No Caldeirão, Domingo às 4
21
Out

2013

A Taça e os dias bons

Por Paulo Pereira

 

A Taça foi feita para ser um dia assim: domingo mal depois do almoço, com um sol farto de Outono a beijar o Atlântico em fundo, uma vitória simpática para espantar os males e um rádio ligado para rir com vontade dos males dos outros. Não foi uma vitória sem mácula, nem resolve magicamente os nossos problemas, mas foi importante para sarar feridas, entrar ao Estoril com outra cara e, claro, porque nos deixa uma casa à frente na sempre apaixonante jornada até ao Jamor.

 

À semelhança do traumático passado recente, o jogo ainda não tinha 5 minutos, e as redes forasteiras já estavam a balançar. Alex Soares voltou ao nosso mal-tratado miolo da melhor forma e matou ao segundo poste uma bola venenosa de Héldon, à esquerda.

O povo entreteve-se a pensar que estava prestes a passar uma borracha e reescrever a história da recepção ao Paços, mas Rossi, dramaticamente ligado a esse jogo, decidiu voltar a provar a queda para a tragédia. Com um penalty idiota, ofereceu o empate ao Freamunde, ainda nessa madrugada do jogo. Nem 10 minutos estavam no placard, 1-1.

 

Era natural ter ficado atordoado, mas o Marítimo não perdeu tempo com isso e reagiu. A vintena de minutos que se seguiu foi um cerco à área de Rui Nereu, que só parecia poder acabar com a violação dos portões. Mas não. Quando não foi o outrora prodigioso "novo Preud'homme", foram os seus defesas a sacar bolas em cima da linha, e essa luta contra o destino acabou por virar os próprios ventos do jogo.

O Freamunde, vice-líder de uma das séries da antiga 2ªB, soube ganhar o apetite pelo risco e também podia perfeitamente ter marcado até ao descanso. Grande postura dos nortenhos e, mais importante, uma apreciável qualidade de jogo, como muito bem soube reconhecer Pedro Martins no final.

 

Os justos assobios ao intervalo devem ter posto a equipa em sentido, porque, também ao toque dos 5 minutos, agora do 2º tempo, um Danilo Dias versão 2011/2012 enfiou, do meio da rua e de canhota, um bilhete espectacular que, com a bênção do poste, lá desatou o nó. Serviu para arrefecermos os nervos, mas o Freamunde conservou o futebol positivo e ainda meteu o 2-2 no barrote, num daqueles falhanços para as compilações de piores do ano.

Viria a valer, um dia mais, o homem da hora, o tal de Vanderley Dias Marinho que, a menos que aconteça qualquer coisa de muito estranho, vai escrever, pelos ares da Pérola, uma história para lembrar. Com o seu golo #7 da temporada, a equipa apanhou o expresso para os 16-avos e pôde, pelas poucas vezes este ano, deixar-se estar a divertir com a bola.

 

Individualmente, Derley brilhou, de facto, e não pelo golo. É um ponta-de-lança em cheio, com toque e pujança, inteligência e resiliência, tão forte a progredir com bola, como em diagonais ou a jogar de costas, capaz no último toque como seguro a temporizar. Oxalá que, ao contrário de Makukula, Baba ou Suk, possa fazer a época completa por cá... Héldon, com mais duas assistências, vai cimentando o estatuto de 2ª figura da hierarquia. No resto, não floresceram grandes soluções: a defesa e o meio-campo de cobertura continuam longe de convencer e, com o Estoril no horizonte, a falta dessas garantias não pode deixar ninguém tranquilo.

 

Um último bem-haja ao tomba-gigantes do dia. Em Galegos (Santa Maria) caiu um forte candidato à Champions, treinado por não menos do que um raro catedrático da Linguística, e há poucas coisas tão bonitas como a festa da Taça.