No Caldeirão, Domingo às 4
22
Abr

2014

Ao Pedro

Por Paulo Pereira

 

Agora já parece há demasiado tempo, mas nem passaram dois anos. Era Verão, e eu acordei cedo e corri num dia de sol maravilhoso da ilha, a ir ao aeroporto fazer uma das coisas que mais gozo pode dar a um fiel. 20 anos depois da nossa primeira participação europeia, garantíamos, finalmente, que lá íamos passar meia temporada a jogar.

Sobre isso, escrevi, na altura, que “a Europa sempre foi o nirvana do maritimismo. (...) Cresci com as imagens do Rui Fontes a chorar na tribuna dos Barreiros, em Maio de 1993, quando a equipa-maravilha liderada por um tal de Paulo Autuori se tornou no primeiro clube madeirense a chegar às competições europeias. Com o golo do Paulo Alves ao Aarau, no ano seguinte, que fez com que uma equipa madeirense vencesse pela primeira vez uma eliminatória continental. Com a bola do Vado à trave, revista no VHS vezes e vezes sem conta, enquanto a geração do meu pai, ainda estarrecida de espanto, se enganava que talvez esse golo pudesse ter derrubado uma tal de Juventus, que tinha o Baggio, o Del Piero e o Ravanelli.

Cresci a acordar cedo para ver o nosso papelinho desenrolado no sorteio da Eurosport, puto a fazer as figas todas para que não apanhássemos um tubarão. E depois a ficar desolado pela forma como nos agigantávamos com os Leeds e os Rangers deste mundo, só para o universo nos virar as costas e fazer-nos perder nos penalties. Ter ganho hoje, chegar finalmente à fase de grupos, é uma emoção indizível.”

Essa manhã, no Aeroporto de Santa Catarina, enquanto o meu batalhão voava de volta dos confins soviéticos, foi um dos dias mais bonitos que já vivi de leão ao peito. Ter centenas de pessoas a pintar a gare das chegadas, e a cantar, em uníssono, que era verde-rubro o sonho, sem barreiras, e que a Madeira ia brilhar, do outro lado do mar, dá-me um nó na garganta e emociona-me até este verdadeiro momento. Aquela massa humana, aquele tipo de devoção, aquela alegria com as pequenas vitórias, aquilo é ser grande todos os dias, aquilo é e será sempre um dos orgulhos da minha vida. Nessa celebração única, houve então o momento em que consegui agradecer pessoalmente ao Pedro Martins, com todo o coração que pude emprestar à minha mão estendida. Ele nem teve de me dizer nada: anuiu de sorriso honesto, incapaz de disfarçar as lágrimas nos olhos. O mundo dá muitas voltas mas nesse dia tive a certeza de uma coisa: quem já chorou pelo Marítimo terá o meu respeito toda a vida.

 

O Pedro fez História cá e isso falará por ele sempre. Foi o treinador com mais jogos oficiais pelo clube. Fez o nosso melhor campeonato em média de pontos e qualificou-nos pela primeira vez para uma pole continental. Foi, a juntar a isso, um comandante sempre admirável em tempos incomparavelmente duros, em que o dinheiro eclipsou e quando tivemos de reaprender a viver.

Perdeu ano após ano todos os seus melhores jogadores e, mesmo assim, fez por merecer o estatuto de 2º treinador de maior longevidade da liga. Tornou um posto historicamente tão difícil, tão impessoal e tão passageiro, num lugar acarinhado, reconhecido e admirado. O banco onde se sucederam a uma velocidade furiosa assustadores erros de casting nos últimos 15 anos, passou a ter uma reputação à altura da casa, e isso dificilmente tem preço. Outros podiam ter feito mais, e uma enormidade teria certamente feito pior, mas fomos melhores por causa do Pedro, nunca terei qualquer dúvida disso.

Tive a sorte de ter bons treinadores por cá, mas raros podem gabar-se de ter sido mais do que isso. O Pedro foi um amigo, um dos que é honestamente um prazer ter por casa. Um homem cordato, pacífico, mas de uma empatia perfeitamente sensacional. Um homem de confiança. Lembro-me dos jogadores dizerem que, com ele, podiam falar de tudo. Que era como se estivessem sempre entre iguais. Lembro-me do meu pai conceder-lhe a maior honra reservada a alguém de fora, que é dizer “o Pedro é um maritimista.” Lembro-me de estar em Aveiro quando ele defrontou a equipa da sua terra natal, o Feirense, e de, no intervalo, virem os adversários ao nosso sector dizer que o Pedro era um dos filhos queridos da Terra e que, por causa dele, desejavam toda a sorte do mundo ao Marítimo.

 

A coisa mais fácil do mundo é ser-se esquecido, é sucumbir-se à indiferença. E desse mal podem padecer até os mais talentosos, porque para as pessoas não conta o que se faz, mas a maneira como se faz. O Pedro vai ter sucesso para onde quer que vá porque, à parte a qualidade técnica, tem qualidades humanas inatas. Sabe estar, sabe tratar e sabe emocionar-se, ao que aliou, ao longo destes anos, as provas de confiança, de carisma e de coragem. Os ciclos são tão inevitáveis no futebol como na vida e o pior que se pode fazer é não saber sair.

Reconheço, por isso, que é o momento certo para acabar. O que me irrita na mesma porque, de uma forma egoísta, queria genuinamente que as coisas pudessem ter corrido ainda melhor com ele. E que continuasse a ser dele o leme, porque, que tenha sido, foi sempre uma honra. Mais objectivos, menos objectivos, é isso que diz tudo o que há para dizer.

Para onde quer que o Pedro vá, sei que vai o Marítimo no coração. Espero que ele saiba que, mesmo se já não esteja cá para sempre, nós estaremos sempre cá para ele.

Obrigado por tudo, Mister.