No Caldeirão, Domingo às 4
24
Mar

2014

90 segundos

Por Paulo Pereira

 

Entre 2003 e 2005 nenhum grande ganhou nos Barreiros para o campeonato. Em 2010, por exemplo, o Mitchell tinha abatido dois em três. Este, porém, parecia ser o ano para acabar a História, a hora para fazer o maravilhoso pleno de moldura. Não porque estivéssemos perfeitamente pujantes, a viajar nos cumes da tabela, mas justamente pelo contrário.

Para o bem e para o mal, este é um Marítimo do caos. Um Marítimo imprevisível, capaz de se ferir das formas mais ingénuas mas, igualmente, de agredir sem aviso qualquer adversário. Um Marítimo, em suma, sem nada a perder. Foi assim que caíram no fervor do Caldeirão tanto o campeão em título como o campeão para ser. Devendo ou não, estava profundamente moralizado para o jogo com o Sporting, bem mais, por exemplo, do que com a ida anterior à Amoreira. Era como se pudéssemos sentir o gosto do sangue na antecâmara, numa adrenalina contagiante.

 

Acho que o resultado mais justo teria sido o 2-2, apesar de que, a haver vencedor, tenha sido justo. O Sporting fez um jogo muito longe do brilhante, mas teve frieza, disciplina e carácter, em mais uma demonstração da espinha emocional que traduz o trabalho espantoso de Leonardo Jardim. Por princípio, acho sempre que quem ganha justifica ganhar e é isso que reafirmo aqui; contudo, qualquer pessoa que avalie o jogo honestamente não o pode dissociar da gravidade de erros com que o Marítimo o decorou em bandeja de prata.

Nos 6-0 ao Arsenal de sábado, Mourinho disse que se limitaria a analisar os primeiros 10 minutos, porque a partir desse momento o jogo já tinha acabado. Do Marítimo-Sporting, apetecia-me analisar somente o primeiro minuto e meio. É certo que dificilmente alguma derrota se explica num lance, numa contrariedade ou num erro de um jogador, mas aquela aberração de penalty com que o Márcio Rozário nos violou o jogo aos 90 segundos é de uma violência capaz de tirar um Buda do sério.

Num jogo com aquele grau de dificuldade, a reacção de um futebolista com 30 anos, com a responsabilidade da braçadeira de capitão, é pisar, sem bola, um adversário que seguia para a linha. Ao minuto e meio. Como é que numa primeira divisão nacional se explica um erro destes? Não é coisa de um juvenil, é uma acefalia, que compromete um jogo, uma semana de trabalho, toda a equipa e, quem sabe, um objectivo. No fim ele disse que dava no mesmo, porque senão era golo certo. Ainda mais grave do que ter feito aquilo, é ter feito convicto. No segundo golo, também é ele quem não alivia a bola. E, para quem tenha estado atento, também é ele quem oferece, bola-no-pé, dois golos ao Slimani. 

Agora perguntem-me se toda a gente não tem direito a ter um dia mau? Evidente que sim. O problema do Rozário é ainda não ter tido um dia bom este ano. É positivamente incontável a quantidade de vezes que ele tem sabotado a equipa, quer por deficiência técnica, quer pelo mau posicionamento, pela abordagem ridícula aos lances ou por verdadeiras paragens cerebrais. Ou pior, por tudo isto ao mesmo tempo. Se ele não parecia mau ao pé do Roberge, pensem em quão bom era o Roberge. Que o Rozário seja um titular indiscutível é o tipo de coisa que me faz perder anos de vida e que mais profundamente condeno ao Pedro Martins. O Rozário tem estatuto, é bom profissional e tem peso no balneário, não discuto isso. Mas nenhum desses lhe melhora os pés ou o julgamento em campo e, ao fim de 7 meses, até um cego já teria percebido isso. Perder jogos porque os outros são melhores, eu aceito. Perder porque temos vacas sagradas em campo, só noutra vida, quando for hindu.

 

Tirado este peso do sistema nervoso, orgulho-me da reacção da equipa, quando o natural, depois daquela barbaridade, era querer meter uma corda ao pescoço. Não foi sempre sustentada, mas foi sempre genuína, e surgiu exactamente nas fases mais sensíveis, depois dos golos sofridos. Ironicamente, o nosso grande pecado foi mesmo não conseguir capitalizar a nossa mão mais forte, assim que o Nuno Rocha e o Weeks construíram aquela pequena obra de arte. Porque no decorrer da segunda-parte, e até à crueldade de golo do Jefferson, merecíamos ter feito o maldito 2-2. Mesmo apesar do mau jogo do Danilo e do Artur nas alas, foi nessa fase que o Derley se soltou finalmente (muito bom trabalho de casa do Leonardo a anulá-lo em profundidade, e sempre com 2x1 na marcação), espalhando os seus focos de incêndio (que mimo a tritura aos rins do Maurício), alimentado, tanto quanto possível, pela sociedade Weeks-Rocha nas costas. 

Este ano encontramos muitas coisas muito tarde, a maioria em andamento e quase nenhumas com tempo para assentar. Mas olho com coragem para o futuro, vendo uma matriz tão nova (Bauer, Danilo Pereira, João Diogo, a juntar aos citados) e com tão bons valores competitivos. Consigamos evitar a sangria animal de Verão e o próximo ano pode ser muito diferente, em tudo para melhor.

No resto, é continuar a correr pelo limbo até Maio, na esperança de que, no meio desta loucura de sete candidatos a um lugar, o pêndulo ainda caia para este lado.