No Caldeirão, Domingo às 4
23
Dez

2013

A Roleta Russa

Por Paulo Pereira

 

Não sei se já jogaram, mas se não, esqueçam a adrenalina dos filmes. É mito. É que o Marítimo anda a brincar a isso desde Agosto e já não sobram pés para chumbar. A única consequência é um profundo esgotamento nervoso para qualquer adepto que se dedica a ver o espectáculo acontecer, semana sobre semana. A nossa época está a ser tão surreal que às vezes penso que pode ser só a brincar. Que me virão perguntar, mais cedo ou mais tarde, se eu achei que era mesmo possível incinerar tantos pontos de formas tão inacreditáveis tantas vezes.

Eu preferia estar a jogar mal. Ter um plantel de trolhas, não conseguir fazer dois passes seguidos ou ter o pior ataque da Liga. Com falta de capacidade eu podia compadecer-me; já com falta de competência, tenho impulsos homicidas. Sublinhe-se que não é falta de atitude: a equipa quer, gosta e sabe jogar. O problema é a frequência paranormal com que acontecem erros primários que anulam todo e qualquer predicado da equipa. A previsibilidade de cada próximo jogo do Marítimo só é mesmo comparável a jogos de azar. Em vez de estádios, devíamos jogar em casinos, porque a segurança era a mesma. O ‘tudo pode acontecer’ nunca fez tanto sentido. Em mau.

 

Os primeiros 25 minutos do Marítimo-Braga foram de uma paz santíssima, no oposto diametral ao que os "adeptos" alheios se dedicaram a fazer o dia todo no Funchal (mas já lá vamos). Com a confiança amassada por estes dias, as equipas respeitaram-se mutuamente, indecisas em relação ao melhor momento para perderem a vergonha. Surgiu, como é natural nestes casos, numa bola parada: Derley cabeceou, Eduardo ficou pregado, Baiano sacudiu em cima da linha. Foi tudo o que o Marítimo precisou.

Nos 10 minutos seguintes, parecemos ter dominado todos os segredos e os destinos das bolas paradas que tanto estrago nos têm causado este ano. Sempre na sequência de cantos, primeiro Danilo Pereira não marcou de bicicleta um dos golos do ano e depois deu a Eduardo a defesa da noite, antes de cabecear a contar. A vantagem foi lógica e o próprio 2-0 pouco depois (grande bola de Artur, finalmente em subida de forma) não podia ser posto em causa: o Marítimo era soberano no jogo.

Em circunstâncias normais, teria ‘acabado’ aí. Esperámos, especulámos e atacámos antes de ser atacados. Quando o Braga acordou, já perdia por dois. Todavia, este Marítimo tem muitas circunstâncias; nenhuma delas, jamais, é ‘normal’. Só em 13 jornadas, já tínhamos conseguido perder três! vantagens contra o Paços e duas contra Sporting, Gil e nacional. Desta vez, estreámos o capítulo de perder dois golos à maior.

 

Ao minuto 43 do jogo abriu-se a porta a mais uns "Ficheiros Secretos". O Braga já tinha perdido e nem uma oportunidade tinha tido. Mas mesmo quando parece impossível comprometer, é só deixar connosco. Quando não são os centrais a fazerem TILT, quando não são os laterais a fazerem coberturas deficientes (que as fizeram muitas ontem...), quando não são os dois piores guarda-redes do plantel a ver a banda passar, consegue ser o mais experiente a mandar o perú do ano.

Com isto não quero dizer que seja azar. Já disse e repito: o problema do Marítimo não tem nada a ver com azar. É do foro táctico e mental, e quem joga futebol profissional como jogava no recreio estará sempre mais próximo de perder do que de ganhar.

Escusado será dizer que nesse momento perturbador qualquer alma nos Barreiros foi assombrada pela ideia de que já não ia ganhar. O Braga, porém, trocou as voltas e entrou para a segunda-parte perfeitamente apático. Sem soluções, em arrasto, inócuo. O jogo levou com mais 20 minutos pachorrentos, cujo grande momento, ironia das ironias, é outro quase-golo do ano, com o Héldon a disparar uma tesoura sensacional que podia ter rechaçado o nosso desejo de morte.  O que rechaçou foi a bola no poste e aí voltou o Braga à vida.

Pelo que conseguiu fazer a partir desse momento, a equipa de Jesualdo mereceu realmente empatar. Foi inteligente a explorar a nossa debilidade nos flancos, carregou jogo, foi autoritária e fê-lo naturalmente. Agora ninguém me pode dizer que, se o jogo teve três capítulos, o Marítimo não teve a capacidade e a obrigação de o fechar, sem margem para opinião, em dois deles. 

 

A partida não acabaria sem que o tambor do revólver girasse mais uma vez: Derley, de quem nunca vi um rigoroso mau gesto em todos estes meses, saltou, sabe-se lá porquê, com o cotovelo na cara de um adversário e foi expulso (5ª expulsão da época...). Coisa que se aceita, mas que não se repetiu quando Salvador Agra tentou ir à cara de Gegé, pouco depois.

Rui Costa, aliás, conseguiu vestir nos últimos 10 minutos uma admirável capa de "fraco com os fortes" que inclinou os Barreiros com mais convicção do que as retroescavadoras das obras. Sem muita fortuna, diga-se, porque, mesmo em inferioridade, as duas oportunidades para ganhar voltariam a ser do Marítimo.

Em suma, custa muito ver a equipa fazer tudo o que é mais difícil e continuar a deitá-lo a perder com um compulsão quase freudiana. Espero encarecidamente que o Pai Natal traga qualquer guarda-redes e um general para a defesa. Quanto ao resto, só sei que não tenho sorte a jogar à roleta.

 

P.S. – Inacreditável o que a claque do Braga fez 5ªF no Funchal. Do aeroporto à Baixa e ao estádio, foram pilando, destruindo e batendo no que lhes apeteceu. Na impossibilidade de tratar este tipo de selvagens como eles mereciam, e se ainda não somos terceiro-mundistas, muito estará errado se o clube não sofrer consequências que sirvam de exemplo. O mesmo serve para Rubén Micael, cujo comportamento próprio do acéfalo que é, a incitar abertamente as bancadas no fim, rendeu os resultados que todo o país viu. Se a carreira já lhe falhou, ao menos era tempo de lhe ensinarem qualquer coisa.