Curva Belíssima
07
Nov

2013

Sensações, sensacionais e sensacionalismos

Por Luís Pires


A língua portuguesa é recheada de pormenores deliciosos. Temos palavras para tudo, para todas as ocasiões. Temos palavras da mesma família para hiperbolizar algo e até temos palavras da mesma família para inventar algo. Ora vejamos:

 

Sensação | s.f.

Impressão recebida pelo sistema nervoso central quando um dos órgãos dos sentidos recebe um estímulo exterior (muitas vezes associada a prazer ou dor). Ex: sensação de frio.

Fig. Impressão moral; emoção. Surpresa, espanto seguido de certa agitação: notícia que causou sensação.


É isto que o Marítimo, por norma, é no campeonato português: uma equipa sensação. Em boa verdade, há tantos anos a figurar no principal escalão do futebol nacional, alternando entre o meio da tabela e os lugares europeus, o Marítimo é mais uma certeza. Mas não deixa de constituir sempre uma das “equipas sensação”, pelos escassos recursos que tem e o bom futebol que consegue praticar. Não foi esse Marítimo que o Sporting recebeu em Alvalade. Foi um Marítimo em crise de resultados, com dificuldades defensivas, a precisar urgentemente de cimentar uma identidade. 

É isto que o Sporting está a ser esta época. Por mais que teimem em colocar a equipa no caminho do título e dizer que só está a fazer o papel de um dos grandes, o que os leões estão a ser é uma “equipa sensação” deste campeonato. Depois dos recentes e consecutivos annus horribilis, um clube sem dinheiro e com uma equipa de putos e centrais que em condições normais não tinham lugar na primeira divisão estar no pódio a discutir os primeiros lugares é uma sensação. Pode não durar, podem vir por aí abaixo, mas para já são uma equipa sensação. A equipa joga, a equipa luta, a equipa tenta, tem garra.

 

Sensacional | adj.

Relativo a sensação, que produz grande sensação; extraordinário, genial, surpreendente: uma novidade sensacional.

 

É a melhor forma de descrever a atitude de um Marítimo que, em crise, bateu-se olhos nos olhos com o Sporting. A melhor forma de descrever um Marítimo que lutou, tentou, deu a volta quando esteve a perder, ameaçou, saiu vergado a uma derrota mas de cabeça erguida. É a melhor forma de descrever o abraço de euforia com que um jogador do Marítimo, Héldon de seu nome, envolveu Pedro Martins, um treinador de ideias claras que comanda a equipa há alguns anos e que tem mostrado competência suficiente para agora resistir a esta fase menos boa. A equipa está em crise, mas solidária. É mais do que se vê em muitas outras onde as coisas correm melhor. Por isso, tal como admito (mas não quero) que o Sporting pode vir a quebrar, admito (quero) que o Marítimo reaja depressa e volte ao lugar habitual de “equipa sensação”.

É a melhor forma de descrever a reviravolta do Sporting e o apoio dos adeptos, que empurraram a equipa para a vitória. Parecem longe os tempos em que, à primeira escorregadela, choviam coros de assobios e insultos à equipa. Contra o Marítimo, o Sporting demorou a entrar no jogo e, mesmo depois do golo, não foi muito esclarecido. Os adeptos não se foram abaixo, pelo contrário. Subiram o tom dos cânticos e levantaram uma equipa que, após o intervalo, tardava em empatar o jogo e via o seu “matador” falhar golos que não costuma. É também a melhor forma de descrever a garra de Adrien na disputa de cada lance, a alegria de jogo do Capel e a qualidade do William Carvalho.

 

Sensacionalismo | s.m.

Característica ou particularidade de sensacional. Interesse ou procura pelo sensacional. 

Utilização ou resultado da busca por assuntos sensacionais cuja repercussão tende a fomentar escândalos, chocar uma sociedade, sem que tais assuntos sejam verdadeiros.

Filosofia. Fundamento ou teoria cujas ideias são provenientes, exclusivamente, das sensações ou das percepções sensoriais.

 

É aquilo a que nos habituam diariamente os jornais e comentadores desportivos. É aquilo que mais se vê, lê e ouve no mundo do futebol. É aquilo que se escreveu nos jornais depois de o Sporting marcar oito golos a uma equipa do distrital – “Sporting tem o ataque mais concretizador da Europa” – e é aquilo que começam a fazer agora com o Montero.

No Sábado, o colombiano voltou a ficar em branco, pelo segundo jogo esta temporada, pelo que a coisa já está a dar falatório. Esqueçamos que um dos dois jogos em que Montero não marcou foi contra o Porto, no Dragão, e que até só não o fez porque o Helton foi enorme. Esqueçamos também que se Montero marcasse em todos os jogos não era o Montero, era o Ronaldo. Foquemo-nos só no absurdo de, no Sábado, quando decorriam vinte e poucos minutos de jogo e o colombiano rematou dentro da área ao lado da baliza, um dos comentadores pergunta “será que é desta que Montero se vai reencontrar com os golos?”.

Como assim, reencontrar?!?

Na altura, o rapaz só não tinha marcado no Dragão! Supostamente, para se reencontrar com os golos Montero não era obrigado a passar por um período de seca? E, supostamente, um período de seca não devia durar mais do que um ou dois jogos? É que se bastar um jogo sem marcar para um avançado estar em crise, 95% dos avançados do planeta estão em crise. Mas eu não sou jornalista desportivo, só gosto de bola, se calhar não percebi aí um qualquer pormenor super importante. Um pormenor que não será, certamente, encontrado na conversa que se desenrolou entre os comentadores do Sporting – Marítimo, após o primeiro falar da seca do Montero. “Será que tem a ver com a filha recém-nascida, que não o deixa dormir?”; “Não, isso não pode ser, porque na semana passada ele também não marcou e a filha ainda não tinha nascido”; “pois, tem de ser outra explicação”. A explicação, meus caros, é que nas botas do rapaz diz FM17, não CR7...

Não vale a pena dar mais exemplos, que são muitos (vide ontem “A vingança de Roberto” nas capas dos jornais), até porque das três palavras, esta última é a que me merece menor esforço de dissertação.

Pelo contrário, termino com um último exemplo de sensacional: a crónica do Paulo Pereira, adepto do Marítimo no 11para11. Mais do que optimista, o Paulo é um entusiasta. Põe o dedo na ferida, assimila que existe, mas não deixa que o limite. A ler aqui.

 

PS – O Labyad continua na equipa B. O Carrillo pode ir para  a C?