Curva Belíssima
11
Dez

2013

Vertigens

Por Luís Pires

 

Há muito tempo, demasiado tempo, que não sabia o que era estar cá em cima. Tanto tempo que agora tenho vertigens, por não estar habituado. Costuma dizer-se que, quando se tem vertigens, não se deve olhar para baixo. Talvez o segredo agora seja esse: olhar em frente, olhar para cima, continuar a jogar até aqui sem olhar para baixo à procura de quem está atrás de nós.

 

Tive a oportunidade de escrever sobre a chegada ao primeiro lugar depois da goleada ao Paços de Ferreira. Por caprichos profissionais que não esperava, tornou-se completamente impossível. Temi ter perdido a oportunidade. Mas não. Afinal, ganhei a oportunidade não só de escrever sobre a liderança, mas sobre a liderança isolada.

Seria este o momento de apelar à calma e travar os excessos de euforia. Mas caramba, é impossível não se estar minimamente eufórico com as doze jornadas de campeonato que já lá vão, com o futebol que o Sporting tem conseguido, com a união e vontade que o grupo tem demonstrado. Foi isso que conduziu a equipa ao primeiro lugar. E é com esses valores e essa vontade que devemos ficar eufóricos. É isso que deve continuar a ser exigido.

 

Ao olhar para o presidente do Sporting no final do jogo com o Gil Vicente, não consegui deixar de sorrir. Já lá vai o tempo em que não estava habituado à presença de Bruno Carvalho no relvado e que me envergonhava com aquela euforia no final dos jogos, em que parece uma criança deslumbrada no terreno de jogo e em que só falta pedir autógrafos aos jogadores. Gosto daquela postura. Ao fim ao cabo, nós, adeptos, sentimo-nos assim quando o árbitro apita no final de mais uma vitória do Sporting. Gosto de ver isso no nosso presidente, por mais gozo que lhe mereça da parte de rivais que há muito deixaram de se rever no seu. 

E gosto que essa postura de criança eufórica se esfume depois de sair do estádio e quando regressa àquele que é verdadeiramente o seu trabalho, atrás da secretária. É ele, bem como a restante estrutura directiva do clube, que tem de manter a calma e o bom senso num momento que é propício a que nós, adeptos, entremos em euforias. 

 

Não devemos. Até porque agora, mais do que nunca, as coisas vão ficar mais difíceis.

De nós se vai dizer que só estamos lá em cima porque os rivais directos estão aquém das expectativas. Bardamerda. Nós estamos a fazer a nossa parte, mais até do que seria possível pensar no início da época, nada temos a ver com os outros.

De nós se vai dizer que temos tarefa facilitada com equipas mais pequenas, porque contra nós não jogam com autocarros. Bardamerda. Já houve esta época quem jogasse com autocarro e se safasse, como o Rio Ave, que empatou em Alvalade, e quem mesmo com autocarro saísse de lá goleado, como o Paços de Ferreira.

De nós se dirá que o bom momento é temporário e não tarda voltamos lá abaixo que é onde pertencemos. Bardamerda. Já lá vão doze jogos, já recebemos o Benfica, já fomos a Braga e ao Dragão. É óbvio que não vamos continuar num ritmo frenético o campeonato inteiro, provavelmente vamos até perder e cair para o último lugar do pódio. Mas, por agora, estamos cá, não é a nós que cabe fazer o assalto ao primeiro lugar, é aos outros, a nós cabe-nos tentar ganhar todos os jogos para o manter.

 

Não devemos mudar os nossos objectivos, mas podemos ter esperança (e eu até sou o copo meio vazio). É altura de, sabendo que o primeiro lugar dá mais pressão, assumir as responsabilidades de quem está a fazer um bom campeonato, mesmo sem esquecer as suas limitações. E é altura de levantar a cabeça que andava em baixo há quatro anos e olhar em frente, olhar para cima. A vista cá de cima dá vertigens, mas também dá gozo.