No Caldeirão, Domingo às 4
04
Set

2013

A ressurreição do Labreca e a maldição dos Barreiros

Por Paulo Pereira

No ano passado, o Marítimo ganhou apenas 3 jogos no Caldeirão, e é honesto dizer que esse foi o pecado capital para as aspirações da época. Uma equipa incapaz de fazer valer a sua força intra-muros sabota-se a si própria, e 2012/13 foi um exemplo acabado desse trauma. O ano novo, porém, não podia ter começado melhor, com a ultrapassagem engalanada ao vice-campeão, e essa primeira vitória frente ao Benfica em toda uma década.

A sorte estava lançada e, no regresso a casa, pareciam reunidas as condições para voltar a fazer do Caldeirão um lugar de assustar, logo frente a uma dessas três equipas que foram efectivamente derrotadas naquele relvado no ano transacto. Os fantasmas recentes voltaram, contudo, ao de cima.

 

O Olhanense nem foi um adversário tão intratável como se pensava, no sentido em que, como tantas outras equipas ao longo dos anos, não se veio trancar ao Funchal, nem abdicar do jogo. Mesmo que bastante inferior, e partindo sempre de um bloco baixo em que não tinha, naturalmente, a iniciativa de jogo, os comandados dessa lenda viva chamada Abel Faisal Xavier foram explorando o contra-golpe e nunca abnegaram a sua sorte. Mesmo que não tenham merecido sequer empatar, é justo reconhecer-lhes isso. 

A história do jogo do Marítimo é a história mil vezes contada de um favorito pouco clarividente e não especialmente agressivo, que sofre uma contrariedade, e que, depois, parece ter convocado uma Lei de Murphy qualquer. O Marítimo - em 4-2-3-1 claro, num registo definidamente mais ofensivo do que nas jornadas de abertura - entrou convencido de que as coisas iam acontecer. Sentou-se no meio-campo adversário, a tentar quebrá-lo com a aceleração das alas, rematou e esperou. Não aconteciam porque outro velho mito não se prestava a isso.

Mesmo que ainda não se tivesse certeza nessa primeira meia-hora, os mais de 30 graus de uma tarde de sol aberto no Funchal assimilaram-se, para Ricardo, a uma noite de Euro-2004 na Luz. Uma, duas, três defesas de estrela que ninguém estava a levar assim tão a peito, até que, de repente, se tornaram gravosamente sérias, quando uma bola perdida à entrada da área caseira, acabou em penalty e 0-1. Sem ter percebido bem como acontecera, a vitória do Marítimo parecia, ao intervalo, prestes a emigrar para outra ilha qualquer.

 

O balneário não trouxe iluminação. Afectado pela pancada e afligido pelo calor, com um miolo claramente deficitário - jogo muito pobre do mágico Artur, e igualmente do box-to-box João Luiz, que tarda em produzir o que quer que seja -, o Marítimo padeceu para voltar ao jogo. Valeu a potência de Sami, por estes dias ao nível de há dois anos, e os raides de Héldon, ainda que, até à 25ª hora, Ricardo tenha prosseguido com as suas defesas à queima-roupa. E quando não era ele, eram os tiros que voavam sobre a cabeceira deserta nas suas costas.

Como na moda, a redenção estava, porém, guardada para os descontos: já definitivamente mais com o coração do que com a cabeça que meteu a bola na rede, Fidélis pulou do banco para salvar a honra do convento (um golo simbólico, para um avançado cheio de potencial, que só precisa de mais confiança). Ninguém saiu de sorriso na cara, mas ao menos deu para respirar o alívio.

 

4 pontos à 3ª jornada não seriam maus à partida, tendo em conta o calendário, e a equipa também continua invencível em casa, mas essa não é uma avaliação lapidar: afinal de contas, desperdiçar contra a Olhanense o bom excesso colhido contra o Benfica é o tipo de coisa que anula as boas épocas. Mas é assim futebol. Com os Barreiros a continuarem bem mais traumáticos do que deviam, se calhar não é má altura para experimentar a dupla jornada forasteira que se avizinha, com paragens em Setúbal e em Belém.