Curva Belíssima
06
Fev

2014

Uma questão de expectativas

Por Luís Pires

 

“Porque eu só estou bem
Aonde não estou,
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou.”

 

O Variações sabia-a toda. Se durante a pré-época me dissessem que, à 18ª jornada deste campeonato, o Sporting ia jogar à Luz estando em segundo lugar, a dois pontos do líder Benfica, eu tinha dito “compro”, sem hesitar. Mas hoje, já dizia o mestre Sérgio Godinho, “hoje soube-me a pouco”.

 

Esta coisa das expectativas é tramada. Nem eu, nem nenhum adepto minimamente racional estaria à espera de fazer boa figura este ano. Havia a esperança de sair do buraco onde andámos nos últimos anos, mas não mais que isso. E quando se olhava para a equipa, o sentimento não mudava: a falta de dinheiro e de presença nas competições europeias obrigava a um plantel de miúdos e remendos, sem jogadores de qualidade reconhecida, apenas uns desconhecidos que nem promessas eram.

Mas esta equipa encolheu os ombros, marimbou-se na desconfiança alheia e, liderada por um excepcional Leonardo Jardim, foi à luta. As primeiras dezassete jornadas mostraram aos adeptos que não podiam contar com um plantel de estrelas, mas podiam contar com uma equipa de leões. E os bons resultados, apoiados aqui e ali por bom futebol, entusiasmaram e quase fizeram esquecer que Benfica e Porto estão noutro patamar. Quase. 

É que, mal começamos a ver um ínfimo sinal para aumentar as expectativas, logo vem a realidade para nos tombar outra vez. O jogo com a Académica foi mais uma chamada à Terra. O Porto perdeu, o Benfica empatou, nós jogávamos em casa e podíamos voltar à liderança. Claro que não aconteceu.

 

“Não consigo dominar
Este estado de ansiedade"

Pois. Entre a falta de ideias dos jogadores do Sporting, o autocarro da Académica e o penalty não assinalado pela mão do Halliche, a principal culpada da derrota foi mesmo a ansiedade . Tremeram-nos as pernas, pronto. Não há dinheiro, não há vícios. E eu, capitalista convicto, por mais que queira acreditar num milagre de David, sei que 99% das vezes vai ganhar quem tem dinheiro.  

O jogo foi fraquinho, a aposta no Carlos Mané e no Wilson Eduardo para titulares não me pareceu boa e o guarda-redes da Académica esteve soberbo sempre que foi chamado a intervir. E assim se resume o empate a zero. Não consigo estar zangado com a equipa, mas também não consigo estar resignado. Malditas expectativas, que conseguem sempre toldar a realidade.

No final do jogo, Leonardo Jardim voltou a dar mostras de grande inteligência. Está visto que esta equipa não é suficientemente madura para lidar com muita pressão que possa sobre ela ser colocada. Por isso mesmo, questionado sobre se o Sporting estava desolado por falhar o objectivo da liderança, o treinador teve um discurso impecável: o objectivo não é nem nunca foi a liderança, sabemos que não estamos no mesmo patamar dos outros, o objectivo é tentar ganhar os três pontos em cada jogo e tentar fazer um bom campeonato com uma boa classificação.

Depois do que este Sporting mostrou, é legítimo considerá-lo um candidato. Talvez seguindo a analogia “dois cavalos e um cavalinho” de José Mourinho, mas um candidato ainda assim. E Jardim sabe disso. Mas também sabe que não o pode assumir em voz alta, cá para fora, porque isso aumentaria de imediato a pressão sobre esta equipa e mexia ainda mais com as expectativas dos adeptos. 

 

E como é que isto nos deixa para o jogo com o Benfica? Na mesma. Eles são favoritos, nós somos mais fracos. As probabilidades estão do lado deles, ainda mais quando o nosso meio-campo vai desfalcado. Sim, porque o pior do jogo com a Académica foi o amarelo ao William Carvalho, que teve tanto de estúpido como de bem mostrado. Ir à Luz já me assusta, mas ir à Luz sem ele é coisa para me fazer não ver o jogo.

Sou um caguinchas, sim. E sem grandes expectativas.