No Caldeirão, Domingo às 4
26
Ago

2013

As luzes e as sombras da dupla jornada grande

Por Paulo Pereira

 

Perguntaram ao Pedro Martins, na sala de imprensa do Dragão se, caso lhe tivessem oferecido à partida chegar à terceira jornada com 3 pontos, tendo em conta a perniciosidade da jornada dupla, ele teria ou não aceite. É uma pergunta irritante, porque é condescendente. Se tivéssemos perdido para o Benfica como perdemos ontem, óbvio que estávamos pior. Ter ganho, no entanto, não é um presente do céu. Não sou um bebé que ache que "parelhamos" com os supostos grandes, porque sim, é matemático, e não temos condições de o fazer. Isto só é futebol porém porque ninguém ganha antes de entrar em campo e porque, apesar de todos os contras, é isso que eu, como maritimista, tenho a obrigação de exigir a nós próprios.
Vamos perder na maior parte das vezes, como ontem, mas eu vou estar lá em todas à espera de ganhar, como na semana passada. Isso é a única coisa que nos faz andar. Acreditar e não ir a nada de ânimo leve. Ter ganho um dos dois jogos não é uma dádiva divina que temos de agradecer, é a transcendência na exacta medida com que a temos de ter. Também perguntaram ontem ao Pedro Martins se estava à espera de um Porto tão forte. Ele respondeu que do que estava à espera era de um Marítimo mais forte, o tal que despachou o Benfica há uma semana. É disso que eu estou a falar.

Este Marítimo ainda está a dar passos pequeninos. Tem, contudo, várias coisas no seu código genético que o distanciam de uma equipa banal e fazem confiar no futuro, embora seja preciso paciência, porque a época não vai ser estranha a tropeções de caminho. Para mim, a vitória gorda do primeiro dia foi mais de forma do que de conteúdo. Menos pelo que a equipa jogou, e mais pelo quanto sabia que podia ganhar.
Perdemos seis titulares, e compensamos, fora dois reforços com tudo para provar, com dois miúdos da B e dois suplentes do ano passado. A equipa não jogou futebol a rodos, mas foi extremamente matura. Ganhou como as melhores equipas, não porque teve um dia feliz, mas porque já tem estaleca para ver uma oportunidade e não a deixar fugir. É o ano 4 da era Pedro Martins - o 2º treinador na Liga com maior longevidade em funções -, e continuam a sair mais e mais titulares, mas a espinha já lá mora. Os novos chegam, sobem da B ou vêm do banco, mas são exponenciados por essa almofada, por essa linha de continuidade palpável, que já tem valor de jogo por ela própria. É muito cedo para dizer se este Marítimo vai à Europa ou fica no meio da tabela, mas é justo reconhecer que é uma equipa com a qual vale a pena contar.

A dupla jornada ofereceu as duas dimensões, do que a equipa tem de acabado e do que tem por acabar. Perante um Benfica que entrou sobre brasas, este foi o Marítimo perfeitamente capaz de matar um borrego de uma década. Sem fazer um jogo de sonho, mas certo de olhar o jogo de frente, perceber os momentos e os do adversário, e forjar a sua própria sorte. O Benfica entrou com um princípio de depressão e o Marítimo não fez futebol-espectáculo mas, ao contrário do que se "papagaiou" nos dias seguintes, o Benfica não veio oferecer três pontos aos Barreiros. Só um idiota é que pode achar que, com um orçamento algumas 10 vezes superior, é fácil perder um jogo, logo o mesmo número de derrotas concedidas em toda a campanha do ano passado. Este Marítimo ainda não é brilhante, e talvez possa não vir a ser. Mas, por mérito próprio, é hoje uma equipa com previsibilidade competitiva. Uma equipa que, para ganhar um jogo destes, não tem de estar no melhor dia do ano. Uma equipa com arcaboiço para, a ver a sua oportunidade - e mesmo que essa oportunidade resida numa diferença de favoritismo abissal -, ir lá colhê-la com toda a autoridade.

Ontem, no Dragão, não deu. Com um adversário forte e num ambiente tradicionalmente agreste, fomos levados a melhor. A nível de jogo, autoanulámo-nos por uma deficiência que, nesta fase, parece a primordial: a primeira fase de construção. O Marítimo de Pedro Martins sempre primou pelas saídas de bola curtas para os centrais, quanto muito para o médio-defensivo. Neste momento, a equipa sente-se orfã nesses metros de relva. Roberge, agora titular na Premier League, tinha um pé esquerdo pejado de qualidade e personalidade, muito longe das canhotas de Rossi e Rozário, que ofereceram um golo ao Benfica e iam embrulhando outro para prenda hoje. Na âncora do meio-campo, depois de Roberto Sousa e Rafael Miranda, nos últimos dois anos, o miúdo Danilo mostra-se longe do porte desses senhores, que não viam qualquer drama em levar a bola no pé. Estarmos tão diminuídos a sair com bola afectou decisivamente a produção da equipa, ao que se juntam, ainda, outros dois efeitos colaterais da saída de Roberge e Miranda: défice de agressividade e má ocupação dos espaços. Todos os 3 golos de bola corrida que o Marítimo sofreu foram cruzamentos rasteiros finalizados por um único jogador adversário na pequena-área, num rácio de 2 ou 3 para 1 no último terço, o que é perfeitamente insustentável.

Continuar a remediar as feridas dessas saídas é o desafio no imediato para Pedro Martins, já que os outros novos - José Sá em especial, mas também Alex Soares e Derley - já andam a fazer pela vida. Com mais uns compassos para respirar melhor e para plasmar o seu jogo, o Olhanense será um teste mais claro ao que vale realmente esta equipa, no Caldeirão, domingo às 4.