeo do youtube para perceber que parece uma daquelas histórias boas demais para ser verdade, mas resta-nos esperar até ao fim do mês e das provas africanas para ver. E ir rezando um bocado.

No resto do rosário, contam-se as dúvidas. Bruno Gallo, até leva uns bons anos de futebol português... mas nunca foi mais do que um interior tarefeiro, lento, e regressa ao burgo desde as distritais do Rio de Janeiro. Ainda mais depois da quebra competitiva da última época é uma contratação que me é sinceramente difícil de compreender. Edgar Costa segue na mesma linha: aos 27 anos, já não me parece que possa manter o estatuto de eterna promessa que sempre ostentou. Tendo falhado no União e no Nacional, sobe de nível após um ano no banco do Moreirense. Honestamente, o único critério parece-me ter sido a madeirização do plantel, a qual, se compreendo, tem necessariamente de ser feita segundo outros critérios. 

No ataque, se é sempre difícil corresponder, imaginemos quando lá estão as pegadas de um gigante. Suceder a Derley será uma tarefa brutal e, à partida, temos todos de saber moderar as expectativas. Com o adeus natural de Fidélis, a cabeça de área será, inclusive, um território virgem e, possivelmente, o mais sensível da equipa. Não acompanho a Segunda Liga, mas vejo potencial em Dyego Sousa. Tem 24 anos, três de Honra e vem de um ano positivo em Portimão. Seria a chamada boa alternativa porque, como sempre nestas coisas, um adepto fantasia é com nomes que conhece, neste caso, com um placebo que nos restituísse a dor da perda. O problema é a realidade ser um bocado mais crua do que isso e, definitivamente, mais barata. Até ver, a outra solução é Ebinho, 26 anos, mais um viajante dos confins do Rio... Se havia ano bom para cá chegar com essas credenciais é este, com a sombra a acolher um generoso benefício da dúvida, mas dizer que é difícil a lotaria sair duas vezes à mesma taluda parece-me, não só realista, como primário. 

 

Sendo claros, o Marítimo precisaria de três titulares para o ataque, dois extremos e um ponta-de-lança (mais um criativo, se não vier Ibrahim), contando que não perde mais ninguém. Com uma pré-época parcialmente desperdiçada a atravessar o deserto, ficar sem Danilo Pereira ou Bauer agora, como sugeriu Carlos Pereira, seria, então, trágico. Toda a gente sabe que é preciso vender, mas espero que ainda sejamos mais clube de futebol do que fundo de jogadores. Às vezes, não admira que eles mal cheguem e já estejam a falar em sair, quando a imagem que passa é que isto é um entreposto, onde tudo está à venda, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Haja consciência. 

Se o sustentáculo da equipa parece seguro e tem tudo para dar certo (Salin, João Diogo, Bauer, Gegé, Rubén e Danilo Pereira, com Soares, Weeks e até Fransérgio a apresentarem uma cobertura capaz no miolo), a construção ofensiva e o ataque são, até ver, desoladores e não deixam ninguém dormir em paz. Num ano em que muda tanta coisa é apenas razoável reduzir os riscos até ao humanamente possível.

Ao longo de 9 meses de competição, pode haver mais ou menos competência, mais ou menos talento, melhores ou piores resultados. O que é sempre bom lembrar é que não há milagres.