No Caldeirão, Domingo às 4
13
Mar

2014

Bem-vindos ao Expresso Continental

Por Paulo Pereira

 

Jogo bom, entre duas equipas dignas desse nome. Nem sempre bem jogado, mas isso é um salvo conduto que, à luz dos últimos dois anos, e da sangria incontável a que ambos foram sujeitos - Baba, Suk, Héldon, Edgar, Toscano, Soudani, ... -, Marítimo e Vitória fizeram por merecer. Subsistiram os dois na base da confiança timoneira - depois de Jorge Jesus, Pedro Martins e Rui Vitória são os dois treinadores de maior longevidade da liga - e a capitalizarem tudo o que de bom tinham dentro, coisa que, em Portugal, os torna no mais próximo de um exemplo honesto de "projecto" e lhes tem conservado o estatuto de sempre.

É verdade que o Marítimo-Vitória não foi sempre bem jogado, mas acho que é justo dizer que foi sempre intenso, denso e que valeu a pena como experiência futebolística. No nosso caso, era mesmo uma última chamada, e felizmente não deixámos de reservar dignamente o vagão sobrante do comboio europeu.

 

Num ano em que foi infindável a areia a escorrer-nos por entre os dedos, foi um jogo especial por muitas razões. Por termos chegado à melhor classificação da época, igualando dois rivais directos e ficando a 4 pontos de um objectivo que já esteve a mais do dobro, sim, mas, e mais importante do que isso, por confirmarmos, com sangue, suor e lágrimas, a autorização moral para acreditar na Europa. De certa forma, este não era um jogo de três pontos, como bem lembrou o Pedro Martins na antevisão. Era o momento de nos levarmos ou não a sério. No fim, sobrevivemos às venturas e às desventuras, acho que merecemos a estrelinha e soubemos ser felizes. 

Até o jogo se ter escancarado de parte a parte, depois do empate, vimos um Vitória muito competente na organização defensiva, ao passo que ao Marítimo sobrava destreza e capacidade a tocar a bola, mas essa era alheia a qualquer profundidade. Não acho que tenha sido excesso de respeito mútuo, mas antes uma anulação justa de estratégias, que só poderia ter sido contornada num momento de talento individual. Para mim, o 1-0 foi isso: claro que o Assis é trágico a sair, mas tudo se materializa na reactividade perfeita e naquela elegância do gesto técnico do Derley, quase sem ângulo. O Weeks que me perdoe, mas aquele golo não é dele.

Num exorcismo de fantasmas de outras noites, o Marítimo voltou para a segunda parte à procura da sorte que protege os audazes. Menos constrangido com a sua vantagem e mais electrificado pelo momento, a dar asas à sua oportunidade. É nessa fase que o Derley faz duas assistências para golo que, do meu ponto de vista, deviam ser contabilizadas exactamente como tal em quaisquer contas da Liga. Primeiro, o Danilo remata com palas, assassinando a possibilidade de devolver a bola com um sopro a quem a tinha entregue, e que, como é evidente, já estava isolado à frente da baliza... sem guarda-redes na equação. Depois, foi hora de uma anormalidade de arbitragem que faria envergonhar um mau jogo de juvenis, anulando-se um golo ao Artur que mataria o jogo, e que é tão grosseiramente limpo que nem vale a pena desfiar. A constante? O titã a sair da posição #9 para violentar ambas as alas e oferecer um cabaz de golos, porque um monstro precisa de amigos.

Inclinámos a balança mas, ironicamente, foi o Vitória a empatar, num acerto de contas da Providência, que pagou o frango inaugural com uma rosca dolorosa feita em auto-golo. Foi a fase verdadeiramente sensível do jogo e aí, é facto, precisámos de sorte. Crivellaro acertou um dos golos do ano no poste e o Vitória começou a soltar as vagas, que só não fizeram estragos decisivos porque a nossa defesa é hoje propriedade de um senhor germânico mais ou menos enorme, que não a gosta de partilhar com ninguém. O mais admirável em Bauer é a sua maneira de estar. Não é um central acrobático, exuberante, especialmente técnico nem um gladiador. O que plasma é, simplesmente, o ar profissional de quem está só a tomar conta de um recado, como se ser quase sempre melhor do que quase todos os adversários fosse uma mera formalidade de pequena monta. Jogar mal é coisa de gente desocupada, e o Bauer é sério e alemão, tem mais que fazer. Recordo-me tantas vezes dessa cara no Mitchell e esse é, de facto, o maior elogio que lhe posso fazer. 

O Vitória podia ter marcado mais duas ou três vezes, até já no tradicional minuto de descontos – será também pacífico lembrar o Salin como uma das figuras da temporada -, mas não desta vez. A lei, essa, foi sacramentada pelo suspeito do costume, com um bis bestial, num cabeceamento tão definido que o Paulo Oliveira ainda não sabe de onde é que saiu e o Assis onde é que ele entrou.

Para cereja no topo do bolo, ficou muito perto um chutão com pedalada à Fenómeno. Felizmente houve SportTV, para quem não acredita nas minhas dissertações dos Barreiros no Domingo às 4. Como na história dos heróis gauleses, devíamos chamá-lo Derlix: às vezes parece que ele não joga no Caldeirão; parece que caiu num quando era pequeno e ficou assim.

 

Pelos tortuosos caminhos do Senhor, o Leão lá se presta a desafiar o seu destino, já depois de tudo ter parecido perdido, ou pior do que isso. O Pedro Martins disse na flash que têm todos consciência de que há equipas em quebra e do significado que é vir de trás nesta altura, e essa confiança tem de continuar a eclodir em todas as almas daquele balneário. No Estoril, acredito que fizemos por ostentar o benefício da dúvida. Contra o Sporting, a virmos de 4 seguidas nos Barreiros, não seremos nós os mais assustados. 

Em suma, difícil era entrar no comboio. Daqui em diante é só fazer a viagem valer a pena.